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Leia três fragmentos-momentos de "Bebete Bezos”, romance recém-lançado de Maurício Salles Vasconcelos

Atualizado: 1 de jan.



Siri Skogstad Berntsen (artista norueguesa contemporânea), Subjectification of odalisque. Técnica: acrílico em papel, tamanho original 52/48. Obra fora do comércio



Bebete Bezos


MAURÍCIO SALLES VASCONCELOS



Parte do livro, lançado em novembro de 2023, foi publicada, em 12 episódios (com andamento de folhetim), no site Lápis –  https://www.lapislaboratorio.site/ –, trazendo a designação de Post Tela-Romance. O projeto se centra numa recriação, no feminino, de Beto Rockfeller (telenovela emblemática em seu experimentalismo), acrescida de motivos romanescos extraídos de autores como Alfred Döblin e Witold Gombrowicz. Em pauta, se encontra uma atualização de personagens do século XX instalados numa época multimidiática gravitada em torno dos domínios de imagem/influência/informação tal como configura Jeff Bezos com seu diversificado, abrangente império empresarial (em correspondência neomilenar com o que Nelson Rockefeller exercia nos anos 1960 sobre o protagonista de Bráulio Pedroso).  





1

 

 

         Em Nuvem, as ações da Companhia –

Nas Nuvens, o homem que tudo comercializa eletronicamente não fica sem manter um enrodilhado encontro com o que há-de mais invisível. Não por acaso, Jeff Bezos faz citações (juntamente com cotações à volta do que tem e desprende para incalculáveis populações).

 

– Por que está rolando tanto na cama? Percebi a hora que você chegou. Já é de manhã, meu bem –  Vix pergunta, entabulando a conversa do dia. Ter uma companheira, assim, numa casa (o micro do micro ambiente) significa obter direção no microssegundo que nos falta. E resta.

O que está rolando tanto na cama? (Seria o caso de indagar sobre a garota em cima do estrado forrado de espuma onde cabe uma pessoa apenas).

 

Há um sentido de data no que vivem e fazem, na composição de um ap dividido igualmente. Quando não é Bebete a lembrar da lista de coisas a serem cumpridas imediatamente por elas (âmbito da moradia) e no horizonte-cidade enquanto cintilação incessada de “agitos”, vem pontual a companhia de anos a lhe fornecer trilhas a partir de uma recolha de fatos.

A partir de sua colaboração como free-lancer para uma coluna de streamings no jornal mais vendido no País, fica possível fortalecer um elo. Eis o que se firma entre as questões mais concretas sobre a continuidade delas duas num mesmo espaço e uma torrente de dados extraídos da enumeração das ocorrências do dia afora: para fora das exigências de varrição, lavagem, prestação de contas, enfim, da necessária ordem no que a cada instante sai do lugar e desequilibra as tarefas e as divisas de uma-e-outra.

De modo que fiquem bem, ali onde residem, há sempre uma empreitada a se enfrentar. Coisas da casa/acontecimentos externos (numa abrangência aparentemente desnorteadora, a princípio fixada na simples referência a nomes, locais e objetos os mais diversos).

Vix sabe cuidar de coordenadas capazes de interferir nos rumos mais localizados na vida de Bebete como “vendedora de butique”. Até mesmo porque Bezos não significa um simples nome, não é meu bem (Vix acentua tal interpelação meio carinhosa, mas também distanciada ante um qualquer interlocutor impessoal, feito um refrão gozoso, glamuroso. Meu Bem pode soar como Meu Bônus à mais simples réplica).

 

– Sim, estou com isso na cabeça, na ponta-da-língua, posso dizer.

Quando mencionei o sobrenome-portal para as questões que nos afligem e   nos inflingem; pois é, nossa conversa na manhã de ontem foi decisiva – Na mesma medida do crescimento das ações para Bezos existe uma fiação dos valores, dos bens lançados sobre nós como algo não transcorrendo apenas como demarcação comercial.

 

– Fala-se nas Universidades, logo em seus automáticos Congressos: NeoRreificação.

