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Conversa com a modernidade: Drummond com Alvim, o tempo e uma exasperação frágil

Atualizado: 28 de dez. de 2022

Laíse Ribas Bastos

Drummond por Yara Tupynambá



Conversa com a modernidade: Drummond com Alvim, o tempo e uma exasperação frágil



Inerente à poesia, existe uma obrigação de fazer de uma insatisfação uma coisa fixa. A poesia, num primeiro movimento, destrói os objetos que apreende, devolve-os, através de uma destruição, à inapreensível fluidez da existência do poeta, e é a esse preço que ela espera reencontrar a identidade entre o mundo e o homem.

Georges Bataille


Eu te telefono, Carlos,

Pedindo conselho.

João Cabral de Melo Neto



Em uma entrevista concedida a uma emissora de televisão, em 1981, Carlos Drummond de Andrade é per­guntado se ele poderia ser considerado um otimista. A resposta veio à maneira de sua poesia: “sou inteiramente otimista sem deixar de ser pessimista com relação à vida. Uma vida que passa no meio de bombas nucleares e outras bombas menores eu acho que não é realmente uma coisa muito alegre, mas a gente faz o possível para viver bem”. De fato, na entrevista, Drummond desmistifica a possibilidade de transcendência da poesia, lembrando o quanto ela também se faz a partir da matéria negativa presente no mundo. Sua escrita se sustentaria, portanto, onde a humanidade, ou ao menos uma parte dela, falha e fracassa.


Pessimismo e fracasso característicos da flor antipoética de Drummond – quase contemporânea, lembremos, da flor cabralina de “Antiode”. A “forma insegura e feia” sustenta-se em algum espaço aberto pela escrita, alguma liberdade possível quando o poema termina: “Façam completo silêncio, paralisem os negócios,/ garanto que uma flor nasceu.” (2012: 311). Consciência de escrita que incorpora, recorrentemente, a falha, a falta e a sutileza do fracasso como potências, como um modo de intervir intensamente no mundo: “apenas um arabesco/ em torno do elemento essencial – inatingí­vel”, depara-se o leitor nos primeiros versos do poema “Fragilidade”, não por acaso, poema de A rosa do povo, livro em que a inconstância da poesia, sua força de destruição, libertação e arejamento, estão exaustivamente expostos.


Ainda na mencionada entrevista, Drummond salienta que as pessoas podem ser poetas e se esforçam para isso, e são, também, passíveis de erro: “não há medida para o poeta”, diz Drummond. E se poeta não se mede, a poesia, resultado de seu fazer e labor, também não há medida para aquilo que diz e como diz. Trinta anos depois, a frase de Drummond ressoaria no poema “A poesia”, de Francisco Alvim, publicado em 2011, em O metro nenhum: livro que já no título opera uma dupla defesa (de Drummond e do gesto gratuito própria escrita) – a de que não há poeta maior, esse título simbolicamente legitimador, muitas vezes procurado e desejado de alguma maneira: “[...] Quando por unanimidade ou quase/nesse jogo tolo/de se querer medir tudo/Drummond foi o escolhido/ele comentou/alguém já mediu com fita métrica/para saber se de fato sou/o maior poeta?” (2011: 53)


Desde o final da década de 1960, a escrita de Francisco Alvim orienta-se por uma permanente conversa com a poesia Drummond. Mais do que interferências, trata-se de um estudo do mundo a partir de Carlos Drummond de Andrade, percebido como uma “ausência as­similada”, como está no conhecido poema de Drummond, “Ausência”. E se ela é “um estar em si”, é sob esse aspecto que se manifesta o olhar partilhado por ambos. Esse modo drummondi­ano de ver o mundo pode ser verificado em todo o projeto poético de Alvim, naquilo que diz respeito ao tempo, e se confi­gura especialmente como uma forma de interpor-se, intervir e tocar no tempo presente. Tanto em Alvim, como em Drummond, este olhar para a vida diária e um mundo prosaico em certa medida desvenda e desdobra um mundo possível. Assim chegamos a versos como “As casas espiam os homens/ que cor­rem atrás de mulheres” logo no início do antológico “Poema de sete faces” (2012: 53); ou, num contexto menos citadino, “Devagar... as janelas olham”, em “Cidadezinha qualquer” (2012: 109). Versos e movimentos que Alvim parece suplementar em poemas como “Com ansiedade”: “Os dias passam ao lado/o sol passa ao lado/de quem desceu as escadas//Nas varandas tremula/o azul de um céu redondo, distante//Quem tem janelas/que fique a espiar o mundo” (2004:141).


