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A caminho de Saramago

Anelito de Oliveira

José Saramago. Foto: Arquivo Global Imagens.



Quaisquer comemorações neste ano de 2022 do centenário de nascimento de José Saramago só poderiam e ainda podem ser parciais. Impossível contemplar a totalidade de uma das maiores referências de multiplicidade deste que ainda é o nosso tempo. Enquanto a Obra saramaguiana provocar a sensibilidade de leitores da produção literária grafada em língua portuguesa ainda estará vigente o nosso tempo, que é de partido, de homens partidos, como Drummond o viu de modo clinico.


Esse tempo, que solicitou a Obra do português como dispositivo hermenêutico, como mecanismo de enfrentamento de suas aporias dilaceradoras, é o da modernidade em termos largos, isto é, o período que começa nos séculos XV e XVI com o Renascimento, o Expansionismo europeu, a Bússola, o Telescópio, a Reforma Protestante etc. Esse período que segue um curso turbulento nos séculos XVII, XVIII e XIX – Revolução Francesa, Revolução Industrial, Iluminismo, Colonialismos, Escravaturas, genocídios etc – até atingir suas inflexões absurdas no século XX - duas guerras mundiais e outras tantas regionais, holocausto, nazismo, fascismo, stalinismo, ditaduras etc.


O fim ou não da modernidade, o fim da história, a morte disso ou daquilo, de Deus, da Arte, do Homem, do Autor etc, nada disso chegou a constituir “a” questão para Saramago, que procurou se orientar sempre por uma perspectiva crítico-realista em franca oposição a uma perspectiva mítico-idealista. Da sua perspectiva, a disposição dos elementos na vida social tem ascendência sobre os discursos que se produzem sobre esses elementos, que consistem evidentemente numa interpretação sobre esses elementos.


A disposição contradiz via de regra o que se diz sobre os conteúdos e as formas que configuram a vida social: a história, a religião, a política, a economia, a cultura. Contradiz também aquilo que é de ordem subjetiva, imaterial, a interioridade dos indivíduos, seus pensamentos, suas sensações, seus desejos. Logo, à luz da perspectiva crítico-realista de Saramago, o ato de escrever tem como pressuposto básico a superação do invólucro discursivo que envolve a vida social em prol da desvelação da vida social ela mesma, do desnudamento de um corpo cuja anormalidade é disfarçada pela sua aparente normalidade.

O escritor se nos apresenta nesse processo como um operador obstinado dos muitos órgãos que compõem esse corpo, que maneja a pena como um bisturi, com o qual perfura sentidos que costuram outros sentidos. Aproximar-se da sua Obra é, por isso mesmo, envolver-se com uma operação altamente objetiva, dotada de uma logicidade que, por si só, denuncia o lugar central que nela ocupa a consciência, que se define em termos fenomenológicos, como se sabe, pela intencionalidade.


A intencionalidade que distingue Saramago consiste, em linhas gerais, na manutenção de uma distância entre sujeito e objeto, entre Obra e Autor, que foi se tornando cada vez mais difícil ao longo do século XX à medida que se intensifica a proverbial crise da modernidade, com o desmanchamento no ar de tudo que havia de sólido no mundo pré-moderno, para recordar o ManifestoComunista de Marx e Engels. Sua consciência se colocou desde os primeiros momentos na contramão do seu tempo e assim se manteve, sem que o Escritor se rendesse mesmo diante do insucesso literário experienciado durante as primeiras décadas de ofício, dos anos 1940 a 1970.


O gradativo abandono de alguns gêneros discursivos, como a poesia e o drama, e a dedicação prioritária ao romance não significaram rendição ao mercado editorial, até porque na forma romance por ele trabalhada estão elementos característicos daqueles gêneros. A vocalidade, a descontinuidade e a reflexividade, por exemplo, que caracterizam a lírica; a objetividade, a presentidade e a transitividade que caracterizam o drama. Naturalmente, o caráter híbrido singulariza a forma romance em geral, mas não há dúvida de que Saramago lida com esse hibridismo de modo bastante peculiar, sem interesse de superestimar a forma romance, de maximizar o seu fetiche e torná-la uma mercadoria mais venal.


O romance de Saramago é um caso de elaboração cognitiva, de um processo que tem como “locus” irradiador a problemática do conhecimento percebida em termos práticos, o que o vincula tanto à filosofia quanto à política. Dir-se-ia que na filosofia está seu ponto de partida, especialmente na filosofia da linguagem, seu arcabouço racionalizante, mas é na política que está seu ponto de chegada, sua potência inquisidora, dessacralizante, de que Levantado do chão e o grande marco e Ensaio sobre a lucidez é o ponto culminante.


