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Balada do urubu

Zeferino Zefarelo



Meu senhor, minha senhora,

Prestem bastante atenção,

No caso que vou contar...

Eu vivia lá no mato

Sem qualquer preocupação.

Tomava banho de rio,

Voava pelas montanhas.

Na hora de dormir, dormia,

Na hora de comer, comia.

Bastava ficar atento

Às carniças que dona Onça

Deixava para mim...

O filé mignon era dela.

Desgosto não se discute,

Uns preferem carne fresca.

Isso pra mim é frescura.

Urubu que é urubu

Vê a comida de longe!

Espera que com o tempo

Melhore bem o tempero.

E ficava o dia inteiro

O bando todo ao redor

Da carcaça que fedia...

Desgosto não se discute,

Mas, eta gosto danado,

O gosto com que nasci.

Quando sinto odor de morte,

Eu fico feliz da vida.


Mas a vida ⸺ dolce vita! ⸺

A vida foi piorando.

No sertão de onde eu vim,

De caçador virei caça,

Por isso vesti essas calças,

Essa camisa e esse chapéu

E vim pra cidade grande,

Em busca da felicidade,

Porém só provei o fel.


Lá no mato tava mau,

Não dava nem carrapato,

Eu quase que virei pato

No prato de dona Onça.

Virgem Maria, Creio em Deus Pai,

Parecia que tinham posto

Meu nome na boca do sapo.

Já não tinha o que comer

Nem pra onde correr,

De tão vazio era o papo.

Não sou águia ou carcará

Pra jantar cobra e lagarto.

Morrer é destino de todos,

Mas é ruim passar fome.

Ouvir a barriga roncando,

Feito trompete ou trombone.

“Se correr, o bicho pega.

Se ficar, o bicho come.”

Mas bicho bom anda raro;

Rareia até o bicho homem.


Ver os animais sumindo,

Até mesmo a comadre Onça,

Me fez perder a esperança

De encher a minha pança...

Por isso tomei coragem,

Fiz uma longa viagem

Mas agora estou aqui

Na maior camaradagem

Com os demais urubus.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá,

Sem que eu veja a minha terra,

Onde até urubu cantava...


Bem aqui deste lixão

Eu tiro meu ganha-pão.

Porém, não é fácil, não.

Pois tem muita boca

E muito bico, sabiá,

Bem-te-vi, joão-de-barro,

Canarinho e tico-tico,

Xô! de olho no meu fubá...

Tem bicho que veio de longe

E gente morando cá.

Tem gente comendo coisas

Que nem urubu quer provar.

Urubu come carniça,

Gente, lixo hospitalar?

Não sou o abutre que comeu

Fígado de Prometeu.

Disso não vão me acusar!

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá,

Para o meu sertão querido,

Onde eu vivia metido

Com os bichos da minha igualha.

Do banquete que eu comia,

Não sobrava uma migalha.


Viva eu e viva tu,

Viva o rabo do tatu,

Da paca... Cotia, não!

Não quero ser acusado,

De haver surrupiado

Comida boa pra gente,

Não sou bicho indecente,

Meu negócio é diferente.

Sou urubu, sim, oxente!

Não me chamem de ladrão,

Que eu nunca roubei ninguém.

Nem me acusem de sujeira,

Sujeito mais limpo que eu

Não tinha, não terá, nem tem.

De onde vim, sou majestade,

Sou o gari das galáxias.

Nos ares, matas e mangues,

A limpeza é minha lei.

Quem me conhece de fato,

Me chama de urubu-rei.


Mas esqueçam, meus amigos,

As tristezas desta vida,

E se alegrem com as primícias

Dos tempos de antigamente,

Da época em que se amarrava

Cachorro com linguiça!

E de costas e em latim

O padre rezava missa.

Deo gratias! Ai que preguiça!

Era só jogar a rede,

Ninguém morria de sede,

E havia peixe à vontade:

Curimatã, surubim,

Piau, piranha e dourado.


De primeiro não havia

Fome de jeito nenhum.

Morrer, morria-se de velho,

Depois de perder o juízo.

Naqueles tempos a terra

Era melhor que o paraíso.

A água era limpa e fresca

Que era uma beleza.

Ninguém tinha avareza,

Nem usina, nem usura.

Ninguém jogava mercúrio,

Ou algo mais tão espúrio,

No meio da correnteza,

Em busca de ouro e riqueza.


Bicho homem só dá desgosto,

Foi fazer do rio esgoto

E agora o que vai ser?

Morrer de sede é pouco

Pra quem não sabe viver

Sem poluir, sem sujar

A fonte de toda a vida.

Morrer de sede é destino

De quem, em desatino,

Desandou a poluir

A terra, a mãe natureza,

Que nem mesmo lacrimeja

E, de tão seca e ferida,

Virou senhora da morte,

Madrasta dos próprios filhos.

Triste Mater dolorosa

Quando chora, chove a rodo,

Arrastando lama e lodo,

E os trens fora dos trilhos.

Morro desce, rio sobe,

O lixo recheia as ruas.

Pobre que já não tem nada,

Perde a casa, a vida e tudo.


Morrer de fome e de sede

À beira deste lixão,

Que as autoridades chamam

De aterro sanitário,

Melhor seria chamá-lo

De um eterno sanatório,

Feito de garrafas pet

E plástico de toda sorte.

