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"A culpa está morta", novo livro de poemas de Alcides Buss

Patricia Gonçalves Tenório




Que culpa, então, tem o leitor?”

Alcides Buss


A segunda vez que peguei Covid-19, estava viajando por São Paulo e Porto Alegre. São Paulo, visitando uma amiga, pós eleições e a aglomeração da Avenida Paulista; Porto Alegre, para apresentar pela segunda vez o “Espetáculo A menina do olho verde”. E estava acompanhada (e muito bem) por Alcides Buss e o seu A culpa está morta e outros poemas.


Como não acredito em coincidências, Alcides retrata de maneira fiel, profunda e poética ao mesmo tempo o momento político e sanitário do Brasil, e o meu estágio na carreira de escritora. Com setenta poemas, sem contar com o que nomeia o livro e que vem no final, Alcides transita pelas veias abertas do nosso Brasil varonil, tanto em termos sociais, quanto políticos, quanto filosófico-libertários, ele que faz parte da geração de 1970, com nomes tais como Paulo Leminski, Afonso Henriques Neto, Adélia Prado, Chacal. Considero Buss um dos maiores poetas vivos brasileiros, e tenho a honra de trocar preciosas missivas eletrônicas, além de livros, com frequência.


Mas por que afirmei que Alcides veio ao meu encontro no momento justo em que peguei Covid-19 pela segunda vez? Porque eu precisava matar a culpa dentro de mim pelos erros dos outros, pois ainda não era para estarmos andando livres, sem máscaras, pelo mundo afora – apesar de ter ido e voltado da Alemanha e não ter pego Covid-19 pela segunda vez. E, como diz no poema “Que fosse um bolero” (p. 13-14), “Necessita-se pelo menos crer / que outro mundo é possível” (p. 14), não importa se o olhar do outro, especialmente de quem escreve, não consegue enxergar o nosso valor. Nós precisamos continuar escrevendo, para nós mesmos, “senão estamos perdidos”, já dizia a bailarina alemã Pina Bausch.


Alcides trata, em inúmeros momentos de A culpa, sobre a criação literário-poética. Em “Escritas do mar” (p. 21), ele nos dá força dizendo que “navegar é preciso, / descobrir um novo sentido / para estar morto / e para estar vivo.” Em “Metafísica do poema” (p. 29-30), afirma: “Escrevo poemas / porque a vida me ordena a escrevê-los” (p. 29).


Outro traço interessante na escritura de Alcides Buss, são as palavras de água, rios, mares, oceanos, bem heraclitianas, que muito o assemelha à exposição de “Monet à beira d’água”, no Parque Villa Lobos, em São Paulo, e que visitei com a minha amiga. Por exemplo, em “Letradas noções” (p. 44), encontramos “Assim, dia vem, dia vai, / deixamos pra trás as páginas / que fazem de nós / bem mais do que somos.” Ou mesmo a referência constante à ilha de Florianópolis, a cidade-coração de Alcides e da qual emana toda a sua poesia.


Mas o que me salvou de toda a culpa por haver pego Covid-19 pela segunda vez, eu que na primeira senti-me revoltada, e excluída, e os outros eram culpados, agora faço as pazes comigo mesma e com as pessoas que encontrei e sem querer transmiti esse vírus desmesurado. Faço as pazes com a minha carreira literária, pois se não sou reconhecida da maneira que imaginei (e necessitava) não é problema meu, mas dos outros. Faço as pazes com tudo e todos ao sentir-me irmanada com Alcides Buss em “O mito do escritor” (p. 47), quando afirma “Mas não desistirá. / A escrita o domina por inteiro. / Faz de conta, porém, que ele próprio / é o senhor de tudo / e as frases, concubinas; / às vezes, súditas. / Um dia morre – que todos morrem – / e sequer saberá que morreu. / Mais do que nunca, estará / na mão de todas elas, / da vida que pôs / em tudo que escreveu.”

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