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Sete poemas inéditos do mineiro Jair Alves Corgozinho Filho, morto há cinco anos

Atualizado: 21 de out. de 2021

Completaram-se cinco anos da morte prematura de Jair Alves Corgozinho Filho neste 2021. Estes poemas fazem parte da coletânea de inéditos intitulada Rio que me enviou em meados de 2014. Faleceu em 2016 antes que pudéssemos conversar a respeito do trabalho e possível publicação. Chegamos a marcar alguns encontros naquele mundo pré-Pandemia, mas não deram certo. Eu sempre na estrada, no ar, e ele sempre em BH.


Poeta, ficcionista, ensaísta, Jair foi um dos mais talentosos jovens escritores e professores de literatura mineiros aparecidos nos anos 1990, com uma conduta humana, intelectual e literária notável. Foi sujeito de atitude, com personalidade destemida forjada nos dias sombrios da Ditatura. Meu grande amigo, estivemos juntos na construção da Revista Orobó em Belo Horizonte, periódico que teve três números impressos (1997, 1998 e 1999).


Graduado em Letras pela UFMG, onde também realizou Mestrado sobre Os ratos de Dyonélio Machado, Jair publicou no primeiro e no segundo número de Orobó, respectivamente, um ensaio sobre Dyonélio e um conto. Anos mais tarde, em 2013, publicou dois ensaios no Kadernu di Ynwenssões, blog da Revista Orobó, um sobre Machado e outro sobre Bandeira.


Conhecemo-nos na Faculdade de Letras da UFMG por volta de 1993. Publiquei ali no jornal Não, publicação do Diretório Acadêmico da FALE que criei e dirigi, aquele que talvez tenha sido o primeiro e um dos poucos poemas de Jair a chegar a público. Tornamo-nos amigos de atravessar madrugadas no Lucas, no Edifício Malleta, referência da boemia cultural no Centro de BH, falando de assuntos os mais variados: literatura, política, cinema., música, pintura, educação, cultura etc.


Além das publicações citadas, Jair publicou artigos em revistas especializadas apenas, bem como em livros didáticos. Certamente, deixou muita coisa inédita. Estou tentando conseguir autorização de familiares dele para a publicação de Rio.

Os sete poemas aqui estampados em homenagem aos cinco anos de morte de Jair Corgozinho dão a medida da sua inquietude. Era um sujeito apaixonado pelas artes, pelos livros, pelos discos, pelos filmes, que sentia tudo artisticamente, que amava a vida com naturalidade, que não se rendia aos imperativos da razão cínica que atormentaram nossa impossível Geração 90. Escrevia, pois, com a estranheza de quem realmente sabia o quão bruta é a coisa-vida!


Anelito de Oliveira



Jair Alves Corgozinho Filho



Orquídea


O amor que me perturba e move

alberga-se entre o culto e o insulto a uma mulher.

Se me perco, tarde e madrugada, ou quando o mundo acaba,

Sua voz, que me encontra, é flor e vento que me tateia e fere.

Cálida antítese, flor e ventre, flor turva, que retoma o que dá.




Cravo


Estou pensando a morte,

Não como se tem pensado.

Penso sua pele e cheiro,

Pétala de cravo.

Habitada em mulheres e homens,

Andrógina e híbrida,

Reta, ramificada.

Tango de flores.


Estou pensando a morte,

o rasgo raro de seu aquiescente jardim.

o silêncio mole de sua floricultura.

o seu manto de craveiros.

o cravo entre os lábios.

o falo cravado

Nos seios.

No ânus.




Flores Mortas


O problema de uma flor, tenho provas,

é não ser apenas flor. Flor, pura e simplesmente, flor.

É que inventaram a floricidade da flor.


“Doces flores

sozinhas podem dizer o que a paixão tem medo de revelar”,

disse o poeta Thomas Hood.

Não sabia o que dizia.

Flores sozinhas são flores sozinhas.


Quando dou uma flor

é flor que foi dada, dália ou rosa

flor apenas até que seja flor morta.


Flor morta sem problemas.


Não despertarão nunca mais

as flores mortas sem ventos.

Louvada seja a cegueira

das flores mortas sem olhos

o silêncio

das flores mortas sem linguagem.




Rosa


Carne.

Sangue.

Veludo.

Arde o amor escuro.

Glande.

Pétala.

Espinho.

Grita o amor diminuído.

Príncipe negro.

Rosa morta.

Mito desdém.


Entender o espinho como espinho

Não para tocá-lo.

Esse é o fascínio.




O pescador distraído


Um pescador fatigado dos peixes

tomou nas mãos um livro em concha

e foi fisgado por um feixe de linhas,

pela pérola irresoluta de cada palavra.


Nunca mais foi visto, mas diz a lenda,

entre barcas e barrancos,

que agora, no solavanco das horas,

pesca histórias de velhos e mares,

no ir dos rios, dos livros e margens.




Chiste


Uma palavra no início de uma página

É uma fronteira.

Uma palavra no fim de um livro

É uma fronteira.

Um homem antes de uma página

É uma fronteira.

Um homem depois de um livro

É um milagre.




Despedida


Saio devagar,

o passo mudo,

para não esbarrar

no suicídio

da palavra que se desprende

da mão e se lança,

sem escudo,

no idílio do papel profundo.

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