Mas falta sorte a quem vive,

Garimpando, sol a sol,

Algo que tenha valor

No meio daquele valão.

Parece até Serra Pelada,

Meu Eldorado lixão!

Vejam que sou fotogênico

Nos clichês de Sebastião.

Me contratem, cineasta

Ou artista contemporâneo.

Meu cachê é carne podre,

Poeta maldito, antropófago,

Eu sou... (diante das câmeras)

Avant la lettre e da lebre,

Não me agrada carne humana,

Nem curtida no curtume,

Nem úmida de chorume,

Que infecta o lençol freático

E infesta o ar de gases tóxicos,

Mais que o metano que as vacas

Sagradas do Sol espalham,

Pelos seus buracos negros,

Na feérica atmosfera,

Criando o efeito estufa

Na camada de ozônio.


Ah! Que fim levou o homem?

Talvez virou lobisomem

E em noite de lua cheia

Refugos de cirurgia

Fareja em meio ao lixo,

E, tão feroz e prolixo,

Ulula pelas veredas,

Às vésperas do colapso,

Previsto no Apocalipse,

Em busca da onça-parda

Para o duelo final:

⸺ Olerê, Jaguatirica!

⸺ Meu tio Iauaretê!

Suçuarana sussurrou:

Vade retro, lobisomem!

Pega essas tripas de homem

E o seio em necrose e some.

Não permita Deus que eu viva

Sem que eu vomite esse mito,

A pele, a carne e a carcaça.

Deste banquete nefasto,

Nada mais me refestela

Que três goles de cachaça.

Pai, Filho e Espírito Santo.

Cada gole vai pra um santo.

Te arrenego, Satanás!


Sou só mais um urubu,

Observando o que se passa,

Nesse mundo de meu Deus,

Crédulo entre os ateus,

Mas ateu para os mais crédulos.

Nasci branco, negro sou,

E no breu dessa agonia,

Ou no clarão da eugenia,

Cada vez mais alto voo

E sobrevoo o monturo

E não vejo ali futuro,

A não ser um céu escuro,

Sob o qual a criatura

Cavou sua sepultura,

Onde rato e saruê

Vão lhe roer a caveira.

Que desta ceia de vermes,

Eu receie tomar parte!

Boto a viola no saco,

E entre sopas e sopapos,

Saco o asco e bato as asas.

⸺ Adeus, eu vou-me embora,

Vou pra o céu dos urubus.

Que lá não chegue a catinga

Deste lixão encardido,

Onde o imundo se fez carne,

E habitou entre os homens.

É vício de urubutinga

Voar... Voar... Voar longe

E enxergar tudo de cima:

Drone com olho de lince,

De relance, noto a sombra

Da preta suçuarana

No rastro do lobisomem.


Quem é amigo da onça,

Mantenha certa distância!

A onça não tem amigos

E vive sempre a perigo,

E até se finge de morta

Pra pegar bicho no bote.

Urubu, macaco velho,

Não cai em tocaia, espera

Que antes arranquem o couro,

Pra depois fazer a festa

Na cacunda da comadre.

Enquanto nada acontece,

Observa de um paredão.

Às vezes, voa em circulo

Ou plana na imensidão,

Horas a fio. Desafio

É só voltar para o chão,

Se o pasto estiver no ponto.

O céu é meu limite;

Azul, o meu horizonte.

Com as asas sou um ás,

É asno quem me difama

Pelo serviço que presto.

Não sou causador de peste,

Na cidade ou no agreste.

Não contamino, não mato

O meu alegre festim

Principia pelo fim.

Vísceras, olhos e língua,

Nada mais me dá orgulho,

Que tudo aquilo que engulo

Nos outros só causa engulho.

Eu vivo disso, não nego.

Morto em mim morre de novo,

Sou um sarcófago alado,

Transporto para o outro lado

Da correnteza do Estige

O corpo e a alma dos bichos.

Não sou Caronte, compadre,

Não me vendo por moeda.

Não me agrada comer naco

De presunto desovado,

Que minhas tripas necrófilas

Não lhe sirvam de mortalha.


Deste lixão que restou

Do mundo desencantado,

Há de nascer uma rosa,

Rubras pétalas de plástico,

Bem ao lado de um punhal

Usado para cortar

O cordão umbilical

De um feto eletrocutado.

Só mesmo um xamã de penas,

Que viaja nas alturas,

Pra trazer alguma cura,

Pra além do bem e do mal,

Desse horrendo carnaval

Natimorto e morto-vivo,

Horda de zumbis, vampiros

E de mulas-sem-cabeça,

Em um bailado infernal.

Adeus! Não vou descer muito

Mais baixo do que já fui.

Me enojei de tanto pus,

Tanto horror e iniquidade,

Tanto veneno e agrotóxico,

Não quero morrer de tosse,

Só quero viver de brisa,

Vou respirar um ar puro

Junto aos anéis de Saturno

Ou no jardim das delícias.

Pois o céu que cobre a terra

Repleto está de fuligem.

Mundo em decomposição,

Adeus! Adeus pra quem fica,

Contando as horas e os dias.

Um dia esse mundo acaba

Na maior urucubaca,

Quando o último urubu

Tatalar as suas asas,

Sem olfato e paladar,

E, nesse lixão soturno,

Nunca mais tirar um turno

E sem fazer escarcéu,

Subir direto pra o céu.

Apesar de tanta fome,

Naco que seja de homem,

Nunca mais urubu come.

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