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Memória - Poeta Geraldo Magela Cardoso (1956-2022)

Atualizado: 7 de abr.


Geraldo Magela por Decio Romano

O Corpo Editorial da Revista Sphera Habitações do Encantado manifesta seu profundo pesar pela morte do poeta Geraldo Magela Cardoso, um dos maiores ícones da cena cultural curitibana desde os anos 1980, responsável por manter a chama da poesia sempre acesa como referência de comunhão, amizade e esperança. Magela teve um infarto fulminante quando ainda estava dormindo na madrugada de hoje, sem chance de qualquer reparo num coração que já vinha claudicando nos últimos anos, abalado por desilusões pessoais, sociais e políticas.


Nascido em 1956 no sertão mineiro, num lugarejo tornado cidade de Guaraciama (terra do sol em tupi-guarani) em 1995, Geraldo Magela era filho de mãe professora dada à arte do verso e pai boiadeiro, exerceu ofícios profissionais diversos desde a adolescência tanto em sua região de origem quanto em Curitiba, “a cidade freezer”, como dizia, para onde se mudou em 1971. Trabalhou nos Correios, serviu a Aeronáutica e se efetivou como Servidor Público Municipal, desenvolvendo carreira na Fundação Cultural de Curitiba, onde concebeu e dirigiu projetos que contribuíram especialmente para a democratização da prática e acesso à leitura de poesia.


Acima de tudo poeta-da-vida, Geraldo Magela ostentou a multidisciplinaridade característica da Geração barrada pela ditadura militar que as elites conservadoras enfiaram goela abaixo do país a partir de 31 de março de 1964. Era agitador cultural, performer, ator, editor independente, arte-educador, enfim, um adepto do faça-você-mesmo, e por isso puxou eventos tantos dentro e fora de Curitiba, arregimentou poetas, artistas e pessoas em geral, transpôs margens e centros, “causou”. Entre os vários projetos sob sua regência na “capital simbolista”, estiveram a Feira do Poeta, o Varal de Poesia, o Domingo na Feira e o Leitura no Banheiro Público e nas Praças Públicas.


A afetividade exposta, que emergia do fundo de sua condição negra, era a moeda forte do poeta, um estoque admirável de simpatia. Recordamos a propósito, e acentuamos, neste momento atravessado pelo racismo-arma de conquista e manutenção de poder, a grande importância de Geraldo Magela também no enfrentamento da questão racial no país. Era uma referência de militância antirracismo pela via da humanização do espaço social, da participação de processos contestadores de preconceitos e discriminações. Foi, por isso mesmo, condecorado pela Câmara Municipal de Curitiba em 1995, ano do tricentenário de imortalidade de Zumbi dos Palmares.


Geraldo Magela deixou vasta obra édita e inédita em prosa, drama e verso, escritos que o distinguem como um dos autores mais produtivos da sua Geração. Estreou com o vituperante Bendita boca maldita e seguiu, ao longo de quatro décadas, publicando livros como Os calombos dos quilombos (1983), afropoemas, Os mamilos de Vênus (1986), poemas eróticos, a peça infantil O vale roxo (1993) e o desmascarador de tempos virtuais O homem é produto do email (2015). Entre os inéditos, por ele mesmo anunciados, ficaram Escárnio, prosa sobre a morte, Atrocidades, microcontos, e os poemas de Mulheres conversíveis e carros conversáveis. Todo um arquivo que seguirá nos inspirando a ser mais leve na vida.


Anelito de Oliveira

Publisher de Sphera Habitações do Encantado

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