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A festa e a fé em uma estória de amor

Caio Junqueira Maciel

Manuelzão na estrada da Fazenda de Sirga, em 1994 (Crédito: Alaor Barbosa)



"...essa fé de movimento, essa valentia de religião…"

João Guimarães Rosa, “Uma estória de amor, p.148)



Rosa: era uma rês, era uma reza

No mesmo ano em que publicou Grande sertão: veredas (1956), João Guimarães Rosa também fez vir à luz o monumental Corpo de baile, com sete estórias, que podem ser chamadas de contos, novelas, romances e até poemas. Hoje, essas sete estórias estão distribuídas em três livros: Manuelzão e Miguilim; No urubuquaquá, no pinhém e Noites do Sertão. No primeiro desses volumes vêm as narrativas "Campo geral" (sobre Miguilim) e "Uma estória de amor" ou "A festa de Manuelzão". É sobre essa estória que versará este artigo, atentando para a questão do contar estória, da presença do boi e da importância da religiosidade na obra.


A ensaísta Ana Maria de Almeida, ao estudar a técnica ficcional desse escritor, observa que suas narrativas são intercaladas "com mitos, provérbios, canções e toda a sorte de casos e estórias [e assim] propõe-nos o fascinante estudo da ficção como objeto salvador e configurador do desejo". (Almeida, 1998:9). À guisa de despertar o apetite do leitor, seleciono aqui uma espécie de decálogo: 10 frases extraídas de "Uma estória de amor" que podem funcionar como uma súmula artística desse genial autor:


I. (...) em qualquer novidade, nesta vida, se carece de esperar o costume, para o homem e para o boi. (p.113)

II. Mas tudo vem de mais longe.(p.115)

III. Mas tudo ainda era muito maior quando a gente ouvia contada, a narração dos outros, de volta de viagens.(p.124)

IV. A vida não larga, mas a vida não farta. (p.124)

V. Lá é Cristo, e cá é isto. (p.125)

VI. À mente, a mãe de Manuelzão reconhecia o tamanho da alma de toda pessoa, no disparo de um olhar.(p.131)

VII. Uma festa é que devia de durar sempre sem-fim; mas o que há, de rente, de todo dia, é o trabalho. Trabalhar é se juntar com as coisas, se separar das pessoas.(p.139)

VIII. O destino calça esporas.(p.139)

IX. A música derretia o demorado das realidades.(p.164)

X. Esta vida da gente, do mundo, era que não estava completada. (p.168)



Vai rolar a festa

A narrativa sobre "A festa de Manuelzão" é feita na terceira pessoa, mas com o foco narrativo quase sempre em Manuelzão. Daí o recorrente uso da técnica do discurso indireto livre, como nesse trecho, em que o protagonista sente que as mulheres não querem que ele fique por perto, nos preparativos da festa:


"À sonsa, queriam afastá-lo? Enquanto fôra obra de roçar a marca, torar madeira e carrear o materiarame, fincar os esteios, levantar os oitões, e terminar - ele mestreara. Mas entre homens, seus homens. Agora, as mulheres tomavam conta. E ele ia ter alguma jeito?" (p.108)


