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Cinco poemas de Rita Santana




Sonata ao Vento / Rita Santana

Desaprendi a fazer versos.

Por isso, pelejo imersa em organdis, signos,

códigos, cogitações, cosmogonias e ossos.

Ouço o gemido das abelhas mortas

nas lavouras do agronegócio.

Sigo cega os sinais dos astros,

regozijo em ócios, cios, sussurros

e no sopro primevo do Vento,

Trovador de tempestades,

cavalheiro de inconstâncias.


Escrevo no enlevo dos seus ares,

na vertigem cega do roçar dos nossos pômulos,

na mordida da carne, na maçã rompida,

atravessada por fatuidades e mitologias.

São de papoulas nossos beijos rubros,

nossa carne viva. Somos o mito, o rito,

o princípio das eras.

Não há vertigem cega na entrega,

doo-me às sensações, aos arrepios.

Mulher de álamos, engravido de desejos,

de orgasmos aéreos e múltiplos.

Calo-me apenas para conspirações e

Desfecho sobre o mundo raios e iras.

Estou na eclosão das romãs, no fletir dos freixos,

e na implosão diária das luas.

Ele é arauto e acontecimento.

Eu sou a convulsão das correntes telúricas e líricas.

De suspiros e viagens são meus dias de Deusa.

Sou uma Divindade de ventanias,

Mulher de desventuras e seduções,

visto-me com a rubidez dos protestos,

pois trago comigo o segredo dos búfalos,

tantos são meus amores e tão diversos.


Cavalgo sobre cordilheiras, estuários e rios.

Cavalgo e vejo o cadáver do Rio Doce,

O cadáver do rio Paraopeba.

Navegamos sobre as águas,

flutuamos sobre os dias,

penetramos as ruínas e as dores

das crianças apátridas.

Somos redemoinho diante

Do fascismo que encobre o solo do Brasil.


Estudo geomancia pela proximidade

com o mistério. Etéreo e lunar é o Vento.

Etéreo e lunar é o verbo.

Assim, escrevo com espadas,

Manejo o domínio do fogo,

uso de escudos e feitiçarias.


Sou Poeta negra da latino-américa.

Desnudo-me sem face, sem olhos

Rumo às erupções libertárias.

Juntos, Vento e Ventania, derrubamos

muros de qualquer fronteira!




Concerto da Primavera

Cogumelos nascem em Beirute:

vidraças e construções explodem,

em segundos, sem que eu as possa

conter em containers. Há contágios,

contas e horror em toda roça, rocio,

roçar de ossos em meus porões.


Avio odes, pastos e ódios em minha

demência cega de ilhoa atordoada.

Adunam demônios em danos e ganhos

pelo capital, que atropela cadáveres,

em suas cuecas abarrotadas de cédulas.


Incrédula, duelo com os ventos,

Duelo com pontes e busco crustáceos

Que brotam em tudo que avento amar.

O mundo arde, inflama! Lâminas

corroem a minha língua ígnea de lagunas:

Silencio, em papoulas vermelhas

De Glück, centelhas de cansaço.




Porvir

Ouçam-me! Confabulo com Eras!

Esmago receios em meus seios

ubérrimos, que decairão sobre as folhas.

Ignoro as tapeçarias do medo

E amolo unhas, amolo sabres.


Quisera endoidecer por dias

apenas para descansar sobre a Terra.


Abraço o futuro como quem morre.

Abre-se o amanhã:

abraço lírios de Anita,

abraço lírios de Rivera.

O porvir nunca me escaparia,

outrora, eu supunha.




Quimeras e Maldições

Em meu âmago, nascem quimeras.

Hordas me convidam a desertos.

Molho-me em teu desamor

Para aprender das geleiras,

para sorver abandonos,

decifrar maldade de espécie bizarra.

Para me precaver de Sísifo

E das pedras que me convidam a sacrifícios.

Luto contra o império dos teus olhos

de sofreguidão e marismas,

charco onde afundo princípios e chamas.


Busco ostras em teu peito navegável,

como busco, em preces, sinais e cinzas.

Claustros nos traços rupestres dos teus ombros,

onde talho a vertigem de cada dia,

até que te percas de mim para a desventura

do inolvidável. Que farei dos diamantes?!

Que farei dos topázios e das abluções matinais,

se ainda fingem indiferença sobre a minha agonia?


É de amor meu fingimento,

É de amor o cárcere do que não há.

É de amor a masmorra em que morro

Desde que o Intruso surgiu em meus sonhos.

Abra-se o terreno em turfas,

a fim de que sucumbas a cada passo,

a fim de que não me esqueças,

a fim de que de que desfaleças ao longo

da feitura do poema.

E nunca ressuscitarás do pântano.

O movediço escorre e afunda tuas vontades.




Vertigens

Deságuo vertigens nas margens,

esmago rancores e pago pedágios

para cruzar buracos na pista.

Ajo com cautela, diante da selvageria humana.

Em meu âmago, há esfinges indecifráveis.

Há magos, amarguras e sonatas

Girando em torno de minhas emoções.

Assaltam-me nostalgias.


Pago pedágios para amar

fidalgos corroídos por erosão,

abarrotados de impotência

e insanidade. Abandono-os

ao acostamento das estradas.

Fingem-se feridos e o sono

atinge-me em cheio para olvidar

o carvalho, o ébano e os rochedos

que tentam ordenar minha loucura.


Crateras abrem-se

na existência íntima dos meus versos

e na minha carne

ardem liras, iras lilases,

luzes e lances de elucidações.

Sapho abre os caminhos!

Tudo em mim delira e é sonata!

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