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Dois poemas de Andréia Carvalho Gavita

Atualizado: 3 de jan.


Imagem: soldado americano carregando água para um ponto de distribuição em uma base operacional avançada em Port-au-Prince, Haiti. Free U.S. Government.



Até nunca mais, kalanbè

Estou me despedindo de você Aceno meu adeus direto dos escombros de uma terra mastigada Que engoliu-se pela fome com que nos serviu Seu prato de flores era recheado com pus Você, kalanbè, nos transformou em canibais

Sua lição sanguessuga foi fácil de traduzir E sempre soubemos como era sua verdadeira língua Mas tínhamos fome e sede, de sons e de caminhos

Crescemos sem o pai negro, sem a mãe indígena E aceitamos sua esmola Órfãos demais para o passado, idosos demais para o amanhã

Mas, ei, cabeça de vento Estamos falando com você com o idioma da história de nossa terra

Nossos dedos de escravizados aprenderam a cavar fundo, fazendo das migalhas ensanguentadas as sementes para outra época

Uma época em que o espírito da santa luz nos levanta feito árvore sagrada A árvore de frutos estranhos rodeada pela floresta renascida

Veja como nossas mãos são nutritivas Veja nossos dedos balançando sem tremer com o vento ceifador Cada aceno é um adeus e um golpe mortal em sua ceia miserável

Você fica mais desnutrido a cada irmão que se levanta dos escombros Não sabe que o sangue derramado é alimento para os que aprenderam a renascer das sombras

Você não cabe mais aqui No círculo da irmandade onde o sol e a lua brincam livres Em cujo centro arde uma fogueira acesa pelo pai indígena e pela mãe negra

Até nunca mais, Kalanbè Sua pátria agora se desmorona com o levante da terra revolvida pelos nossos pés

Voltamos à mátria e você só terá nossas mãos dizendo adeus para chorar pelo que teria sido se tivesse entendido que era parte de nossa família universal


Adeus




Comerciante sol

Meio dia Levanta o Sol

Micróbio da miséria pela Casa Grande

Para construir suas cidades de beleza

Fedendo a pica, fedendo a pica!


Eu estou falando com você

Metrópole dos micróbios do Sol

Pelado, pelado no umbigo das favelas


É a guerra

Pelo Sol, pelo Sol


Somos todos herdeiros da terra?

Paraíso ou Inferno

Pelo veneno do Estado Nacional


Eu não sou um matador de micróbios

Eu sou um amanhã pelado

Como uma selva

Sol, Sol


Sou o vestido do dia

Para construir pelo Sol

Meio dia levantando

Oi, Selva!




 

Poemas escritos durante a oficina Fuçando os escombros: jogos de tradução para não-tradutores, ministrada pelos poetas Júlia Raiz (do Brasil) e Rei SEELY (do Haiti). O segundo poema foi escrito com colagem de palavras em haitiano (apresentadas durante a oficina) e foi traduzido e revisado por Rei SEELY.



Andréia Carvalho Gavita é poeta e tem sete livros publicados. Trabalha no Departamento de Ciências Florestais da UFPR e na Editora Donizela. Colabora com a web-produção das revistas Zunái e Sphera e coordena ações culturais no Coletivo Marianas. Portfólio: gavita.com.br

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