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O menino que sonhou com Brasília - João Melo


Criança junto a janela no Palácio do Planalto observa a Praça dos Três Poderes e o parlatório na inauguração de Brasília — Foto: Arquivo Público do DF/Divulgação



Yalá era um menino africano que tinha um sonho. Mas ninguém acreditava no sonho dele. Ele vivia há muitos anos numa pequena aldeia no coração do continente africano, perto do local onde nasceu a humanidade, numa região que, apesar de ser muito antiga, não consta dos livros de geografia ou de história dos nossos dias. Essa região é uma espécie de buraco negro, que não pode sequer ser encontrado pelo tio Google. Podemos vasculhar dia e noite a grande nuvem que cobre atualmente todo o nosso planeta, também designada i-cloud, que não encontraremos a aldeia onde nasceu o menino africano que tinha um sonho em que ninguém acreditava.


O sonho dele era tão simples que parecia extraordinário e impossível de realizar. Yalá sonhava com uma cidade perto da água, surgida no meio de minas escondidas numa região altaneira localizada num continente situado do outro lado do mar, chamado América Latina. Conforme o seu sonho, do ventre desenhado em forma de um quadrilátero amoroso de tal cidade, que seria de uma riqueza inconcebível, jorraria leite e mel sem parar. Além disso, a cidade seria edificada e habitada por homens e mulheres provenientes de todos os cantos do mundo, os quais, juntos, construiriam uma nova humanidade, radicalmente diferente de todas as precedentes.


Como podia Yalá sonhar com uma cidade assim?


Isso era tão improvável que os registos atuais, que conseguiram sobreviver a todos os desastres naturais, epidemias, genocídios, guerras e conflitos que destruíram civilizações inteiras e sucessivas, garantem que foi o padre italiano Dom Bosco, que ficaria conhecido por São João Bosco, que sonhou com essa cidade em 1883, após uma viagem imaginária à América Latina.


A fim de conferirem veracidade à narrativa, os guardiães de tais registos localizaram a cidade alegadamente sonhada por Dom Bosco entre os graus 15" e 20", perto de uma enseada bastante longa e bastante larga”, como se redigia na época.


Quando os missionários que chegaram à aldeia onde vivia Yalá para, segundo juraram, espalhar a fé cristã, protegidos por homens encouraçados com espadas vibrantes e decididas, lhe disseram que ele não poderia ter sonhado com aquela cidade, pois o padre São João Bosco já se havia antecipado, ele preferiu não responder. Limitou-se a fixar neles um olhar tão sereno e apaziguado, de quem é capaz de prever para além do próprio futuro, que os missionários se foram embora, com uma sensação inexplicável e levemente assustadora no coração.


Yalá, que era um menino bom, perdoou-lhes imediatamente. Ele sabia que à ignorância, ao preconceito e ao ódio devemos responder com compaixão e amor.


Por saber isso, quando um presidente chamado Juscelino Kubitschek resolveu mandar construir uma cidade chamada Brasília, no centro de um país situado no outro lado do mar, chamou-o em segredo, durante o sono, e encorajou-o a jamais desistir desse sonho extraordinário, que, confidenciou, já lhe tinha aparecido, nas suas visões diurnas. A ironia da situação não lhe escapou: um menino africano e um presidente de origem checa e cigana partilhavam o mesmo sonho (criar uma nova cidade e um novo mundo numa região totalmente por explorar, no coração de um país que parecia o próprio futuro). Yalá sabia que a ironia, mais do que o simples humor ou o sarcasmo, pode ser criativa.


O menino que sonhou com Brasília também gostava da pureza e da força das coisas simples. Por isso, ele estava dentro do espírito do arquiteto e urbanista Lúcio Costa quando este desenhou a nova cidade a lápis numa mera folha de papel branco: dois eixos cruzando-se em linha reta como o sinal da cruz. Ninguém o sabe até hoje, mas, naquele momento, o arquiteto, que também era um sonhador, agradeceu mentalmente a Yalá. Disse ele:


- Um dia virás a esta cidade e verás como ela, planeada para o trabalho ordenado e eficiente, também se tornará num espaço vivo e aprazível, propício ao lazer, à cultura e à especulação intelectual. Como ela tornou o teu sonho – e o sonho de muitos – em realidade.


Como Yalá lhe pediu, Lúcio Costa imprimiu à nova cidade a forma elegante e discreta de um avião, inclinando suavemente um dos traços do seu desenho, não só para confirmar que as ideias e os sonhos viajam livremente, por mais muros que alguns, ainda hoje, teimem em erguer, mas também em sinal de bom augúrio. Tal traço – mais tarde designado Eixo Rodoviário – leva hoje às áreas residenciais da cidade, a Asa Norte e a Asa Sul. O outro traço da cruz, o Eixo Monumental, abriga os edifícios públicos, o palácio do governo federal do país, os prédios do governo local, a Rodoviária e a Torre de TV.