Por um lado, sim, mas surge forte minha passagem pela Antropologia Cultural engatada em fotos íntimas (nudez contratada por uma das primeiras agências de imagens femininas na Rede). Você sabe que me tornei assessora da empresa, deixando de ser matéria de divulgação. Melhor: material de exibição. Daí, o salto para a grande imprensa.

 

– Essa coisa de estar dentro e fora do que se vê no desfile das horas roladas em volta de informação mundial decide tudo, Vix.

 

 

 

– De um jeito ou outro tenho onde morar. Tenho com quem conversar! Ah, já está de pé, hein garotinha? Você praticamente não dormiu.

 

– Nem posso. Estou estatelada com os homens do Grupo Karmann. (Sem ninguém mais à nossa volta).

 

– Ah, não brinca! Meu bem, você entrou mesmo na fortaleza do Jardim (Rua Alemanha)? Depois me dá o número de lá.

Não fode, me diz como é que fica? A conversa toda girou no corte-cola do que diz Bezos? (Para lá do que ele empreende, a surpresa está no guia emitido/escrito – Amazon Arsenal, eu bem te disse).

Além do mais, na lata sua cara é non stop sex. Ainda mais com palavras imprevistas, um impromptu no calor da hora, da moda.

 

– Com certeza, se penso em não ser somente o rosto bonito entre manequins das Confecções mais cobiçadas da Paulista.

Bastou eu sinalizar que os megaprodutores de Publicidade, Imagens do Tempo, Eventos por Segundo (caso do Clã Karmann) estão ligados a um mundo onde não há apenas a lógica do acúmulo – (A “deixa” foi dada, inclusive, por eles dois, pai-e-filho, uma vez que procuravam modelitos para um evento empresa-família).

Estar na nuvem (logomarca dominante, global) só tem sentido quando se encontra um vazio (esvaziamento tático) ao alcance do não-imaginado .

 

– Valeu sua Especialização simplesmente por atuar como um misto de arrumadeira-secretária da exegeta de Artes Performativas na Universidade Nacional (Vange Florestano). Quando isso se junta ao concebido apenas como Moda: o jogo vira.

 

– As pedras se encontram. É hora agora de eu dizer Meu Bem.

Importante demais, o foco dado por nós duas à maior Fortuna da Terra. Nada subsiste apenas por capitalização, usura, usuário opinador da Web. Pulsa no subsolo do que apenas se vê, na rota dos espectadores universais, um amazing book of hours.

Tenho certa impressão de que estamos montando uma empresa na surdina.

 

– Na calada do dia (com um olhar vidrado no que flui à noite apenas).

 

– Não é por nada não: formamos aqui uma usina

 

(Bebete pensa. Mira a cafeteira. Está nua, abre a cortina do mukifo)

 

(O convite estala. Está lá no celular – Revista Maga Mega em Performance-Celebração –

Karmann Studio Satélite)

 

 

2

 

 

         Há horas não há notícia alguma sobre o paradeiro de Cid –

As notícias correm por várias vias, acompanhadas por fotos frontais dos homens furiosos que demoveram o Cantor/Atuante no seu auge de emissário da população em recuo após o trabalho para a morte (Real Economia e Finitude – bem soube fazer-se valer de legendas a presença de Bebete Bezos como curadora e criadora das cenas).

Corria mesmo um podium de apostas sobre a real natureza daquela apresentação –

Pois entre real e apresentação, os polos se baralhavam. Principalmente, da parte de quem tem mirada fixa sobre Odila Karmann, a comandante da Revista em matéria impressa e seus correlatos vazados por todos os lados em que imagem e escândalo possam se entretecer. Este é o caso de Rodolpho, ligado à distância na comemoração em que sua mulher se encontra. Totalmente interessado em esquadrinhar os rumos da participação de Anésia numa empresa, à qual ele não cessa de se referir como Monopólio Complô.

