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Um fragmento do primeiro volume da "Obra poética" de Luís Serguilha, português radicado no Brasil

Atualizado: 1 de jan.



Francis Bacon, Portrait of Lucian Freud (1964)

 



…é com o surgimento dos écrans das capturas e das virgas-férreas sobre a duração dos micterismos eternais que o POEMA-ANIMAL se eleva e cria renascenças nos licranços com paveias salivadoras nos entalhes indefinidos: a obscureza tacteia-o por trás da condutividade das teias encefálicas plenas de drosófilas: um POEMA torna-se um desbridamento simultaneamente inconsciente, autotrófico, gérmico e químico dentro de uma ferida crónica: uma ferida-pensamento a resvalar no fundo interrompido e pendente de uma visão que ressoa e volta às profusões da pele capturando a distância de uma golpeadura de dádivas em torno da enfermidade por meio de um gesto em expansão retraída: uma ferida desdobrada pelo próprio trilhamento a retraçar detalhes do infinito que se faz intermitência de uma inscrição rés ao acaso e ao acesso à dor: há um hemotasto envolvido por ritmos catalisadores de lisossomas que extrai tecido morto, raspa uma chaga, uma ulceração com isquemias, remove crostas, fragmentos ósseos e remanescentes, fazendo do verbo um útero digestivo pleno de lises e de fagocitoses ecoantes: há uma dança na cabeça-cinerária das palavras envolvida por uma autólise e por forças gésticas que ingerem partículas insolúveis e crivam geografias necrosadas, espelhando esfacelos, cortaduras, exsudatos, fibrinas e espessuras epidérmicas através de perfusões sanguíneas contra corpos estranhos em torno de entalhes em granulação: um POEMA também exige irrigação para divulsionar bordas gramaticais, resíduos metabólicos do vazio, do corpo e do silêncio através de um pinçamento de traumas, de pápulas, de hematomas, de pressões queratinizadas e de súmulas descamativas: há uma abrasadura tecidular no poema com ductos, vasos, articulações, tendões em laceração arterial onde uma lâmina de bisturi com coberturas enzimáticas penetra continuamente no revestimento do muco e assimila febres-dos-lanhos que cessam e recomeçam por lapsos e hiatos até atingir uma presença de partículas estranhas nas células senescentes mas nunca reduz a carga virótica sobre as escaras: esfregar, esponjar, atritar e esticar as fímbrias da úlcera com cissuras vascularizadas, por vezes há que humedecer as gazes antes da sonda-escarificadora que removerá massas brancas, cinza-amareladas e pustulências: afastadores verbais, esponjas e agulhas compressoras despontam como testemunhos espelhados pelas diéreses: um animal-poema dentro de uma golpeadura assintáctica secreta ininterruptamente suor, sebo, estrume e tempo: um animal-poema croniza a ferida mas jamais deixa cadaverizar um corpo morto (falanges infusas das batucadeiras queimam bolores das leproses com embates das cúspides dos ofícios carnivoramente gotejantes): há uma intuição compulsiva perante interrupções adensadas por um desfolho menstrual que funda agulharias diamantíferas nas unhas dismórficas em contorção contra bolçadas de esbulhos: estava pressagiado que siderurgias helicóides seriam absorvidas pelas envergaduras de milhões de garras hidráulicas quase-em-fuga sob contracções das meninges barrocas: gretas mercuriais com ferrolhos luminosos ao cimo de tempos desmiolados: uma inocência incognoscível reboca possíveis fossilizações com esmeraldas líquidas a rebentarem na boca: dizem que há fémures urdidos pelo escorpião do esquecimento: outros dizem: uma desmesura retorna e partilha o indecidível onde voltagens verbais se acumulam por meio de um todo em forma de passagens impetuosas e de flutuações indeterminadas: um reverso vulvário-de-palavras redobra-se e se refaz estranhamente com desígnios fora de uma finalidade a talhar-se com o bolor ardente de uma língua intrusa: outros ainda dizem: partículas verbais eliminadas por uma espécie de conduto carnívoro com algumas glândulas por acessão vesânica a absorverem o trato salivar de uma fala entre sulcagens de outra boca misturadora de salivas aglomeradas por minúsculas cavidades omnívoras a espelharem o sangue da faringe, o estreito do esôfago, a porção pilórica do estômago, e o íleo em ulceração a ressoar peristalticamente contra o fígado e o pâncreas já-inchado até à cúpula enzimática do último orgão: um órgão em torção cruel a criar em si estonteamentos com verbos infinitivos: um órgão-anorgânico a harpejar-se sem dedilhação: uma palavra entérica e carregada de vilosidades-violáceas dobra-se interminavelmente para dentro de si-mesma e se se faz válvula de engasgo com fibroses císticas a arder em forma de secreção criminosa. ´O POEMA contém uma hemorragia febril, uma conexão anómala com firmeza deformante e enlaça o corrimento sanguíneo entre dois ganchos da vernação insana envolvidos simultaneamente pelas movências refractivas e pelo término e remate de um estoma: há um excesso de contrastes à volta de olhares-autónomos rés à morte: por vezes processos sangrentos e quiasmáticos despontam contra suturas vasculares e uma artéria verbal da ferida ainda fora da oclusão, suga uma correnteza insana de palavras dentro do relâmpago arterioso e caotiza o fulcro gravitacional das suas raias, atravessando paredes trombóticas, subvertendo bordas fistulares até assimilar extremidades ínferas por meio de uma costura do injustificável e de uma possível cura-anárquica a injectar-se ao nível do respiro da animalidade: há uma sulcagem arteriovenosa à volta de espessamentos de ductos que exigem ritmos arteriográficos por dentro de uma sepsia verbal e os vazios das aortas-assintácticas resistentes à tracção do corte e da quase-cicatrização sangram para esboçarem com forças tensoras um alvéolo de pequenos vasos em hiperplasia rítmica e delirante: há uma proliferação de fibras vocabulares e de silêncios na religação das vísceras em ressecação bifurcada: um poema religa alças biliares e vasos com o atrito das punções do impensável pleno de espículas ígneas em des-aparição: o poema é uma exuberância rigorosa da ANASTOMOSE dentro da DESUMANIZAÇÃO.

