• Revista Sphera

Três poemas de Luís Turiba

Atualizado: 10 de nov. de 2021


Orquidárias


orquídeas or quideias

dão em cachos

brancas roxas rosas

azuis carmim

beiçudas côncavas

plantas d’árvores

amarillas solares

livres leves santas

aeroflores aeroaves

orquidárias orbitárias

luminárias de calçadas

em seus borboletários

feitiços nectívoros

ócios luxuriosos

na busca de um caso

um affair um casório

de mel e grinalda

por sépalas salientes

desfralda perfídias

por labelos hipnóticos

alimentam-se de luares

oferecidas insondáveis

sempre nuas

sem preços vendáveis

damas descalças

pés na úmida terra

jogadas aos meus olhares




Olímpia


deusa de límpio brilho

meu amor de cinco argolas

entrelaçadas em arco-íris

libido nos une & aflora


você, meu salto alto carpado

minha pirueta selvagem

meu corpo sem gravidade

solto à terceira margem


meu nado de peito aberto

meu nada em tudo ereto

meu todo em quase nada

jogada no fundo de quadra


meu um milímetro a mais

meu segundo, um a menos

minha medalha meu parto

do alto do pódio intenso


meu tombo assombro olímpico

meu grito sem véu nem vara

meu choro inverso contido

na raia na rua na praia


meu skate escapa alado

meu xilique já sem tênis

minha vitória de Phênix

lágrima queima e afaga


meu saque sabor saquê

meu ippon de arigatô

minha linha de chegada

a bola me leva ao gol


meu ar anabolizante

meu mar de braços e remos

meu ace no Ping-pong

na arte do enfrentamento


minha esgrima em alinho

minha canoa à vista

no meio do redemoinho

nem só na força há conquista


minha próxima jornada

minha queda à canhestra

meu sonho rumo ao ralo

a derrota; a melhor mestra




Cachoeira


a vida começa a correr

mais rápida do que

as próprias pernas


não tropeçar

nas mesmas

não se afogar

nas perdas


vida: rio manso-sedento

escorre pelas beiradas

rumo à grande-cachoeira


descalço d’alma

sigo com os pés

no riacho da ilusão


Luís Turiba




SOBRE(VIVENTE) DA POESIA

Quando o mundo viralizou, me recolhi corajosamente covarde, sem heroísmos vãos. Fechei meu Ás de Copa. Recuei meus beques, fiz retranca. Passei a viver numa pétala da Poesia. Escrevi, escrevi quase uma bíblia. Entre tantos textos, Fiz um livreto - 48 páginas, 25 poemas, links pra músicas e vídeos. Surrupiei papelões nos supermercados para fazer as capas desenhadas uma a uma com letras de pichação de parede. Dei título: “Se virem, Terráqueos”. Saíram vários antes do primeiro. Veio 2, 3, 4, 8, 10. Numerados e assinados. Feitos em safras de dez, todos dedicados e assinados. Fui fazendo como quem faz filhos. Hoje são 160 exemplares. Hei de chegar em 2021 nos 200. Ato de resistência poética.

Gosto de fazê-los pois causam impactos emocionais E estéticas nos leitores. O mestre Augusto de Campos, por exemplo, que mereceu um livreto com capa especial ao fazer 90 anos, escreveu: “seu poemamúltiplo de papelão luxo dos lixos, de bela artefatura futuribista”. Outro poeta irmão, o carioca Tanussi Cardoso, fez um filmete de quase 5 minutos de análise e apreciação. O poeta piauiense Paulo José Cunha fez uma crônica generosa que serve como apresentação do livreto.

Por último, a poeta uruguaia Sofia Vivo, ex-adida cultural do seu país no Brasil, está em processo de tradução dos poemas do “Se virem” para o espanhol.

Alguns desses poemas ofereço nesta publicação, além de alguns outros inéditos, entre os quais o poema ORQUIDÁRIAS.

Isso, pra não dizer que não falei do flores nesta véspera do centenário da Semana de Arte de 22.


Luís Turiba

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