Num pobre lugar do sertão chamado Samarra (que significa antiga vestimenta ou batina de pele de carneiro), há enorme expectativa para a festa de Manuelzão, que administrava as terras de Federico Freyre. Manuelzão, cujo nome inteiro era Manuel Jesus Rodrigues ou Manuelzão J. Roiz mandara erguer uma capelinha, ainda sem sino, e a festa era para a bênção desse templo. A santa da capela era uma feia imagem de Nossa Senhora do Socorro. Do lado de fora da capela havia as "desastradas" letras do administrador. Era uma pequena capela, que mal cabiam dez pessoas. Mas Manuelzão queria muita gente ali, era a primeira missa, a fundação da Samarra. Havia uma multidão de mulheres nos preparativos. Manuelzão, com sua voz de "comandar mil bois", ia dando ordens, reparando que faltava a pia de água benta. As mulheres, sob o comando de Leonísia, nora do protagonista, não queriam o homem por perto. Mas ele era o chefe. O povo vai chegando, trazendo oferendas as mais estranhas e variadas para o leilão: pedras coloridas, orquídeas, musgos, ovos de gavião e couro de tamanduá; concha, jarro antigo, machados de bugre, frango d'água, cabaça de mel. Até mesmo mortalha que não fora usada (pois o afogado não fora encontrado). Manuelzão estava satisfeito com aquele ritual, pois nunca dera uma festa. Havia muitas mulheres, lindas moças. Gente armada também aparecia e ainda faltavam dois dias para a grande festa. O irmão de Leonísia, Promitivo, embora tido como malandrão, ajuda o chefe. Por ali apareciam também ciganos e aleijados. Quem ainda não dera as caras era o dono das terras, Federico Freyre. Assim, Manuelzão era visto como "único dono visível". Ele, com quase sessenta anos, tem sonho de riqueza.


A mãe de Manuelzão, Quilina, falecida há não muito tempo, achava que seu filho é que era dono de tudo. Fora ela quem idealizara a capela. Agora, estava sepultado ali ao lado. Havia quatro anos que Manuelzão morava na Samarra, "terra asselvajada". Antes, "sem pique nem pouso", vivera conduzindo boiadas e morava só, enquanto a mãe estava no lugarejo do Mim, na mata dos Andrés, em Pium-í. Manuelzão tinha um filho natural, "nascido de um curto acaso" no Porto das Andorinhas. Esse filho, já com trinta anos, chama-se Adelço. É descrito como cabeludo e meio feio. Manuelzão via que o filho não se parecia com ele, que nem se lembrava direito do nome da mulher que o concebera, já falecida. Adelço tinha sete filhos, sendo que a mais velha tinha sete anos. Manuelzão cismava que os netos não gostavam dele, que não tinha "habituação para a pequenez deles". Não via o filho com bons olhos, achava que havia um pouco de maldade nele. Temia que um dia Aldeço tivesse o poder nas mãos. Para Manuelzão, a nora era uma boa mulher, embora o irmão dela, Promitivo, fosse um vagabundo.



Um rio que secou

Antes de Samarra ter esse nome, Adelço havia sugerido o nome de Riacho Seco, o que magoou seu pai. Acontece que havia ali um bonito rio, perto de onde fora levantada a casa, e esse rio inexplicavelmente secara. Para Manuelzão, esse fato é comparado à morte de um menino. Em suas cismas, Manuelzão tinha medo de morrer, Quando a igrejinha fora erguida, eles tinham que buscar água longe. No antigo riacho, havia filas de árvores pequenas, como se esperassem o retorno das águas. Por ali havia predadores que ameaçavam as criações: raposinha, ouriço, irara, gambá. Quilina apreciava ouvir o canto do pássaro Fogo-apagou. Ela gostava de todas as criaturas inofensivas e vulneráveis como os meninos, as rolinhas e o Velho Camilo, um mendigo que morava por ali. Agora, mês de maio, esse Velho Camilo vem levar flores à sepultura de Quilina.


Por ali viveu também um surdo-mudo, a quem chamavam de João-de-Deus. Partira quando entendeu que tinha que fazer um certo serviço. Agora, Samarra estava virando uma fazenda. O Velho Camilo tinha oitenta anos, era digno e tímido e em seu sobrenome havia Santos Vieira do Riacho dos Machados. Era branco, de apuradas feições, os olhos azuis. "A vida não lhe desfizera um certo decoro antigo" (p.118) Para Manuelzão, antigamente o povo de Camilo tinha poder. Leonísia mandara costurar roupa nova de festa para o mendigo, que teria tido um caso de amor com a feiosa Joana Xaviel. O mendigo oferece ajuda a todos que chegam para festa, sempre exclamando: "Será dúvida?"