 

 

LL diz: o rigor do poema advém da episiotomia que faz do respiro cruel a vernação da existência: ritmos em variância anorgânica capturam interstícios anónimos que se dilatam em relação a si-mesmos, fazem das fugas anamórficas uma obscuridade incriada com animais indecifráveis-móbiles que pertransem, se desfibram e fortalecem os esgrimistas de Á-peiron repletos de falsos raccords nos dorsos refractários perante as coagulopatias: uma palavra não se fixa nas grandezas membranares dos escravos de sophoí, há uma obscuridade em torno da inocência mitospórica à volta dos brônquios ciclópicos: uma palavra espreita e pressente um utensílio instantâneo através de heterocromias enxameadas por estaquias sublinguais: ELA ressurge nas filigranas da boca que afla o alvo dos escaladores entre as esconsas vibrações das sínteses expressivas onde uma faca embulativa repousada nas falanges cataplécticas atinge a vascularização dos lapsos hilemórficos rés aos batimentos ventriculares do sublime: um animal vazou os trajectos compositivos do real para se tornar uma fractalização do inacessível: [...]

 

Um ANIMAL arremessa-nos na multidão do poema para dentro da granitização da boca onde os vigores dos minerais das palavras nutrem as alçapremas da existência, diluem os amoníacos dos órgãos, libertam as essências da substância inanimada, tornam-se a vasodilatação das calcagens dos vazios entre teias falângicas, profanas, contorcionistas, híbridas, violentas e sagradas ao buscarem desabaladamente os colágenos das celsitudes do improvável e se deformarem até ao ritmo das aféreses da carnação do espírito: os gritos dos deuses escavam e atacam os isoladores gravitacionais do mundo como habenas levantadas contra a macrofagia do corpo: aqui-agora, as palavras fazem-nos assimilar as tifloses dos formigamentos dos decúmanos: um silêncio do golpe órfico está nos pluviogramas da fala do animal que abscinde a pele blindada por empulhações e abotoaduras para escutar as caramunhas do rosto zurzido pela ausência do vazio: hipotálamos recriados por meio do tempo crónico: uma palavra bioelétrica, uma escuta da insuflação, um gesto dos briozoários, um ANIMAL epilogado por outro animal com autólises na vértebras e… o saber esperar as dobras sagradas, os sopros demoníacos, as peugadas das arrepsias da gestação quimiossensível, as entranhas da queimadura epigénica, as fendas das acumulações da língua, os rasgos das envergaduras dos dardos polimetálicos e os mordimentos dos tagmas que se extraviam da matéria morta, fazendo despontar as pulsações do espaço e absorver os impulsos disruptivos do verbo que nos livra das esmaltagens colisionais: o sacrare da voz dos sapais dos libertinos, dos dementes, dos exilados, dos apátridas e os GESTOS fogem das hidratações pancreáticas, os GESTOS perseguem-se, expelem-se a cada teia de sopros, a cada fôlego das imunoglobinas, a cada talhadura dentro da putrescência da língua: em cada cruzamento invisível há uma vibração petrológica, há sedimentos minerais que abrem um animal à fase lútea do insurgido, ao espaço despedaçado pela apreensão respiratória do GESTO: um teatro sanguíneo do mundo, uma proscrição ou uma geologia vibrátil das PALAVRAS que pigmentam, ensoam, laivam, estremecem, se compõem, fazem silêncio com as suas queimadelas enunciadoras de uma FALA ecoada pelas secreções dos endométrios: uma FALA que perfura a morte com o mundo vivíssimo do sangue vaginal e uma existência salta e alça a substância dos mucos das enxovias até ao imprevisível, à mudez cantante do animal: [...]

