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Carlos Drummond de Andrade e César Vallejo: corpo, erotismo e modernidade

Vivaldo Andrade dos Santos


É mais do que conhecido o verso “Êta vida besta, meu Deus”, do poema “Cidadezinha qualquer”, do livro Alguma poesia (1930) de Carlos Drummond de Andrade. “Cidadezinha qualquer” é um poema representativo da poética da “vida besta”, da ridicularização do universo interiorano, sobretudo em função da monotonia e repetição cotidiana percebida pelo poeta itabirano, e como a crítica drummondiana por quase cem anos o tem interpretado. No entanto, nesse neste ensaio é interessante fazer uma reflexão sobre este mesmo verso, mas não limitando o alcance da “vida besta” ao contexto do interior mineiro, porém, mais que isso, ampliá-lo a uma dimensão muito mais filosófica que a poesia de Drummonnd sempre nos proporcionou. Ou seja, pensar o significado dessa constatação como parte de uma angústia existencial maior do sujeito drummondiano. Não somente isso, mas tratar de pensar Drummond como parte de uma geração de poetas cuja lírica procurou uma resposta ao vazio deixado pela modernidade, e para quem nada mais restou a não ser “o pequenino e quebradiço corpo”, como afirmou Walter Benjamin:


uma geração que ainda usara o bonde puxado por cavalo para ir à escola, encontrou-se sob o céu aberto em uma paisagem em que nada continuava como fora antes, além das nuvens e debaixo delas, num campo magnético de correntes devastadoras e explosões, o pequenino e quebradiço corpo humano. (p. 64)


Do comentário de Benjamin, interessa-nos pensar duas coisas. primeiro, a modernidade e o corpo, sobretudo o desejo sexual como resposta ao vazio espiritual; e segundo, a questão da “geração”. No caso de Benjamin, a Europa, no nosso caso, o Brasil, e de certa forma, a América Latina. Para isso, faremos aqui uma aproximação entre a poesia de Drummond à do poeta peruano César Vallejo (1892-1938). Vale dizer que tanto o Vallejo como o Drummond que neste artigo nos propomos a examinar não são aqueles poetas do ímpeto vanguardista observados em Trilce (publicado em 1922) e Alguma poesia (publicado em 1930), onde a poesia é reconhecida por inaugurarem uma lírica caracterizadas pela ruptura com a forma, pela renovação linguística, pela despersonalização, pelos ideais de racionalidade, objetividade, e hermetismo, por exemplo, do que fala Hugo Friedrich, no seu clássico Estrutura da lírica moderna. Também não são os poetas da lírica engajada que caracteriza a poesia dos dois como a trajetória intelectual confirma. Vallejo (2015) e sua relação com a Guerra Civil Espanhola, evidenciada em livros tais como Poemas humanos (1939) ou España, aparta de mí este cáliz (1937) e Sentimento do mundo (1940) e A Rosa do povo (1945) de Drummond e sua relação com a Segunda Guerra Mundial. A aproximação da poesia de Drummond à de Vallejo que será examinada aqui é a partir do niilismo que na filosofia veio a denominar-se “morte de Deus” ou a perda do ideal de transcendência, diante do processo de racionalização que passou a a sociedade moderna, especialmente na Europa a partir do século XVII e intensificado a partir do século XIX por meio do banimento dos valores transcendentais e supremos da vida pública, no que Weber chamou de “Desencantamento do Mundo”). Neste sentido, vale recordar os versos de “Poema de Sete Face”, em que Drummond indaga: “Meu Deus, por que me abandonaste? // Se sabias que eu não era Deus // Se sabias que eu era fraco” (Alguma poesia, 1930). Do mesmo modo, Vallejo dirá: “Dios mío, si tú hubieras sido hombre, // hoy supieras ser Dios”, no poema “Los datos eternos” (Los heraldos negros, 1918). Mais especificamente, quanto a partir da questão do desejo, do erotismo, como respostas à impossibilidade de transcendência ao divino, e daí, então, a valorização do corpo físico.


