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A última conversa

Atualizado: 28 de dez. de 2022

Sérgio Rodrigo Reis

João e sua alegria pura. Crédito: Arquivo Família JPC.



“Você foi o filho que já veio pronto”. Ouvi essa frase na última vez que conversei com João Paulo Cunha, o João, dia 17 de maio deste ano. Liguei para cumprimentá-lo pelo seu aniversário, quando me surpreendeu com essa declaração. Vou guardá-la para minha vida. A despeito de tudo que ele estava passando foi uma conversa feliz. Não falamos de doença. Falamos de vida. Desta vida escassa em contagem regressiva que escorre pelas nossas mãos sem controle. Vida que passa... Que passa muito rápido, e, em alguns raros casos, deixa um rastro de esperança, de gratidão, de ensinamentos e, porque não dizer, da própria existência. João habita em mim pelos seus ensinamentos. Pelas suas conversas, exemplos e sua forma de ver o mundo.


Conheci o João muito novo. Eu era bastante imaturo. Tinha acabo de sair da faculdade, quando fui selecionado numa acirrada disputa para ser traine do Jornal Estado de Minas, então o maior e mais importante do Estado. Havia acabado de ser lançado um concorrente por aqui: o Jornal O Tempo, periódico que apostava, sobretudo, numa inovadora cobertura cultural. Entrei no EM, juntamente com Eduardo Szklarz, Daniela Mata Machado e Mariana Peixoto, para compor uma equipe que faria frente ao investimento da concorrência, tendo o Joao Paulo Cunha como editor. Naquela altura, além da garra, vontade de aprender e dedicação, pela pouca experiência, tinha pouco a oferecer. João conseguiu tirar o melhor de mim. Foi minha escola de vida. Minha faculdade, meu mestrado e doutorado. Tive a oportunidade de aprender com esse mestre da filosofia, das artes, da cultura e do jornalismo. Me tornei mais humano em sua convivência. Cresci. Virei gente grande.


Conviver com pessoas geniais é um privilégio de poucos e nos engrandece. Neste mundo onde prevalece o individualismo, a mediocridade e a parcialidade - até mesmo no jornalismo -, João ensinava generosidade. Nunca vi tratar mal ninguém. Nunca vi usar o poder que tinha para humilhar, para demostrar qualquer superioridade. Pelo contrário. Usava a sua sabedoria com sabedoria para ensinar e engrandecer os que o cercavam. Sem jamais perder o tom cordial até nos momentos mais estressantes, algo peculiar e quase diário na profissão de jornalista.


Conviver com João profissionalmente foi um privilégio. Com maestria, João transformava nossos textos em algo definitivo. Com seu toque genial, como quem lapidava pedras brutas, mexia um pouquinho na ordem das palavras e, como toque de midas, transformava as reportagens. Os melhores textos que escrevi passaram pelas mãos do Joao, que, com seu brilhantismo, mantinha a autoria e a característica de cada colaborador, abrilhantando a entrega. O leitor que agradecia.


Para além da profissão, João me ensinou a ver o mundo de outra forma. A aceitar as diferenças, a dialogar, a debater e a buscar consenso. Não discórdia. Também me ensinou a voar. Quando o jornalismo sinalizava uma futura crise diante do advento da internet e da crise do jornalismo impresso, me deu toda força para sair em busca de novos horizontes, a estudar mais, a empreender e aceitar as oportunidades que a vida foi me dando.


E mesmo num dos momentos mais difíceis profissionalmente, quando, diante do convite para eu deixar de ser repórter e assumir a direção do Museu de Arte da Pampulha, mais uma vez tive uma prova _ se é que ainda era preciso _, de sua generosidade. Ao pedir demissão, João foi comigo até a direção do Jornal Estado de Minas e negociou uma licença sem remuneração. A situação atípica me deu mais coragem para me lançar rumo ao desconhecido. E assim a vida foi me guiando a outros desafios, sempre com o João Paulo, como alguém que me acompanhava e se preocupava com os caminhos que estava trilhando. Talvez por isso João tenha me dito a frase que mexeu tanto comigo.


Na verdade, sempre o considerei como um grande amigo e uma referência. Como alguém próximo, que me conhecida como ninguém e me incentivava a criar e a crescer, mas não como a imagem que tenho de um pai tradicional: aquele que toma conta, chama atenção quando deve e vai corrigindo o filho para não fazer bobagem. Mas acho que me enganei. No auge da sua sabedoria e da sua generosidade, nossa relação era muito além da amizade. Era algo maior. Era amor. É amor.

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