Com o pé na festa

Todas acham que a festa ia ser boa. Veio o frei Petroaldo, de Pirapora. Manuelzão até se esquecia do seu pé inchado, que o incomodava. Petroaldo era moço, prático. Chega também o ermitão João Urugem, que vivia no pé da serra, uma espécie de homem-bicho. Vivia com corujas, urubus, desde que fora acusado de um furto que não cometera. Fedia a mijo de cavalo, mal sabia pronunciar as palavras, chorava pensando que estava rindo. As mulheres pegam no terço enquanto chega gente importante como o senhor de Vilamão, um velhinho usando uma antiga capa conhecida como Cavour, mas que o povo chamava de cavu. Esse senhor, bem velho, meio cego, parecia frágil como vidro. Mas tinha poder, e isso é que mais impressionava Manuelzão, que sente uma fisgada em seu pé. Adelço não ajudava em nada. Da Vereda do Liroliro chega o ex-vaqueiro Lói, que também caçara onças e agora negocia mulas e burros. Trajava uma baeta, espécie de túnica. Manuelzão achava que aqueles que usavam balandraus, isto é, capas compridas, não deviam ficar com elas, pois ofendiam os mais pobres. Em verdade, o chefe invejava aquelas roupas, como o cavu usado pelo senhor de Vilamão.


Chega o vaqueiro Simião Faço, trazendo consigo o abastado sitiante Vevelho, com seus filhos músicos e os respectivos instrumentos. Tudo isso enchia Manuelzão de orgulho, todos iam ficar sabendo que ele tinha lá o seu poder...Simião conta casos de um destemido vaqueiro chamado Uapa, homem que tornara-se uma verdadeira lenda. Manuelzão ouve os casos e pensa em sua vida: diferentemente de seu pai, um roceiro do Mim, temente a Deus, Manuelzão nunca parara, vivia tangendo gado por todos os lados. O povo resolve fazer uma procissão noturna até a capela. O preto Chico Braabóz toca rabeca. As cantigas animam a noite. Uma mulher carrega uma criancinha nua, pagando promessa. Manuelzão arrasta sua perna e quer ficar perto do padre. Três dias após a festa teria de levar uma boiada para a fazenda da Santa Lua, e estava com receio de cumprir essa missão. Poderia pedir para Adelço ir em seu lugar. Procura pelo filho, mas, na capela, só vê as "pessoas de primeira vantagem", como Leonísia, Vevelho e o senhor de Vilamão. O Velho Camilo recitava versos que Manuelzão não entendia. Ele se lembra das estórias de Joana Xaviel, como a do príncipe Varão, que era, na verdade, uma donzela disfarçada.



Festa "Joanina"

Joana Xaviel era contadora de estórias. A sua presença nesse conto, segundo Ana Maria de Almeida, lembra o episódio de Maria Mutema em Grande Sertão: Veredas. Em uma de suas estórias emerge o "mito do feminino cruel, portador da fala e do falo, que encena o aspecto temível e misterioso da sexualidade, assim como dá voz à angústia do homem em busca da identidade". (Almeida, 1998:12) Embora fosse uma mulher feiosa - o que remete para a fealdade da própria santa da capela - quando começava a narrar, "ia pegando formosuras". Conta a estória de um homem que lhe aparecera depois de morto. Enquanto ia ouvindo as estórias de Joana, Manuelzão recebia os cuidados de Leonísia, que se ocupava em aliviar as dores do pé inchado do sogro. Este considera que a nora era muito diferente de seu filho, um homem hostil. Manuelzão quer descansar, pois bem cedinho a festa iria prosseguir. Joana continua contando estórias, agora a de uma mulher má conhecida como Destemida. Manuelzão pensa na viagem difícil para Santa Lua. Na estória de Xaviel, há o fazendeiro rico que pediu para o vaqueiro pobre cuidar de sua vaca Cambuquinha. A Destemida, mulher desse vaqueiro, faz com que o marido mate a vaquinha, para comê-la assada. Manuelzão pensa que pessoas cordatas como sua mãe e o Velho Camilo engraçavam com Joana Xaviel. Na estória de Joana, a Destemida envenena a mãe do fazendeiro; E a estória se encerra sem o devido castigo para a malvada protagonista. Faltava, então, uma parte que ninguém sabia completar. Manuelzão fica sabendo que Adelço teria mantido relações sexuais com a contadora de estórias, "usara o selvagem do corpo dela". O Velho Camilo também teria amado Joana, apesar de ser bem velho. As estórias daquela feiosa fazem Manuelzão pensar em ter riquezas como o senhor de Vilamão.