O poema de Alvim projeta um olhar através de um ângulo interno, vindo de dentro, contraposto à imensidão do céu azul, distante e que está no lado de fora. Por conta desse distanciamento, é possível captar apenas um contorno do céu, que é o da imagem trê­mula na varanda, como indicam os versos 4 e 5. O fato é que, entre a personificação de janelas e casas nos versos de Drummond, e a metáfora de espiar o mundo (no poema, objeto distante como se fora de alcance) em Alvim, imbricam-se espaço e tempo. Isso porque o registro da expe­riência humana (onde e como quer que ela ocorra) e do que ela provoca é também um ato de olhar para o seu próprio tempo em perspectiva, mesmo que seja para registrar a suposta desim­portância de sua lenta passagem através das imagens do campo (“Eta vida besta meu Deus” – atesta o olhar lançado pelas janelas de Drummond mais uma vez em “Cidadezinha qualquer”). Em Alvim essa relação entre o espaço e o tempo confi­gura-se também como uma estratégia de evasão do sujeito, se ainda lembrarmos que o ato de espiar, em uma das acepções de observar, pressupõe, sempre, um olhar às escondidas, de alguém que, embora pre­sente, pode não querer aparecer. Essa relação também está no poema “Puta”, com um sujeito derrubado, “sento na grama/choro/espio o tempo”. Publicado originalmente em Lago, montanha, em 1981, o poema se estrutura em torno da dificuldade de uma pros­tituta, e apresenta uma gradação diante da impossibilidade da fala: “sento”, “choro”, “espio”. No entanto, o último verso causa algum desconforto na metáfora de “espiar o tempo”. “Espiar o tempo”, contudo, irá consistir em tarefa duplamente árdua para o sujeito. Espiar o tempo pode sugerir a possibilidade de não querer ver e perceber o tempo passar; ou na inversão drummondiana entre sujeito e objeto (“as casas espiam os homens”) pode indicar a imobilidade do sujeito. Nas duas situações, o movimento é de um sujeito que se furta a encarar algo de frente. A instância reflexiva aqui parece vir justamente desse movimento esquivo. Em outro sentido, expiar o tempo, com o uso da palavra homônima e homófona do verbo que está no poema, expõe consequências possíveis de serem sofridas pela própria ação do tempo, na vida: quando tudo passa ao lado, sem expressão da fala e afeto formaliza-se, portanto, uma forma de expiar o tempo, a vida.

Há, contudo, um cansaço notadamente manifestado em todo esse movimento armado entre os versos de Alvim e Drummond, que podemos ver, por exemplo, em uma seção do primeiro livro de Alvim, Sol dos cegos, publicado em 1968, sobretudo no poema “A roupa do rei” (2004:322). O extenso poema pode ser lido em seu conjunto de imagens como uma “super-metáfora” para um sujeito que, desfeito, ao fim do dia, retorna para casa. Os sinais de desgaste e cansaço já aparecem nos versos iniciais como resultados do movimento de apreensão do tempo: “Agora os corredores nos deságuam/neste grande estuário/em que os sapatos esperam/para humildemente conduzir-nos a nossas casas” (2004: 322). O advérbio indica toda uma submissão e fragilidade desse sujeito devidamente personalizado na imagem baixa e rés-do-chão dos sapatos humildemente conduzidos. Mas o retorno não é leve e nem traz alívio, apontarão as estrofes seguintes. O corpo, despido e metonimicamente desfeito em dentes e sapatos, oscila, parado em silêncio. O que teria roído a roupa do rei? E com ela toda a vontade e desejo que faltam no poema e transfor­mam a penúltima estrofe em uma cena tão precária (“um ser nu a vida pouca/Só dentes e sapatos/de volta para casa”)? Como na fábula infantil, que leva o mesmo título do poema, “o rei está nu” e exposto e vulnerável, pois toda a majestade está sujeita a ser enganada, ludibriada ou humilhada em alguma medida. Não há orgulho, vaidade, poder, pompa ou circuns­tância que não possam ser desfeitos, em algum momento, exatamente quando o sujeito, reduzido a sua nudez, volta para casa.