A forma romance, como se sabe, não é o gênero discursivo com uma tradição mais exuberante, digamos, na literatura portuguesa, o que, para além de lugares comuns obscurantistas como o famigerado “talento”, é sugestivo da posição de Portugal na Europa. A forma romance, que tem sua referência mais eloquente na Espanha do início do século XVII com o Don Quixote de Cervantes, triunfa na França e Inglaterra do século XIX onde a classe insurgente, a Burguesia, consolida-se com plena consciência – dado importante – e encontra em Portugal suas ressonâncias românticas e realistas, respectivamente, em Camilo e Eça.


Ao longo do século XX, vários romancistas surgiram, sobretudo a partir dos anos 1930, dentro do chamado Neorrealismo, como Raul Brandão, Alves Redol, Carlos de Oliveira, Miguel Torga. Nas décadas posteriores, outros tantos apareceram, como Vergílio Ferreira, Agustina Bessa-Luis e Lídia Jorge. Todavia, Portugal nunca deixou de ser prioritariamente uma terra de poetas, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos, e Saramago, ao exercitar, dentro de suas possibilidades, também a poesia, apenas confirmou a regra. A geografia do país foi evocada por um crítico e historiador brasileiro, Massaud Moisés, como justificativa para a primazia do gênero lírico: país situado entre o vasto oceano e vastas terras estrangeiras, encerrado num pequeno território, Portugal teria fomentado o sentimento de opressão, de pequenez, na sua gente, demandando a expressão lírica.


O mesmo autor que ousou reconhecer categoricamente o acanhamento de visão do português médio, o romântico Almeida Garrett, parece insinuar, com a prosa de Viagensna minha terra, a necessidade de libertação do verso para a exploração da matéria histórica lusitana em sua complexidade. Ainda que Eça, realista “mimético”, seja a referência imediata do realismo crítico saramaguiano, Garrett representa algo que é da ordem de um pensamento heterodoxo, não-extremista, flexível, que tem na própria escrita o referente estruturante de sua complexidade.


A escrita é a viagem, isto é, o deslocamento, escrever é viajar, deslocar-se, o escritor é um viajante, um deslocado, e assim o dado móvel, instável, afigura-se-nos como o paradigma do processo de criação. Viagem a Portugal, A bagagem do viajante, A viagem do elefante – títulos que naturalmente nos vêm à lembrança e conectam Saramago a Garrett tanto quanto aos cronistas-historiadores portugueses do Medievo, como Fernão Lopes e João de Barros, a Camões e outros tantos nomes de escritores que elegeram a viagem como sua tópica fundamental, como Jonathan Swift e Xavier de Maistre.


Essas conexões não configuram um mero diálogo intertextual, mas antes a inscrição da literatura portuguesa num horizonte de “Weltliteratur”, de literatura mundial, que torna a Obra de Saramago cada vez mais interessante num contexto de dissolução de fronteiras, multiculturalismo e globalização, nos anos 1980 e 1990, quando a compreensão de particularidades de todo tipo – sociais, políticas, culturais, econômicas, individuais – foi se tornando cada vez mais difícil.


À luz destas reflexões, creio que este livro, Todos os Saramagos, tem sua relevância, desde a iniciativa, como um reconhecimento de José Saramago como Autor que ostentou a importância da literatura para a compreensão do nosso tempo, o que, no fundo, implica uma tomada de consciência sobre nós mesmos e, por conseguinte, uma responsabilização pelo mundo, um compromisso com a sua preservação como morada saudável para todas as criaturas, humanas e não-humanas. Ao escrever para compreender, como disse em entrevista a Humberto Werneck certa vez, Saramago formou leitores igualmente compreensivos, que lidam com a matéria histórica de modo criterioso, sensível, procurando perceber o que há de significativo, de edificante, para a construção de relações sociais mais justas, pautadas pela tolerância.


Temos aqui, na condição de escritores, alguns dos seus inumeráveis leitores, que têm como característica notável um olhar plural sobre o entorno, sobre a realidade circundante, livre de qualquer intenção maniqueísta, de qualquer pretensão a estar com a verdade sobre o que vê, sente, pensa e narra. A dúvida, não a certeza, é o que os move num processo que, à maneira de Saramago, parte do particular para o geral e se detém no meio, ali onde não se pode dizer se é uma dimensão particular ou geral, onde o real se dispõe em sua complexidade cegante. O arcabouço textual, as alusões às várias narrativas do singular prosador, não é aqui mais importante que o modo brasileiro de modular a língua portuguesa, uma tropicalidade, uma coloquialidade, que inscreve no livro um “sentimento íntimo”, diria Machado, de enorme gratidão pelo homem do Ribatejo.




*Texto publicado na abertura do livro TodososSaramagos, publicação da Editora mineira Páginas em homenagem a José Saramago.

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