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Cinco poemas de France Gripp




Borbulhas de peixe

Uma pessoa que escreve poemas

pode se parecer com um pequeno peixe, bem miúdo

peixinho transitando no oceano

Não se dá conta, a princípio

do que é o mar das mil e uma línguas agitadas


Sobe e desce, entre espirais e calmarias

nadadeiras em esforço

por turbulências, turvação

onde persegue

vislumbres cintilantes da poesia

isca e arpão


A princípio, uma pessoa que escreve poemas

e pode se parecer com um pequeno peixe

segue instintos, segue um bando, sem por quês

Com sorte, descobre-se cardume,

a mergulhar entusiasmo e aflição

no oceano dos símbolos, atravessados todos

pelos ímpetos e ganas de lirismo e fantasia


Uma pessoa que escreve poemas pode se parecer

com um peixinho à deriva

chacoalhando-se entre

blocos gigantescos de discursos:

os milenares

os últimos do dia

os perdidos do porto de destino

os que boiam estufados de nada

e os que se afundam como pedras

às vezes brutas, às vezes raras

despejadas


Alimenta-se o pequeno peixe pessoa que escreve

nas espumas das correntes e famílias literárias, faminto

sacudido entre os sais da língua viva e os sedimentos do passado

Até um dia se intoxicar

expelir versos, modos e fraseados indigestos

refutar certas instâncias opinativas que não lhe caem bem

rejeitar léxicos insustentáveis

e tratar de se safar

de goelas enormes que o ameaçam

nas ondas da literatura


Em geral, é quando, estabelecido no pós-tudo

aprende que poemas podem ser apenas borbulhas

de pequenos peixes vivos.




Uma fita para Moebius

E depois, será o pó. E o silêncio. E nada.

Antes, serão despojos, fragmentos, escórias.


Antes, um objeto e outro, um gesto desmedido, as escritas palavras.

As recordações felizes, as detestáveis.


Depois, alguns talvez, irão se haver com teus fantasmas.

O legado de teus bens, ou de teus males.


Em breve, um solene esquecimento proverá

rasuras ao espectro de cores, surdina aos ecos de tua fala.


Mas, o existir é ainda. E é quase nada. Quase silêncio, e quase pó.

Toda ilusão, toda verdade, permanentes partículas provisórias.


Insufla os seres, o sopro inexplicável.

Efeito e causa de um plano sem rascunho, sem destinação exata.


É tempo de viver. Vives agora.

Grão intumescido, à espiral de movimentos, sempre atirado.


E todo o natural em ti sussurra. Vibra e palpita. E se transforma.

Vigor, beleza, esperança: eternos atributos desta hora.




Tarde para a recriação

Desde o dia que olhei para você

pela primeira vez

eu vi a mim

num espelho distorcido

numa distância invertida


o abandono, o desabono, o despreparo

vestido em trapos enrodilhando o corpo, as pernas curtas

o choro acoitado na garganta

o medo e a meiguice nos olhos, 6 anos? 7 anos?


Eu princesa, eu ilustrada, eu a proferir palestra.

No andar de cima tem duas salas, quarto, banheiro, terraço

eu rebelde dissimulada

sabendo de pronto o amansamento

as verdades a que seria você

submergida


Eu e meus cabelos lisos

eu e minha anágua de renda cor de rosa

eu e seus cabelos crespos


vestido em trapos enrodilhando o corpo, as pernas curtas

o choro acoitado na garganta

o medo e a meiguice nos olhos, 6 anos? 7 anos?


Eu e eu e eu e eu e

você, que era quase nada

perdendo-se nos corredores da casa

esvoaçando-se entre as cortinas de voal

espantando-se

encantando-se

evadindo-se

aterrizando

pouco a pouco


E passou a beber e a comer na mão

outra mãe, outro pai, irmãos brancos

que a seus pequenos braços

davam trabalho


trabalho de menino é pouco

quem não o aproveita é louco

já sabia a não sabedoria portuguesa


Cresceu assim

instruída até em regras

que naquela casa ninguém seguia.


Paciência sem sossego

humildade sem tréguas.


Cresceu assim

Expelida da escola

a língua inóspita arranhava no ouvido

o olhar mesquinho doía na pele preta

os donos do saber nada sabiam.


A desterrada do berço

vinda do chão de poeira

brotada no espinheiro da miséria

dada a estranhos


Doação lavrada na beira da cerca da casa vizinha

pode levar a menina, dona

disse o homem dono pai.