 

há um grito desmembrado nos dedos mais altos e o movimento cortante do sangue atinge o opérculo da palavra através da luzência descomunal do vazio: uma palavra se transverte em ossaturas esponjosas e faz das luminâncias corticais um refreamento dos estomas de uma cegueira com bexigas em exsudação ouriçada pelas resinas das genuflexões de uma LEITORA: uma palavra de ilharga em ilharga tremula com tecedores de traqueias de sal a porejarem por dentro da desertificação de fungos que acendem as excrescências da expiação onomatopaica para se bruxulear por detrás do subtil deformante da animalidade: os golfos rítmicos da palavra mordem-se repletos de tecidos fibrosos dos fotogramas, buscando outras inserções membranares através de capilares divinatórios impelidos pelo último osso dos eclipses das costureiras de pedras, enquanto isso LL irradia sua leveza raivosa nas aparadoras de incisuras das línguas polidas pelas fermentações sulfossais onde os acúleos das alcalescências buscam os assombros dos meteoros dentro de mosaicos flamencos: uma palavra faz acontecer na erosão da ostomia uma fuga antropofágica do real: o tempo esbulhado pelo delírio arrasa a biografia cardíaca, o tempo das abrasaduras crónicas invade uma língua sem nomeaduras, o tempo sublunar entoa trajectos nos seus mapas intácteis, o tempo crónico nunca afiançou os encavos da morte e o sangue da heteronímia persegue-se a si-mesmo para se tornar cada vez mais uma cerebralização inconsciente: o animal velocíssimo da orogénese é o verbo piroclástico que recomeça na visão atmosférica sem-fundo: uma palavra enrosca-se  nos entrecortes de outra palavra barroquizante, perfura as ondulações ultravioletas dos ventres, levanta-se nos detalhes do sexo arado pela dobra interna da maçã miasmática, seus excrementos axadrezados farolizam-se por dentro: [...]

 