Não à toa, foi ele um dos primeiros a ver a notícia nos primeiros minutos do dia seguinte no Jornal da Madrugada –

Cid está algemado, apenas portando uma sunga, destituído de todos os adereços de rapper divulgado de SP HiperUrbe para as ondas viciosas do Rio –

Ostenta, em uma fotografia estourada pelo sol abrasivo, doentio, apontado para o falso resto de noite, um cartaz preso ao seu pescoço –

 

 

NÃO PASSA DE GANGSTA – PARASITA DOS BAIRROS- FAVELAS 

INTROMETIDO NA BARRA DO RIO, INTEGRANTE

DOS CRIMES DA SUA MAIS NOVA CIDADE

 

 

 

 

 

 

                   (Legenda, Corrente, Chicote)

 

 

Mazé se meteu em seu carro atrás dos raptores de Cid. Tudo em vão. Há uma espécie de desembocadouro cavernoso no rolar da falseada linha-reta da Avenida que faz ligação da Barra com o resto RJ.

Cid foi parar em Barros Filho (depois da Barra da Tijuca, bairro-condomínio), justamente uma localidade extensiva ao esgoto a céu aberto da Av. Br –

Um conglomerado de lascas de casa, buracos-de-morar, entre morros e becos sanguinolentos mistos de matanças, pântanos, desaguadores industriais –

 

Quem conduziu o poeta, pertencente agora a outra periferia pelo exemplo extremado da provocação nos limites de uma cena, foi sua antiga amiga, agora parceira de aprontos em Galerias de Arte –

Rumo ao corte mais talhado: do limite da palavra e do canto numa direção brutal da realidade, ato em toda crueza (Está sendo feita a pergunta, zoa no ar, o que aconteceu, de vera, na “lata”?

De vera, no ato?)

 

Não para de rolar a indagação –

Para os audientes, os seguidores distantes de Maga Mega, os loucos por notícias estrondosas, sejam profissionais da informação quando não solitários catadores de entretenimentos mesmo pela vertente do “mico” alheio, da mímese da vida no mais concreto – Tudo se deve a ela?

 

(A tal, B de Bezos? Para além do nome próprio Bebete)

 

 

 

3

 

 

         Sexo (Próximo Deadline)

            Guerra (Espetáculo Planetário)

           Suicídio (Passo Em falso)

 

 

Não dorme mais. Depois do suicídio (falha, fantasia), não encontra brecha para o sono (nem se diga sonho porque duplicado seria o ato deslocado de matar-se, só fazendo repetir a alegoria de um repouso).

Não dorme mais. Porque o amigo de viagem não sai do seu lado, pronto para amá-lo quando quiser. Mesmo depois da tentativa de suicídio, a possibilidade de um acasalamento instiga eles dois, ainda que embalada por um sentido de cuidado, cura, assistência de corpo e alma (algo além sempre, quer dizer cada momento)

(Entre a amizade e um puta tesão, porque apenas assim sem resolução do estado dos afetos entre as pessoas, a convivência um-a-um, sem se tornar 2, pode virar um diálogo sem corte)

 

É o que pode pensar o anotador de coisas lidas e vividas numa só tacada, o mais jovem filósofo (depois do anunciado Crepúsculo do Pensamento por Emil Cioran)

Sob risco de inviabilizar PERFORMANCE, Garrel se lançou no vazio formado entre o mirante e a sensação de ter o delta do Danúbio para dissolvê-lo no ar de um tempo de guerra –

Fixou de tal forma as linhas da caderneta (um pêndulo entre o romeno Cioran e o brutal episódio recente sequestro/retalhamento de um corpo rapper, Cid, um brasileiro de periferia/cantor dos lugares em mútua implicação)

Ao ponto de ter a seu lado um novo repentista transposto para outra parte do “Universo”, por assim dizer dos universais dissolvidos com a gradativa desaparição de um Eu/EuroCentro

Por custo próprio, arremessou-se ao vazio (à ideia de suicídio, tão sedutora quanto subtraída, morte à mão, de si, impossível) – Lançado à interrupção da cultura dos eventos e das performances, no auge do que pode se chamar de mundo em blocos, em blocagem generalizada

 