Entrou no carro e partiu

para a vida inteira

a roupa do corpo

para fora de si, para fora do outro

irmã de criação


Cresceu assim

a minha bolsa, o meu sapato, pega pra mim


tornou-se esteio

pegue a menina, ela só quer a você


aprendizagem sem fim do mundo do outro

que dia você vai aprender a fazer isso, hein?


inaugurou talentos

ele está mal

só você..., vai falar com ele


Cresceu assim

irmã de criação

Eu mimada, você, um dia

corpo criança aviltado na escura da noite

calada


A canalhice do macho branco

a canalhice do macho

a canalhice


Tarde para eu saber

tarde para te consolar


Fingiu que resistia

fingiu que superava

fingiu que revidava

fingiu que inexistia


Fingiu tanto, fingiu tanto, tanto

que era feliz o tempo todo

que tonta, tonta de chorar

tonta

que acreditou muito sinceramente que era verdade

tudo que certas gentes lhe disseram

e que você repetia

com uma vida que deveria ser só sua.


O pai e a mãe perdidos no tempo,

não perdoou

amordaçou a dor entre os dentes e foi sufocando até o fundo


a fala macia e manhosa

a boca pintada

o cabelo esticado

o álcool e os embustes da medicina

no copo

largou pra lá os irmãos de cor


Um dia, desejou se casar com um branco de cabelo amarelo

e olho verde feito vidro

onde viu refletir

o mundo poderoso e a hipnose daquela casa grande

que a tomou como sua

sem que você pudesse contestar

sem que você, ao fim, quisesse contestar


Em espelho bipartido, quis o destino, ou a genética assinalar

filha branca, filho preto, que o mundo tratou

de modo desigual.


Agora, quando o pai branco e a mãe branca estão mortos

quando não há quartos e terraço e varandas e cortinas e festas

e crianças a embalar

quando o corriqueiro dos dias não há


Comigo, você chora

vigiada pelas lembranças do que sofreu e do que amou

o passado fundido ao presente

ainda hoje dividida, o medo e a meiguice nos olhos

entre o que foi e o que poderia ter sido a sua história

é tarde para a recriação.




O resgate

I


O meu formoso aporta em sonhos.

Ficamos, dois íntimos estranhos

atravessando a noite linda

até que o dia se rompa.


Suspeito que ele venha pela brisa

soprada por um arcanjo trompetista

fã de grandes harmonias,

apreciador de seus modos de artista.


Ah, o quarto recende a jasmineiro

quando o formoso chega, assobiando

munido de viola e flauta, sorrateiro

a cantarolar feliz a minha sorte.


Sonhar, sonhar, sonhar.

Tudo cambia e se permeia em instantes.

Que coisa é, apanhar a minha mão na sua

volver tão plena, aos dezessete anos.


O peito arfa, ao ritmo de liras.

O sexo crepita, ao signo de brasas.

Formoso meu proseia em línguas

dedilha-me acordes, parolagens.


Eu lhe devolvo espasmos e vertigens

Na madrugada eterna, ah, eu creio

nada é mais belo que miragem

olhos para sempre encantados.


II


Sonhar, sonhar, sonhar

Súbito, estamos em uma mesa de bar

em uma calçada qualquer

fria e espantosa, a noite de luar.


O vento fustiga furioso os frutos verdes da parreira

que se rompem inúteis, a seus pés.

Esmagadas estão, ainda, as violetas roxas,

as rosas brancas, destroçadas.


Uma mulher canta em grande agonia

lamento duro e cristalino, é muito tarde

há algo precioso que se perde ao longe, na areia

é urgente, precisamos, juntos, resgatar.




Instrução para letrado analfabeto em sedução de escritoras

Se a escritora for cientista, diga:

a tese é de grande fôlego

e rigor conceitual admirável


Convide-a para um vinho

em excelente restaurante da cidade

hipóteses indicam:

ela não pagará a sua conta

ainda lhe cobrará juros

e referências bibliográficas

após o estudo da Arte de Mercado

de seu papo furado.


Se a escritora for jornalista, diga:

a matéria é digna de méritos

excelente articulista, e perfeita

contextualização dos fatos.


Convide-a para um chope

em agitado bar da moda

fontes fidedignas informam:

não haverá divisão da nota

depois da entrevista freelance

seus mal apurados fatos

seguramente você, não mais

será notícia para ela.


Se a escritora for de prosa ou verso, diga:

emocionante! vibra no poema

talento original, ou então,

que é romance muito importante

profundo e sem igual!


Convide-a para um café

na lanchonete da padaria ao lado

que você acha o balcão, espaço

suficiente para o gasto

com o desprestigiado ofício.

Daí, espere sentado, pois

está escrito no prefácio:

ela não lhe fará as vontades

não haverá custeio do pastel

Pois a ladainha não cola,

o seu enredo tem clichês,

melodramas enjoados e um personagem

para lá de caricato.


E se ainda assim

você quiser jogar, creia-me

desembaralhe a ordem

das viciadas cartas

desembrulhe-se, crie coragem

para instigante viagem.


Esfume os mandamentos

desta inútil linguagem flácida

E para todo o sempre

simplesmente, pare de mentir.

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