Aconselhado pelo menino que sonhou com Brasília, Lúcio Costa chamou para ajudá-lo a erguer a cidade outros três filhos dos deuses (embora um deles renegasse, até morrer, a sua filiação), escolha que Yalá, na remota aldeia africana onde vivia e que apenas podia ser conhecida pelos homens que acreditam na força dos sonhos e da criação, aplaudiu com um misto de serenidade e exaltação. Oscar Niemeyer, Burle Marx e Athos Bulcão, assim se chamavam esses homens. O primeiro foi o responsável pela construção dos monumentos que identificam a cidade: o Congresso Nacional, os palácios da Alvorada e do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e a Catedral de Brasília. Burle Marx desenhou os jardins e as praças, enquanto Athos Bulcão criou os painéis de azulejos que são uma das marcas registadas da cidade.

Foram homens e mulheres de todos os cantos para erguer a nova cidade naquele planalto perto do Lago Paranoá. Como Yalá sonhara, Brasília fez-se de todas as cores, sotaques e sons. O menino africano sorriu, feliz, ao ver entre esses homens e essas mulheres os filhos e os netos daqueles que, há muito tempo atrás, tinham sido forçados a sair de África e a atravessar o mar em condições desumanas, mas, mesmo assim, colocaram pedras nos alicerces do mundo, como dizia um poeta angolano chamado Agostinho Neto. Ou seja: plantaram e fizeram florir as novas terras para onde foram levados; extraíram, dessas terras úberes, os mais preciosos minerais; criaram música; reformularam religiões; lideraram revoltas; engendraram ideias; e construíram cidades.


Os construtores de Brasília criaram uma nova raça: os candangos, feitos de todas as raças do mundo. A nova cidade queria-se um espaço para todos, humano e solidário, de avenidas amplas, arejadas e floridas, com edifícios que, por opção própria, abdicavam de rivalizar com os deuses. Por isso, a cidade não tinha esquinas. Para quê tê-las, se as esquinas podem separar, dividir, ocultar, magoar, ferir?


No dia 21 de Abril de 1960, nasceu a cidade com que o menino Yalá sonhou. Era uma cidade totalmente diferente de todas as outras que já haviam sido construídas, bem como daquelas que ainda seriam ou serão construídas. A data foi escolhida com intenção: 21 de Abril é o dia que assinala a morte de Tiradentes, um dos líderes mineiros que defendeu a independência do Brasil no século XVIII. Brasília nascia, assim, como símbolo da determinação de um povo em conquistar a sua própria liberdade. Mas não só. Yalá, que estava sentado ao lado do presidente Juscelino Kubitschek, na tribuna de honra, perguntou-lhe:

- Sabes que o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ainda me costuma receber?


Até hoje não se sabe se o presidente o entendeu. Talvez sim, pois respondeu-lhe igualmente de forma enigmática:


- O luminoso e azul céu de Brasília será conhecido como um novo e vasto mar, que trará para aqui, mas agora por sua livre e própria decisão, homens originários de todas as terras, que virão aprender como de um sonho extraordinário se edifica uma realidade acessível e translúcida, simultânea e genuinamente igualitária e futurista.


O menino Yalá lembrar-se-ia dessas palavras vinte e sete anos depois, em 1987, quando Brasília recebeu o título de Património Cultural da Humanidade concedido pela UNESCO, transformando-se no primeiro bem cultural contemporâneo a recebê-lo e equiparando-se, assim, a monumentos edificados por grandes civilizações antigas, como as Pirâmides do Egito, a Grande Muralha da China, a Acrópole de Atenas, o Centro Histórico de Roma e o Palácio de Versalhes.


Quando recebeu a notícia, na sua aldeia no coração de África, Yalá sorriu, quase feliz.


Um dia, porém, o menino africano começou a receber outras notícias, carregadas de maus presságios.


Embora os sinais estivessem à vista de todos, ninguém percebera como a nova cidade havia sido tomada, de repente, por estranhas entidades, certamente alienígenas, de rostos quadrados e duros, olhos cinzentos e baços, sorrisos ameaçadores e gestos previsíveis, como se fossem robôs. As mesmas tinham um verdadeiro plano de ocupação a executar: primeiro, através de meias verdades, calúnias e intrigas, isolaram aqueles que se lhes opunham, com os seus sonhos radicais, as suas promessas ambíguas e os seus indesmentíveis e apaixonados feitos; depois, rotularam-nos, colando sobre eles anátemas escandalosos; por fim, começaram a caçá-los nas ruas, em especial àqueles mais próximos da cor do sol, de gestos mais amaneirados ou de coração mais generoso.

Tais seres não escondiam nem a sua natureza nem o que consideravam ser a sua missão: eram transparentes como cadáveres. Mas também eram cobardes. Às amplas avenidas, praças e jardins da cidade, preferiam as chamadas redes sociais, onde navegavam como autênticas matilhas, espalhando o ódio e a cizânia.


Uma grande e espessa sombra ameaçava cobrir totalmente o céu de Brasília. Yalá, o menino africano que sonhou com a nova cidade, tomou uma decisão:


- O meu espírito tem de baixar outra vez sobre os homens e mulheres dessa cidade!

Ele sabia: os sonhos não podem morrer.




João Melo é um dos importantes escritores angolanos em atividade, autor de vasta obra em ficção, verso e ensaio. Entre seus livros mais recentes estão Cântico da terra e dos homens e O homem que não tira o palito da boca.

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