Não adianta morrer. Nem mesmo pelas próprias mãos. Não adianta matar. Ninguém, na real  –

Outra ponta sobressalente pontua um resto morto em revolta vida, resto vivo em revolta morte – se suicida. Presa dos próprios rastros, a morte não vem. Está aqui. Já se deu:

         Há um anteparo – uma cama de folhagens e lodaçal onde se pensa o abismo. Justamente, no ponto em que os mundos se encontram e logo se dissolvem – 

         Não é para morrer a queda de Garrel no vácuo danubiano quando ele lança os braços em arremedo de decisão (golpe-de-teatro misturado a uma porrada na aparentemente autônoma aterrorizante sexualidade despenhada para todos, para qualquer um que chegar/só-se-for-agora). Quando pensa que se deixa ir na fluência mortal, marítima, ao escorrer de um delta, na franja dum canal  –

O mirante (kiosko, na língua romena) tem falso fundo, abriga quem cai justamente na lama, no lixo

Então salvo em tal ínfima, inóspita revestidura

Ínfimo revestimento para uma inóspita investida/investidura

,,,salvo, enfim, em tal ínfimo, inóspito revestimento,

 

(As linhas de Garrel não se completam, logo criam rasura. Repetem o que ele mesmo pensa saber de si e a elétrica voltagem que o lança de volta para uma vida recoberta por forte apelo à morte)

 

(Depois daí, desse ponto, ele perde a caderneta. Justo agora, ele se perde ao retornar para o chamado mundo dos vivos, tecnicamente equipados, de viagem a viagem, entre distâncias e ditos comuns, mundiais, ainda que nenhum palmo de terra pareça ser movido de um lugar ao outro)

 

 

É o que Bebete, de retorno a São Paulo, pode ler da caderneta desentranhada das notas (esparsas, verbais, impulsivas) de Garrel em versão romena (um bloco de escritos extraviado vem cair na sua mão) – Materiais dispersos em seu poder, acrescentados à última edição da Revista – Brasil em Bucareste, que ela folheia num banco de praça. Como se fosse alguém idealmente desconhecida em contato com o que viveu estampado em páginas de um grosso volume/ álbum volante.

 

Ao léu de qualquer fundamento e vontade. Uma revista entre as mãos. Praça Alexandre Gusmão (ela ali, atrás do Parque Trianon, São Paulo, Brasil, anos 2020)

Quanto mais se quer precisa, situada, a sustentar documentos em estampa, fotoshop, folheamento de revista, páginas ilustradas, imantadoras, entre os dedos. Encontra-se ao léu

Eis o que pode ser apurado na leitura das anotações de viagem (por Garrel), muitas delas inseridas em Maga Mega Número Nova Velha Europa Impasse Guerra-Governo Fake Brasil – “Ele tentou a morte também por mim, pois estava querendo matar todos – Karmanns, passantes de Putin, involuntariamente ou não, expats na Romênia –

 

Mescla de crime e desejo (não suporta “amar demasiadamente pessoas dos sexos e das idades mais diferentes, quando se desnudam figuras belas, imprevistas, no correr da viagem por conta da performance”)

De uma linha e outra não sei quem escolher, por qual orientação tomar a mão de um e de outro –

Bebete?

Bebete Bezos?

 

 

 






Mauricio Salles Vasconcelos é um dos escritores mais singulares em atividade no Brasil desde os anos 1980. Poeta, ficcionista, ensaísta, performer, roteirista e diretor, sua obra radical transborda em títulos diversos e produções incessantes. Toda sua poesia está reunida em Vocal, publicado pela Kotter Editorial em 2022. Seus trabalhos mais recentes no campo do ensaio são A Lágrima Macrológica (Hospital Brasil) e Mapas Caminhantes – Poesia do Tempo e da Terra (Edições Esgotadas, Lisboa), ambos de 2023. Sua seara romanesca, altamente perturbadora, conta com oito títulos, dos quais Bebete Bezos, cuja edição impressa apareceu em novembro 2023 pela Ar livre, é o último – provisoriamente.

 

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