• Revista Sphera

Capítulo de "Mil", novela de Jean Pierre Chauvin publicada pela Luva Editora

Atualizado: 10 de nov. de 2021



Estes


Winston Smith, his chin nuzzled into his breast in an effort to escape the vile wind, slipped quickly through the glass doors of Victory Mansions, though not quickly enough to prevent a swirl of gritty dust from entering along with him. (George Orwell, 1984)[1]


Ulisses acelerou o passo ao longo da via B1. Devido à velocidade com que ia, não conseguiu evitar o choque com o Pacificador que inspecionava o quadrante. Irritado, o Soldado Catão ajustou a alça de fixação do elmo e endireitou o visor. Para sorte do Cidadão, o agente da lei não emitiu uma infração.


Nem sempre era possível identificar o código ou grupo sanguíneo do Soldado; mas o Cidadão “de bem” deveria mostrar deferência perante o sujeito de uniforme. Pacificadores representavam autoridade e exigiam respeito. “Desculpe, Desculpe”. Ulisses voltou-se na direção de Catão e assim permaneceu até que ele o liberasse, com o gesto de “prossiga”: um leve menear de cabeça que deixava à mostra a insígnia do Departamento de Ajustes.

Ulisses não se recordava da última vez em que cruzara de forma tão descuidada o caminho de um Pacificador a ponto de se chocar com ele. Ao menos, pensou, o contato com aqueles tipos era raro, especialmente porque ele atuava no Departamento de Contagem.

Além disso, Oficiantes, Fiscais e Pacificadores só trocavam palavras em caso de absoluta necessidade — por exemplo, quando era necessário comunicar alguma irregularidade ou infração cometida por um morador da cidade-estado.


O fato é que Ulisses vinha tão empolgado com uma nova ideia, que esqueceu o modo adequado de se deslocar pela via de pedestres. Correr daquele jeito pelas sendas e vias centrais poderia ser considerado Ato de Imprudência n. 5. Chegando à Estação H8, aguardou pelo transporte subterrâneo, que chegaria dali a vinte e dois segundos, segundo registrava o seu marcador de pulso.

Na plataforma, escutou o bipe de reconhecimento facial, emitido pela telecâmera 17. Entrou no terceiro vagão e se sentou à quinta poltrona da ala A. Como ele, outros Pesquisadores, Oficiantes e sujeitos, que colaboravam com um dos oito departamentos, retornaram às suas modestas células residenciais.


Ele cogitava se as dúvidas que o incomodavam nas últimas semanas seriam “coisa sua”. Acreditava que não: “o pensamento é livre, mas não é único”. Até onde sabia, ninguém supusera que Cosmolândia pudesse não ser o Mundo. Anotou na agenda, sem que nenhum passageiro visse, “Cosmolândia é o Mundo conhecido”. Ele colocava em xeque uma lição básica, repetida a todo Pesquisador Júnior durante o período de alfabetização no Departamento de Aprendizagem: o Mundo se limitava àquela cidade-estado.

Tentou dissipar aqueles pensamentos inúteis. Reparou que o sujeito sentado à sua frente cabeceava de sono; que a jovem ao lado espremia os olhos para ler a microcrônica diária, exibida de minuto em minuto nas telecâmeras do vagão. “Haverá sentido na uniformidade?” — Ulisses se recordava da frase que havia escrito na última página da agenda.

Balançava a cabeça como se buscasse um interlocutor imaginário no vagão. Relembrando-se do incidente com o Pacificador, comemorava o fato de não ter sido penalizado com o Comunicado Formal de “Infração”. Arriscara-se sem qualquer necessidade. Imagine, correr sem olhar para os lados na via de pedestres, ainda mais durante o Horário de Segurança... Isso não acontecerá novamente, suspirou.


Ulisses folheava o catálogo de um bar-mercearia, quando soou o aviso para desembarque na Parada S2V6. Como demorou a se levantar, perdeu algum tempo e quase ficou preso na porta do vagão: estava cansado e distraído em função do incidente com o Soldado. Pensou até em fazer uma videochamada para Dido, adiando o encontro; mas seria muito melhor compartilhar a novidade com ela do que retornar ao apartamento. O que ela vai pensar disso?. Deixou o vagão.


*


Além de a cidade-estado comportar o Mundo, os cidadãos também aprendiam que eram perfeitamente livres para circular nas ruas até a zero hora. Para sua segurança, após esse horário, precisavam ficar em suas residências privadas ou nos estabelecimentos comerciais, localizados nas linhas-vértices de Cosmolândia até as sete horas da manhã.

Caso fossem encontrados nas Vias (eixos verticais) ou Sendas (eixos horizontais) pelos Pacificadores ou pelos Fiscais de Contagem, os cidadãos pagariam multa altíssima e, dependendo do estágio etílico ou da imprudência que cometessem, poderiam cumprir uma temporada de reclusão.


Havia uma penalidade ainda mais severa, que poderia resultar no Afastamento do habitante. Isso aconteceria caso o sujeito ignorasse a recomendação do Pacificador ou do Fiscal; se tentasse driblar a inspeção realizada no Departamento de Ajustes; se fosse considerado “conjurador do governo” pela cidade-estado.