No caso de Drummond, escolhemos o poema “Em Face dos Últimos Acontecimentos”, de Brejo das almas (1934), que abre com a seguinte estrofe: “Oh! sejamos pornográficos // (docemente pornográficos). // Por que seremos mais castos // que o nosso avô português?”. Em Brejo das almas observa-se nos poemas como o corpo, como desejo físico, ganha relevância numa espécie de “brejeirização da alma.” Isto porque, uma vez que o sujeito lírico tem consciência da impossibilidade de transcender ao divino, isto é, a preocupação com a alma, cede lugar à supervalorização do elemento humano, especialmente do desejo físico e erótico. O corpo individual passa a ocupar um lugar de suprema importância como forma da constituição da subjetividade lírica. Pode-se dizer, de uma potencialização do indivíduo, por meio do erotismo, como sugerem os versos seguintes:


Teus amigos estão sorrindo de tua última resolução. Pensavam que o suicídio fosse a última resolução. Não compreendem, coitados, que o melhor é ser pornográfico. Propõe isso ao teu vizinho, ao condutor do teu bonde, a todas as criaturas que são inúteis e existem, propõe ao homem de óculos e à mulher da trouxa de roupa. Dize a todos: Meus irmãos, não quereis ser pornográficos?


Drummond contrapõe ao discurso da modernidade, no sentido de controle do desejo, uma proposta de liberação do sujeito desejante como potencial. Os versos acima nos remetem à proposta de enlevo, de êxtase, de excesso, de embriaguez do homem dionisíaco, proposto por Nietzsche, em oposição ao formalismo, à racionalidade que a cultura apolínea representa. Dessa maneira, uma vez constatada a impossibilidade de transcendência, o tempo futuro deixa de existir (incluindo o tempo “pós-morte”), restando apenas o tempo presente. A existência passa a ter como razão de ser, uma poética do desejo, construída sobre a exaltação acentuada do presente do corpo físico que corresponde ao que sugere Eliane Robert Moraes sobre a consciência temporal em Breton:


de um tempo concebido a partir do corpo, tendo no nascimento e na morte seus limites absolutos de começo e fim. Estamos distantes, pois, de qualquer afirmação categórica da experiência singular que cada sujeito concreto testemunha na duração de sua vida. Nenhuma ilusão de universalidade tampouco: na matéria sensível de cada homem, o tempo inscreve inequívocas metamorfoses. (p. 50)


A valorização desse presente do corpo, por meio da transgressão (“não quereis ser pornográfico?”) é uma resposta alternativa ao suicídio que, em si, é também uma escolha pessoal frente à ordem natural da vida no sentido existencial: nascer, viver, morrer. Neste sentido, lembremos Bataille que cita Sade quando ele diz: “Não há melhor meio para se familiarizar com a morte do que associá-la a uma idéia libertina.” Podemos dizer que a presença do elemento erótico e do desejo em Brejo das almas são modos de possíveis de superar o vazio gerado pela modernidade, evidenciado nos versos de “Convite triste”, onde o poeta, uma vez reconhedida a precariedade humana, nos convida: “Meu amigo, vamos xingar // o corpo e tudo que é dele // e que nunca será alma.” Drummond propõe o corpo desejoso como parte constitutiva da subjetividade e não como uma ameaça a ela, na perspectiva apontada por Anthony Cascardi. O poeta estaria, por assim dizer, contrapondo ao discurso da modernidade de controle do desejo uma proposta de liberação do sujeito desejante como potencial, fazendo ecoar uma vez mais a poética nietzcheana que vimos assinalando.


O tema da angústia existencial é também um dos grandes temas da poesia moderna latino-americana. Apesar da separação linguística que impede muitas vezes uma aproximação da poesia do continente, Drummond está muito próximo, não somente em termos generacionais e com respeito à questão da modernidade, a poetas como Vallejo, mas também a Vicente Huidobro (Chile, 1893-1948) e Pablo Neruda (Chile, 1904-1973), cuja comparação é a mais estudada, considerando a participação dos dois escritores no Partido Comunista na década de 40. Não obstante, interessa-nos a questão da existência e do erotismo visível em Trilce (1922) de Vallejo, cuja coletânea é reconhecida muitas vezes por sua lírica vanguardista, de experimentação linguística, e mesmo hermética. Tomemos o poema XIII que abre com os seguintes versos:


Pienso en tu sexo.