Criaturas da noite

Durante a noite, Manuelzão fica pensativo. Seu filho traz-lhe desgosto. O vagabundo do Promitivo, pelo menos, gostava de ouvir as estórias de Joana. Insone, o chefe pensa na boiada que teria de conduzir. Fica no dilema: mandar Adelço em seu lugar, afastá-lo da esposa, Leonísia, mandando-o longe, até mesmo para as bandas de Belo Horizonte. Manuelzão recorda-se do companheiro Acizilino, que se casara num sábado e já na segunda-feira viajara, levando uma boiada por mais de quarenta dias. Manuelzão nunca se casara: "Macaco não tem dois gostos: assoviar e pular de galho… Pegara o agrado de mulheres acontecidas, para o consumo do corpo: esta-aqui, você ali, maria-hoje-em-dia - eram gado sem marca, como as garirobas, sem dono, do cerrado." (p.139) E passa da meia-noite mas ele não dorme. Joana continua com intermináveis estórias. Ele, com ruins pensamentos, imagina o sexo entre Adelço e Joana. E ele mesmo poderia ter tido relações com ela, já que não possuía "mulher formosa no canto da cama". A fealdade de Joana não seria obstáculo, se ele mesmo quisesse ficar com ela.


A prosa da cozinha cessa. Agora Manuelzão pensa em Leonísia, na cama com o Adelço. Os maus pensamentos impedem que o sono chegue. A festa remexia dentro dele. Torna a pensar no senhor de Vilamão, que era muito respeitado. Seu tetravô fora bandeirante, desbravara o sertão, lutara com bugres. Manuelzão era fascinado com o poder, mas, por contraste, pensa no Velho Camilo, em sua pobreza, que chegara a ajuntar os trapos com a Joana Xaviel, numa cafua na Chapada. Pensa também em João Urugem. Deviam civilizá-lo, pois "criaturas feito ele não podia mais haver", e o lugar precisava de progressos. Urugem morava num lugar que era "a mãe do demo". Voltando a pensar no casal desfeito, Camilo e Joana, Manuelzão considera que "a gente ou é angu ou é farinha". E medita que havia uma certa graça "naquela estória de amor nessas gramas ressequidas, de um velhão no burro baio com uma bruaca assunga-a-roupa"(p.144).


Ainda insone, Manuelzão pensa no vaqueiro épico Uapa, que deveria ter vindo para a festa. Era o maior vaqueiro do Urucuia. E aí, a mente do insone fica repleta de antigos vaqueiros e suas estórias. E pensa no riachinho, na mãe, no amor, no casamento, na riqueza. Ao pensar em Adelço, vem-lhe uma ponta de ódio. E, de novo, pensa no riachinho, pergunta-se para fora esse riachinho. E se tortura ao pensar na viagem com a boiada. E se morresse no caminho? Agora vem-lhe a figura animalesca de João Urugem, que conversava com os entes do mato. Pensa no canto do passarinho Água-só. Em cada lugar, esse canto era traduzido de forma diferente: Reza-povo, por exemplo. E o sono acaba chegando. Ele reza uma "ave-mariazinha" para a mãe e murmura: "Galo que até aqui não cantou, não conte com meu ouvido". (p.147)