Vê-se, então, todo um procedimento de corrosão da escrita e do tempo que é, por sua vez, o procedimento drummondiano: “a fuga da fuga, o exílio/sem água e palavra, a perda/voluntária de amor e memória [...] vida a que aspiramos como paz no cansaço (não a morte)” são versos de “Vida menor”, mais um poema de A rosa do povo (2012: 360). É esse gesto que permite ao poeta apontar para o seu tempo e nele identificar toda forma de desgaste, de desfazimento e can­saço que chegam, muitas vezes, a uma desesperança não reali­zada por completo. Aquele tom nomeado “pessimista” por Drummond, na entrevista de 1981, ao mesmo tempo que aponta para o movimento esquivo e pulverizador da escrita define sua realização.

Nos últimos versos do poema de Alvim, “A roupa do rei”, há uma queda completa e sem retorno – “des­cansemos”, diz, enfim, o verso final. A queda semântica e sintática do verso (reduzido a uma palavra) ini­cia exatamente quando o pronome “nós” retorna ao poema e é incluído no oximoro do convite: “em silêncio converse­mos” (2004: 322).


O fazer “ao modo de” Drummond, que tampouco apresenta referência direta aos olhos do leitor no procedimento incorporado à escrita, faz emergir um tom familiar identificado também na seção do livro intitu­lada “Drummondiana”[1]. E, talvez assim, possamos então conectar aquela “conversa silen­ciosa” com um “fechar de olhos para ver bem”, que, no doloroso “Outubro 1930” (2012: 139), de Alguma poesia, é sugerido como estratégia para ver o amor tornado impossível diante da guerra. Não há dúvidas de que ambos os sujeitos estão diante do paradoxo do instante.


Conforme esse arquivo de poemas e versos se arma entre o poeta moderno e o outro por essa tradição orientado, gradativamente percebemos que a ambivalência da escrita é a própria ambivalência diante do tempo presente. Em uma entrevista concedida a Lya Cavalcanti, em 1954, na rádio do Ministério da Educação e Cultura, Drummond comenta sobre certo anacronismo que define a natureza literária. Enfatizava Drummond:


“O que há de mais importante na literatura, sabe? É a aproximação, a comunhão que ela estabelece entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles. Se alguém perto de mim falar mal de Verlaine, eu o defendo imediatamente; todas as misérias de sua vida são resgatadas pela música de seus versos.” (2008, p. 52)


Como quem atesta o pertencimento ao seu tempo e a todos os tempos, numa espécie de suplemento às afirmações de Drummond, é fundamental que lembremos das palavras de Murilo Mendes, em texto de 1970:


“Pertenço à categoria não muito numerosa dos que se interessam igualmente pelo finito e pelo infinito. Atraem-me a variedade das coisas, a migração das ideias, o giro das imagens, a pluralidade de sentidos de qualquer fato, a diversidade dos caracteres e temperamentos, as dissonâncias da história. Sou contemporâneo e partícipe dos tempos rudimentares da matéria – desde 900 bilhões de anos? –, do dilúvio, do primeiro monólogo e do primeiro diálogo do homem, do meu nascimento, das minhas sucessivas heresias, da minha morte e mínima ressurreição em Deus ou na faixa da natureza, sob uma qualquer forma; do último acontecimento mundial ou do acontecimento anônimo da minha rua. [...] Excitante, a minha fraqueza: alimenta-se dum foco de energia em contínua expansão.” (1994: 46)


E aqui está, mais uma vez, a consciência de uma força atemporal capaz de mover o poeta – força essa muitas vezes alimentada pela negatividade das coisas do mundo. Na verdade, essa força desdobra-se em duas instâncias: um lugar de vida vislumbrado nas imagens de equilíbrio, serenidade, e muitas vezes um lugar de morte, ou de uma força destrutiva que move o mundo, associada ao “universo em crise”, ao “massacre”, à “luta e negação”, ao “sangue espremido”, ao inferno configurado no poema nos geradores de guerra, se lembrarmos – para citar apenas um exemplo de um importante poema de Murilo Mendes – “O poeta futuro”, de As metamorfoses (1994). No poema de Murilo, apesar do que o título possa sugerir, não há qualquer expectativa em torno de um “porvir”, pois “o poeta futuro já vive no meio de vós”. Além disso, apresenta o poeta como um ser qualquer, capaz de (e no dever de) sujar-se nos acontecimentos do mundo, para além da banalidade das coisas de agora, “Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos.” (1994: 319)