assim: uma palavra-quase-resgatada à estagnação obsessiva do horror e às dramaturgias rítmicas da vernação absorve as espirais dos cordames expungidos dos interstícios das FALAS para prolongar os pontos das linhas-guturais dentro das equimoses dos ganhos dos partos perpétuos onde um animal-flana indefinidamente ao redor das exaltações dos ofícios prematuros dos animatógrafos cheios de dons cubóides a levedarem em profusão-raquídea: aqui-agora: batráquios-volteadores-de-mutações entre verbos comburentes-infinitivos agarram sofregamente os gestos-mudos dos obstáculos dos fosfatos-da-metafísica-ainda-plena-de-viridários-com-peneiras-geomecânicas-nos-dorsos e, por meio das vagas litúrgicas-hepáticas, hospedeiras de deuses hidroeléctricos sobem pelos biomarcadores criminais da LEITORA até atingirem os olhos-de-larva entre as inflorescências bovinas de Georgia O’Keeffe_____no colosso da imagem dos esconjuros voluptuosos, os subterfúgios das ossaturas periféricas misturam e encarnam os gotejamentos do impensável alienígeno em tentativa indecifrável: dizem: geologia de uma anca túrgida a borbulhar possessivamente no quartzo ambulante de uma face de rapina cheia de bordas de um hospedeiro-medúsico (um ritual de violência desponta nos pólipos inconfessáveis dos genomas das palavras que arremessam as suas embocaduras contra as bolhas das sonografias de um rosto do carrasco que nunca compreendeu os orgânulos dos crânios e dos ossos de gado): por vezes uma partitura escarpada do nada-orfeico é terrivelmente inconsumada pelas infusões rápidas dos gnómones das gradações do inédito: por vezes palavras-procariontes desabrocham na escaldadura dos cogumelos com abelhas-urticantes dentro da polpa-FLORAR-O’Keeffeana como um nó-de-jorros-sangrantes dentro de um respiradouro de osciloscópios das polinizações astrais: o nada-GEOMETRAL dos cetáceos fulgurantemente vocalizados pela desertificação semicerrada de um alvéolo-bacillus-infernus procura atravessar o coração sinestésico do abismo e se envolve nas vigílias eclípticas com a ferocidade das estremaduras incisivas dos mesocarpos de Vaslav Nijinsky (resta… refazer as angulações inenarráveis dos hinos de uma putrescência de febres desvairadamente espalhadas nos ecos vocais do agonismo entretemporal à volta das securas pigmentadas dos parietais em profligação bestiária: a inacessibilidade primitiva do poema está aí, metamorfoseada nas dobraduras multangulares e pansemióticas do Daedalus a transfronteirar artes-ciências-poliédricas com espectros das zimbraduras esfíngicas___um poema está aí: nas escoaduras cortantes dos desvios vertiginosos plenos de contracturas ecoantes de um zonamento incorpóreo___um poema está aí: nos ecos das metamorfoses infravisuais com resvalos-de-calandragens-pollockianas a espiritualizarem as rebentações subversivas do corpo-macaréu___um poema está aí: nas coreografias estonteantes de uma luz-placentária-extrema misturada com jogos da meteorização do indiscernível e do indecifrável___um poema está aí: nas corporeidades do fascínio do indizível-agramatical com socalcos de risco-acrobata entre interfaces ergódicas e os abalos das ruínas estranhamente geográficas___um poema está aí: nas cores das performances múltiplas das bioquímicas oscilográficas ao cimo dos rastos da esfoliação de um animal: um poema está aí: no ritmo do vazio-gérmico que modifica desabaladamente o esgotamento das topologias do sintoma: um poema está aí: na pororoca das laminadeiras-sémiotique dos cibridismos-delirantes onde os espaços das pariduras-ósseas secretam nos detalhes das câmaras acústicas o lodo cardíaco de um animal dilacerado: um poema está aí: nas holopalavras da errâncias-do-real voltadas para dentro de uma mão-antropologicamente-sonora quase-amputada: um poema está aí, na expectação das pré-catástrofes de um rosto picado-e-bordado pelos enfiamentos anamórficos da MANSONIA): um poema-animal combate-se na transdução-LAHAR que o escarifica dentro do lúmen: recusa-se a nascer dentro da sua própria ir-realização monstruosa: o fórceps é tremendamente sanguíneo e sublingual.

 

 




 

Luís Serguilha é poeta e ensaísta português com participação ativa em encontros internacionais de arte e literatura. Nos últimos 15 anos percorreu a América do Sul pesquisando temas relacionados à arte, ao corpo e à literatura. Atualmente vive em Recife. Escreveu 15 livros de poesia e 2 livros de poemas-romances. Alguns dos seus títulos mais recentes são “Koae”, “Kalahari”, “Plantar rosas na barbárie”, “Falar é morder uma epidemia”, “Hamartía” e “A Actriz”. Seus processos criativos têm sido objeto de estudo, de crítica e ensaio por parte de acadêmicos, críticos, poetas, pensadores, artistas e escritores de Língua ibero-afro-americana. Possui textos publicados em diversas revistas de literatura e arte. É criador da “estética do Laharsismo. Recebeu o prêmio Hermilo Borba Filho do Governo Pernambuco. Realizou aulas-conversações (cursos) em diversas cidades do Brasil. Anualmente faz a curadoria das Raias Poéticas: afluentes Ibero-Afro-Americanos de Arte e Pensamento, que se realizam na Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, Distrito de Braga, Portugal. O primeiro volume de sua Obra Poética foi publicado em 2022 pelas editoras Cubzac e Kotter.

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