Enfim, a festa

Manhã seguinte, o "dião" da festa. Um papagaio começa a gritar. "O inchado do pé estava doendo melhor"(p.147) Manuelzão pressentia o "bafo de um dia que ia ser bonito". O povo ganha leite. A festa ia começar, "essa fé de movimento, essa valentia de religião"(p.148) Era muita gente para uma capelinha bem pequena. Há missa, leilão, música, cachaça. Almoço com fartura: arroz e carne de galinha. O Velho Camilo ganhara o frango d'água do leilão e diz que vai doá-lo para a santa, "será dúvida?" Um violeiro, Pruxe, e seu sobrinho dançarino Maçarico ajudam a animar a festa. Há cantos, danças, letras líricas, regionais. Manuelzão hesita em ficar com o povo ou com os visitantes mais graduados, a que ele chama de "personagens". Promitivo aprende as danças. Assim, a festa transcorre alegre, entre muitas cantigas. Ainda assim, Manuelzão achava que alguma coisa miúda faltava. Pensa na boiada que partirá. Levaria o Promitivo, para alegrar a viagem, pois vira que o rapazinho - aliás, muito parecido com a irmã - aprendia rápido as cantigas e danças. O Velho Camilo soltara o frango d'água. Manuelzão começa a achar o mendigo parecido com seu pai. Chegam mais dois vaqueiros, Jão Orminiano e Queixo-de-Boi, trazendo uma carta da fazenda da Santa Lua, de Federico Freyre, no Rio das Velhas. Carta do patrão, para o administrador, era "de setenta vezes de ler". Ele comenta com Promitivo que faltava, na festa, o tal vaqueiro Uapa, aquele que vivia "em mágica com os bois".


A comida era gostosa. Ali estava também o valioso fazendeiro Seu Lindorífero, tratado com a maior cortesia. Manuelzão quer que alguém leia a carta do patrão, desculpa-se, pois não achava conveniente ele mesmo ler os elogios de Freyre. Outros também dão desculpa, alegando problemas de visão. Um tal Joaquim Leal lê os respeitos de Federico Freyre a Manuelzão J.Jesus Róis Rodrigues. Após o almoço, o padre vai embora, foi como se tirassem um bom pedaço da festa. Não ocorre nenhuma briga, apesar do muito que se bebia da "jenuária" e "a-do-ó". Também havia cerveja, com seu "espumaral". E Manuelzão sente falta do fluxo do riachinho. Chico Carreiro carreava água das Pedras, em vários potes. A capelinha já estava fechada e Manuelzão trazia a chave na algibeira. Mais músicas e conversas sérias entre os vaqueiros: falam de enchente, de arroz, de negócios. Alguém comenta com Manuelzão que não se devia tratar de negócios em dia de festa, ao que ele responde que era preferível trabalhar num domingo a furtar numa segunda...


