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Legado de ensinamentos

Atualizado: 28 de dez. de 2022

Clara Arreguy

João em um encontro com os amigos jornalistas Helvecio Carlos, Clara Arreguy, Angela Faria, Mariana Peixoto. Crédito: Arquivo Família JPC.


Passado um mês, ainda está difícil absorver o impacto da perda de João Paulo Cunha, o amigo, colega, referência pessoal e profissional que se foi aos 63 anos, em 9 de setembro de 2022. Já no primeiro dia me faltavam palavras, mas mesmo assim escrevi um pequeno texto pra registrar como ele foi importante na minha vida, lembrar nossa relação pessoal, que impactou na minha trajetória em todos os sentidos. Aos poucos, lendo o que cada um dizia sobre ele, apontava qualidades, suas inúmeras contribuições para o jornalismo, a cultura, a cidadania em Minas e no Brasil, foi ficando mais nítido o quadro a ser traçado.

Porque João foi grande em tantos sentidos que qualquer abordagem apressada limitaria essa amplitude.

Conhecemo-nos na redação do Estado de Minas quando ele entrou para a editoria de Gerais, como subeditor convidado pelo Wagner Seixas pra cuidar das áreas de educação e saúde. João vinha da saúde, área onde militou durante muito tempo e que conhecia profundamente. Mas era um homem tão culto que em um ano ele foi convidado a assumir a editoria de Cultura e me convidou para ser sua sub.


Aceitei porque na prática já exercia tal função, mesmo sem ter o cargo – injustiça que ele exigiu que fosse reparada imediatamente pela empresa, com minha promoção para regularizar uma situação que se perpetuava havia alguns anos. Além da notória competência, generosidade e senso de justiça foram as primeiras qualidades que observei nele.


À medida que nos conhecíamos e ganhávamos confiança mútua, perguntei por que havia me escolhido. Respondeu que, embora não me conhecesse pessoalmente, acompanhava meu trabalho e via que eu dominava habilidades requeridas para a função: conhecimento, ligeireza, compromisso. Fiquei honrada. Aos poucos, porém, constatamos que nossas afinidades iam muito além. Nos afinávamos politicamente, procurávamos incessantemente o interesse do leitor, não abríamos mão da ética, do rigor, do espírito coletivo e participativo. Investíamos e acreditávamos nos jovens, em andar pra frente, sem nos ater à cultura elitista.

Esta era outra qualidade do João: apesar de extremamente culto e versado nos assuntos mais profundos, era uma pessoa de seu tempo. Gostava da cultura popular e da cultura pop. Amava tanto Elomar quanto Ivete. Me apresentou Seinfeld e Isaac Bashevis Singer. Já contei, no texto que escrevi no dia de sua morte, como me ensinou a ler fora da literatura. Me apresentou livros de filosofia, sociologia, política, economia, história, geografia, ciências, Carl Sagan, Milton Santos, Aziz Ab’Saber, Hannah Arendt, Susan Sontag. Me desafiava a resenhá-los, mesmo eu receando não dar conta. Se nunca fiz mestrado nem doutorado em nada, tive sete anos de convívio com o João a me ensinar a ler e a gostar de estudar. De 1997 a 2004, quando me transferi pra Brasília.


João estudava diariamente. Levantava cedo pra estudar. Lia vorazmente. Como disse a Mariana Peixoto, era guloso por comida e por livros. Mas generoso. Dava, emprestava, distribuía livros e ensinamentos. Sem arrogância. Ensinava porque era da sua natureza compartilhar saber. Saber compartilhado se multiplica, e ele nunca fez de seus saberes instrumentos para exercer poder. Pelo contrário: também isso ele gostava de compartilhar.

O campo da generosidade, do espírito coletivo, é um capítulo à parte. Quantas vezes fomos, boa parte da editoria, passar o fim de semana em São Paulo para visitar a Bienal de Arte? E os inesquecíveis janeiros em Tiradentes, para cobrir o Festival de Cinema, numa casa alugada com colegas e amigos, numa vivência de comunidade utópica, quase riponga, em que todos conviviam, partilhavam tarefas e despesas! Só que o João não era como todo mundo, então acordava cedo, ia ao comércio, voltava com pão quentinho e, quando nos levantávamos, a mesa já estava posta, o café passado, um bombom nos esperava entre o pires e a xícara.


Assim era o João: o homem da delicadeza, da sutileza. Sua vestimenta básica, calça jeans e camiseta branca, refletia um pouco disso. Cabelos e barba grandes, despenteados.

A simplicidade de conversar com todos, independentemente de cargo e posição. A firmeza de convicções políticas e ideológicas, sem transigir, sem tergiversar. Tinha lado, e deixava isso claro em textos escritos ou falados. Como no propalado caso de sua demissão do EM, quando não abriu mão da independência em favor de manter o emprego. Era tão leal à militância pela causa popular que enfrentava a própria timidez para falar em público, manter programas de rádio e TV, expor-se publicamente, sabendo que sua lucidez era alimento da nossa luta.


A partida do João num momento tão grave para o país é ainda mais triste. Porque precisávamos de gente como ele, com toda a sua bondade e seu compromisso. Com toda a sua clareza de pensamento e firmeza de caráter. Dizer que ele fará falta não é força de expressão. Já está fazendo. Ainda bem que temos seus livros, seus textos publicados, os vídeos de suas aparições na TV, pra ao menos ouvir sua voz. Que ela nunca deixe de ecoar os ensinamentos que o João legou. Ele permanecerá pra sempre nos ensinando a amar e defender o Brasil, nosso povo, nossa cultura, a justiça social, o bem comum.

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