A sensação de desajuste muitas vezes se impõe à de pertencimento ao seu próprio tempo, e a impotência diante do impasse converte a experiência poética em resistência. Ela resiste àquilo que não consegue apreender, à falta e excesso refletidos na sociedade e na história. A linguagem da poesia é sempre atraves­sada pelas coisas que existem na mesma medida em que as atravessa. Tanto na escrita de Francisco Alvim quanto na de Drummond, as conse­quências desse atravessamento são expostas e grafadas no próprio tempo e no corpo – da escrita (enquanto gesto), do poema e dos sujeitos. Tudo se configura de modo muito vulnerável, sem que haja proteção capaz de impedir o permanente desam­paro desses sujeitos sempre submetidos a alguma instância inelutável (social, histórica, temporal, política, afetiva): “um ser nu a vida pouca/Só dentes e sapatos/de volta para casa”, em Alvim (2004: 322), “Meu coitado corpo/ tão desamparado/entre nuvens, ventos,/neste aéreo living!”, em Drummond (2012: 268); ou então sujeitos sempre desdobrados em outros, no característico procedimento drummondiano de amplificar a voz poética pelo deslocamento pronominal: “Hoje quedamos sós. Em toda parte,/ somos muitos e sós. Eu, como os outros.”, em “Mas viveremos”, de Drummond (2012: 480).


Convém salientar então que, ao invés de paralisarem, todos esses impasses e inadequações ampliam as possibilidades da escrita e da sensibilidade poética. Uma avaliação determinante desse percurso pode ser feita em “Edifício esplendor” (2012: 268). A presença dos ratos no edifício do poema evidencia a força de ação do tempo, inexato e móvel como o corpo e a consciência da escrita. Até então organizado em estrofes que descrevem, em terceira pessoa, diferentes cenas entre presente e passado, assinalando a passagem do tempo, a orientação de voz e métrica é completamente desfeita com a chegada dos ratos. Eles são uma voz de fora a lamentar a passagem do tempo presentificada na deterioração do prédio, de seus objetos e pessoas. E quando o poema termina, são eles, os ratos, que corroem tempo e escrita: “– Que século, meu Deus! Diziam os ratos./E começavam a roer o edifício”. (2012: 268)


O permanente movimento de resistência que aparece nessa poesia – notemos que os ratos começam a roer o edifício, ainda em pé, somente quando o poema termina – nos levaria, ainda, a um poema de João Cabral de Melo Neto, “A Carlos Drummond de Andrade”, publicado em O engenheiro, livro de 1945 – mesmo ano de publicação de A rosa do povo, de Drummond. Apesar das interpelações feitas pelo poeta a “Carlos”, em “Difícil ser funcionário”, poema escrito em 1943 e que não está em O engenheiro, uma resposta agora dada a Drummond (e, por que não, à própria poesia de Cabral) parece devolvida em “A Carlos Drummond de Andrade”. O poema atesta e adverte para a necessidade de enfrentamento, quando a linguagem se apresenta como instru­mento de luta e de desamparo: não há guarda-chuva contra o poema, o amor, o tédio, o mundo, o tempo. Frente ao tédio da periodici­dade, da exatidão e da tentativa de precisão temporal (as quatro paredes, os quatro pontos cardeais, as quatro estações), o poeta responde com a intensidade de todos esses elementos no poema, consciente de sua vulnerabilidade, e também de sua força.




Referências:


ALVIM, F. (2011). O metro nenhum. São Paulo, Companhia das Letras.


_____. (2004). Poemas [1968-2000]. [Co­leção Às de colete, v.8]. São Paulo; Rio de Janeiro, Cosac Naify; 7 Letras.


ANDRADE, C. D. 2012. Carlos Drummond de Andrade: poesia 1930-62: de Alguma poesia a Lição de coisas. Org. Júlio Castañon Guimarães. São Paulo, Cosac Naify.


____. (2011). Jornal Hoje. [Rede Globo de televi­são]. 25 jul. 1981. Entrevista concedida à Leda Nagle. Disponível em: [Parte 1] e [Parte 2]. Acesso em: 29 out. 2011.


____. (2008). Tempo vida poesia. Rio de Janeiro: Record, 2008.


MELO NETO, J. C. (2008). Poesia completa e prosa. Org. Antonio Carlos Secchin. 2ª ed. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.


MENDES, M. (1994). Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro, Nova Aguilar.




[1] A seção cujo título é “Drummondiana” aparece seguida de dois-pontos como que anunciando o poema – ou os poemas – que viria a seguir, na edição ori­ginal de Sol dos cegos (1968), publicação independente. Na edição de Pas­satempo e outros poemas (1981), da Brasiliense, o título permanece, dessa vez sem os dois-pontos. Já na coletânea das editoras Cosac Naify/7 Letras, publicada em 2004, o subtítulo “Drummondiana” vira então epígrafe para o poema “A roupa do rei”.

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