As violas animam a festança. Leonísia dá de mamar ao bebê. Um rapaz, que estava com febre, melhorara. Manuelzão sofre em seus pensamentos, pois acha que, mesmo na festa, "a gente carecia de sofrer também o ramerro dos usos, o mau sempre da vida.(...) Por pouco, quem sabe até iam dizer: Festa do Manuelzão, todos divertem, ele não..." (p.167) O animado Chico Bráaboz, que não "desaceitava" bebida, ia tocando sua rabeca, falando que o mundo escorre e acaba para quem morre...Manuelzão filosofa que a vida é consolo e desgosto, e torna a pensar na estória de amor entre Joana e Camilo, que as pessoas consideravam ser um caso feio. O jantar é servido. Manuelzão conversa com a nora, que percebe que o sogro está cansado. Ela deseja cuidar do pé inchado, chamando-o de pai. O sol vai se pôr. Manuelzão vai até a sepultura da mãe. Ouve conversa do vaqueiro Acizilino e pensa de novo na boiada, os maus pastos do pernoite, os frios, o desconforto. Mas toda sua vida tinha sido isso, e agora sua alma se entristecia. Projeta abandonar essa vida, quando ficar rico. Acizilino diz que andava cansado. Manuelzão escuta mas não deixa que os vaqueiros o vejam. O Velho Camilo acompanha o chefe, que quer entender a tal estória de amor. Pergunta se o mendigo está se divertindo. Este responde de forma original:" Eu não divêrto não. Eu só intéiro e semêlho".(p.173). Manuelzão crê que o velho quer falar mais alguma coisa. Conversam sobre João Urugem. Cai a noite. Adelço está mais sociável, oferece bebidas. Diz que o pai está com pé inchado e se oferece para levar a boiada. Isso alegra o pai, mas não aceita a oferta, diz que faz questão de ele mesmo levar o gado.



Fim de festa e começa de nova estória

Manuelzão, nesse fim de festa, começa a pensar que não tem nada, tudo ali era do patrão. Identifica-se com o Velho Camilo - o que, de certo modo, aproxima-o da imagem do falecido pai roceiro. Sofrendo a aflição dos pensamentos, julga-se que andava em erro e pede ao mendigo que lhe conte uma estória. E, nesse momento, todos vêm e fazem um círculo em torno de Camilo, que começa uma comprida estória que se passa no centro do sertão.


A estória de Camilo, embora contada em prosa, é praticamente um poema, um velho romace em versos de redondilha maior, como se vê no seguinte exemplo (as barras foram postas por nós): "Quando tudo era falante/ No centro deste sertão/ e de todos. Havia o homem/ a coroa e o rei do reino..." (p.180). Trata-se da estória do Boi Bonito e da Décima do Boi e do Cavalo, envolvendo um vaqueiro misterioso, que se dizia ser um "vaqueiro menino" em busca de um boi indomável chamado Boi Bonito. A estória de Camilo tem todo aparato de uma saga medieval, os vaqueiros são como cavaleiros andantes. Quem vencesse o boi, teria o direito de casar-se com a filha do Fazendeiro. E, onde o Boi morava, havia um riachinho que não secava. Até o João Urugem, de quatro, ouvia atentamente aquela narrativa. O vaqueiro Menino, afinal, revelava seu verdadeiro nome: Seunavino e vence o Boi, mas pede para que ele ficasse livre. Pede o cavalo como prêmio. E é de manhã quando termina a estória, um amanhecer da própria alma de Manuelzão, que está bem disposto, animado, pois sabe que a festa "não é pra se consumir, mas para depois se lembrar"(p.193). Anima-se com a ideia de que daí a três dias iria sair com a boiada, pois a vida continua em seu movimento, em sua festa, em sua fé.



Ao pé da letra

Manuelzão, como Édipo, tem o pé inchado. A questão do incesto, que é a tragédia do grego, de certa forma perpassa pela mente do administrador da Samarra, pois ele tem certa fixação em sua nora Leonísia que, inclusive, chama-o de pai. Curiosamente, a fazenda tem nome associado a pele de carneiro e a nora tem nome ligado a leão. O incesto não ocorre, pois há a reconciliação entre pai e filho, e Manuelzão seguirá com a boiada, não tendo, portanto, pretexto para ficar a sós com a esposa de Adelço.