Simplificado el corazón, pienso en tu sexo,

ante el hijar maduro del día.

Palpo el botón de dicha, está en sazón.

Y muere un sentimiento antiguo

degenerado en seso.

Pienso en tu sexo, surco más prolífico

y armonioso que el vientre de la Sombra,

aunque la Muerte concibe y pare

de Dios mismo.

Oh Conciencia,

pienso, sí, en el bruto libre

que goza donde quiere, donde puede.

Oh, escándalo de miel de los crepúsculos.

Oh estruendo mudo.

Odumodneurtse!


Se em Drummond o erotismo nos é apresentado por meio da sugestão transgressora e até certo ponto jocosa (“não quereis ser pornográficos?"), característica de muitos dos seus poemas de Alguma poesia e Brejo das almas, Vallejo é direto. Isto é, o sujeito lírico define o seu objeto de desejo e nos convida por meio da linguagem poética a quase experimentar o desejo que o move (“Palpo el botón de dicha, está en sazón” [Toco o botão da felicidade, está no ponto]”). Ao abraçar o desejo físico, “morre o sentimento antigo” ou a consciência, e o sujeito lírico se vê livre para celebrar o carnal. O corpo físico (sexo) ganha relevância e equipara-se à terra feita para o plantio da semente, do sêmen (“sulco mais prolífico / e harmonioso”) e não a terra como túmulo e morte, extensão de Deus. Lembrando Bataille que diz “mais violento para nós é a morte que, precisamente, nos arranca da obstinação que temos de ver durar o ser descontínuo que nós somos”. (13) Os versos finais sugerem um sujeito lírico “bruto e livre”, agora sem Deus, que se deleita onde quer e onde pode [“que goza donde quiere, donde puede”]. Para o sujeito lírico, a experiência do êxtase é a combinação da experiência do sentidos, do tato, do visual, do auditivo (“escândalo de mel dos crepúsculos”) e coincide com com a explosão final do mundo (“estrondo mudo”), impossível de se representar, a não ser por um neologismo (“Odumodneurtse”) que sugere a combinação de mundo e morte.


Como conclusão, vale dizer que os versos finais do poema de Vallejo nos remetem aos versos de Drummond onde a poesia se eleva a uma poética da celebração do corpo, tais como “Um homem e seu carnaval” (Brejo das almas) ou “Amor, pois que é palavra essencial” (O amor natural) em que o sujeito lírico se dissolve no outro, como resposta humana à impossibilidade de transcendência que vimos enfatizando. Isso, porque, lembrando Drummond: “Claro que o corpo não é feito só para sofrer, / Mas para sofrer e gozar.” (Farewell).



REFERÊNCIAS:


ANDRADE, Carlos Drummond de (2002). Poesia Completa. Rio de Janeiro, Editora Nova

Aguilar.

BATAILLE, G. (2004). O Erotismo. Trad. Cláudia Fares. São Paulo: Arx.

BENJAMIN, W (1975). “O Narrador”, em Os Pensadores, vol. XLVIII. São Paulo: Abril

Cultural.

BLIN, G. (1939). Baudelaire. Paris, Gallimard, 1939.

CASCARDI, A. J. (1992). The Subject of Modernity. Cambridge, Cambridge University Press, 1992.

FRIEDRICH, H (1991). Estrutura da Lírica Moderna. Trad. Marise M. Curioni. São Paulo, Duas Cidades

HABERMAS, J (1998). O Discurso Filosófico da Modernidade. Trad. Ana Maria Bernardo... et al. Lisboa, Publicacoes Dom Quixote.

MORAES, E. R. (2002). O Corpo Impossível. São Paulo, Iluminuras.

NIETZSCHE, F (1992). O Nascimento da Tragédia. Trad. J. Guinsburg. São Paulo, Companhia

das Letras.

SANTOS, V A (2007). O trem do corpo: estudo da poesia de Carlos Drummond, São Paulo:

Nankim Editorial.

WEBER, M. (2002). “A Ciência como Vocação”. Ciência e Política: Duas Vocações. Trad. Leônidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo, Cultrix.

VALLEJO, C. (2015). César Vallejo: Obra completa. Venezuela: Biblioteca Ayacucho.


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