A epígrafe de Corpo de baile que se refere a um texto de Plotino sobre o centro tem ligação direta com a estória de Manuelzão, em que se projeta o tema do poder, a concepção de que o protagonista era o centro da festa, até o momento em que, com sua estória, o mendigo Camilo ocupa o lugar do centro. Essa epígrafe de Plotino também acena para a questão do movimento, em oposição à imobilidade, à estagnação. Assim, é significativo a presença daquele riachinho que pára de fluir, sugerindo a ideia de morte. A estória de Camilo faz uma incursão no eterno, num cenário de um rio cujas águas rolam incessantemente. As estórias e cantigas inseridas no texto e na festa são exemplos de uma linguagem também em festa, sempre conferindo vida, movimento e fé. Uma outra epígrafe, esta especificamente para o conto (ou poema) "Uma estória de amor" diz respeito ao tear: "o tear/ o tear/ o tear/ o tear// Quando pega a tecer/ vai até o amanhecer". Para Ana Maria de Almeida, a epígrafe tem a função de "anunciar a sequência narrativa como fusão metonímica de narrativas análogas".(Almeida, 1998:14).Ora, isso está diretamente ligado à narrativa do Velho Camilo, cujo nome, aliás, significa "sacerdote de Deus", enquanto no nome de Manuelzão vemos o nome de Deus, de Jesus, contrastando com Adelço, "o contrário da festa", cuja etimologia árabe liga-se a infiel.



Festa e Céu

Para Heloísa Vilhena de Araújo, "Uma estória de amor" é um texto marcado por forte religiosidade: "Percorre o texto referência constante a este clima de religiosidade, de reverência do transcendente, do sagrado". (Araújo, 1992:45). E essa ensaísta enumera muitos exemplos em que o nome de Deus, de Cristo, dos Evangelhos, do Céu vão se repetindo ao longo do texto. Segundo essa análise, a estória de Manuelzão é sobre a transcendência, a penetração no Eterno. Assim, a narrativa do Boi Bonito, do Velho Camilo, é uma metáfora de transfiguração. O "branco que o Boi vestia", emblema da pureza, da espiritualidade, ratificada pelo Menino, que evoca o Menino Deus.


Estória, fé e festa: festória, eis um neologismo para classificarmos esse texto que é hino ao movimento e à vida. Se a "festa remexia" dentro do protagonista, é porque ele estava a espera dessa fé de movimento e dessa valentia de religião, como reza o texto de Rosa. Ao resolver sair com a boiada, "somos que vamos", o verbo ser alia-se ao verbo ir, e o humano é rio que flui e que não seca. Sintomaticamente, essa viagem é para três dias após a festa, o que remete para o texto sagrado, a ressurreição de Cristo.


Muitos detalhes poderiam ser lembrados na análise dessa estória, como o fez, por exemplo, Ana Maria Machado, rastreando os nomes das personagens, observando que quem lê alto a carta de Federico é Joaquim Leal; Promitivo é cheio de promessas positivas; Federico Freyre já tem a riqueza no nome; Joana Xaviel tem a chave em seu sobrenome, o que remete para a estória como chave que tudo abre, inclusive as esperanças em Manuelzão...E, na estória de Camilo, há a revelação do nome do Menino: Seunavino, que sugere a nave (igreja) edificada por Manuelzão, que também evoca a arca de Noé, também nave. Ana Maria Machado vê Manuelzão como uma espécie de patriarca fundador que sabe o caminho a seguir, evitando uma relação perigosa, incestuosa com Leonísia.


Guimarães Rosa confessa a seu tradutor italiano que chegou a ouvir, de fato, a estória do Velho Camilo, inclusive com o uso do verbo "sarajava", que o contador não soube explicar o que era. Rosa anota: "Verbo só em aa, belíssimo! Irradiava, como transfigurado? - É uma coisa misteriosa, que não podemos racionalizar. É o Thabor do Boi? Sua theofania?" (Rosa, 1981:35)



Referências bibliográficas:

ARAÚJO, Heloísa Vilhena. A raiz da alma. São Paulo: Edusp, 1992.

MACHADO, Ana Maria. Recado do nome. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

ROSA, Guimarães. Correspondência com o tradutor italiano. São Paulo: T.A.Queiroz, 1981

ROSA, Guimarães. Manuelzão e Miguilim. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972.

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