*


Dido e Ulisses se encontraram no bar-mercearia que ficava na Intersecção da Senda 2 com a Via 6: era o preferido deles. Horas depois, quase vencidos pelo sono, lamentavam não ter voltado para casa mais cedo e continuado a agradável conversa depois.


— Às vezes penso em arriscar algo... — ele dizia.


— O quê?


— Deixarmos este lugar agora, por exemplo. Ainda que um Fiscal ou Pacificador nos visse nas vias, não seria tão grave voltar para casa com uma multa ou passar a noite no Departamento de Ajustes...


— Não diga bobagem... — murmurou ela. — O risco não vale a pena. Pior: a gente não sabe o que acontece com o sistema de pontos. Como ficaria nosso score se cometêssemos uma imprudência? Imagine receber uma infração... Esses caras são rigorosos, eu sei, mas dizem que é para o nosso bem...


— Ah, eu estou brincando! — Ulisses sorriu. — Não me leve tão a sério.


— Mas você sabe que a Beatriz falava justamente sobre isso na semana passada? Que coincidência!


— Ah, é?... Mas por quê? Algum motivo em especial?


— Não, não. Estávamos no terraço, durante o intervalo, imaginando como os Fiscais e Pacificadores se organizam para mapear todas as ruas. Tá certo que tem uns cinquenta deles no Departamento de Ajustes, mas...


— Trabalham em escalas de turno, você sabe.


— Sim, eu sei. Mas deve ser uma operação complexa. Duvido que alguém ousaria desafiar o alcance deles. Além disso, os Fiscais e os Soldados são tão intimidadores...


— Ah, são mesmo. Hoje mesmo aconteceu algo assustador. Quase derrubei um Soldado Pacificador quando atravessava o passeio a caminho do Subterrâneo.


— É, mesmo? Puxa, você correu risco de receber uma infração ou advertência, hein? Que horror!


— Realmente...


— Já pensou se você tivesse sido preso ou até mesmo afastado? O que seria da gente?


— Ah, imagine... Acho que não chegaria a tanto. É que eu estava muito ansioso para conversar com você e perdi a noção da velocidade em que vinha...

— Ah, sim? Por quê? — Dido se envaideceu.


— Tenho uma novidade... — Ulisses hesitava.


— Conte, conte!


— Bem... É segredo nosso, certo?


— Certo.


— Decidi reunir algumas pessoas para montarmos um grupo de trabalho.


— É mesmo? Parece ser uma ótima ideia. Já pensou em quem convidar? Mas... espera, o tal “grupo de trabalho” faria o quê?


— Estou pensando, ainda..., mas a ideia inicial seria refletir sobre o modo como vivemos.

— Ah, entendo...

— Vou mostrar o que rascunhei. Você promete ler?


— É claro! Já estou curiosa...


— Que horas são?


— Cinco e vinte. Aguente firme: faltam menos de duas horas... Acho que suportaremos virar a noite aqui.

— Ainda bem que não atuamos no Departamento amanhã.


Ulisses retirou da valise departamental um amontoado de folhas manuscritas e perguntou a Dido: “Gostaria de ler agora?”.


*


Encerrado o expediente, o Oficiante Virgílio percorreu o caminho de volta até o prédio onde morava, a pé. Desde que começara a atuar no Departamento de Edificações, oito anos antes (“como o tempo passa rápido!”), reservava as sextas-feiras para isso (“um bom exercício”). Como deixara o setor de agendamento um pouco mais tarde, eram 18h40, lamentou não ter um cachecol para protegê-lo melhor daquele friozinho da noite.


Nove quadrantes percorridos: estava em frente ao Edifício Residencial. Quem o visse, estático, a mirar as janelas da face leste, julgaria que fosse um Detetive em missão secreta encomendada pelo Governo. Contudo, o motivo era menos empolgante. Prestes a entrar — “Deve estar quente, lá dentro” —, Virgílio hesitava entre o descanso e o lazer no Bar-Mercearia Número Cinco, que ficava duas intersecções à frente. Não tinha convidado ninguém: passaria a noite sozinho, de qualquer modo.


Mudou outra vez de ideia. Nem entraria em casa, nem seguiria até o bar-mercearia (embora precisasse comprar alimentos para a despensa): assistiria a qualquer filme que estivesse em cartaz no setor de Audiovisual do Departamento de Artes. Eram 18h57. Se conseguisse pegar a sessão das 20h30, poderia voltar para casa sem invadir o temível Horário de Insegurança, da meia-noite às sete.


*


Era um Sábado.

Descontadas algumas nuvens, Cosmolândia amanheceu azul no Dia Negativo. Essa aparente contradição de termos (“céu azul/dia negativo”) levaria a maior parte dos habitantes a reiterar frases-feitas. Se estivéssemos posicionados mais perto das células residenciais de Cosmolândia, escutaríamos tanto as manifestações mais realistas sobre o fenômeno atmosférico: “Ah, o dia é azul, apesar de estarmos em casa...” -, quanto as otimistas: “Que dia bonito para organizar a vida doméstica!”. Também seria possível testemunhar um cidadão ufanista: “Como negativar um dia como este? Dia Negativo é só uma questão de nomenclatura”.

A exemplo dos seus 982 concidadãos, o Oficiante Júlio dedicou a Jornada Doméstica a reorganizar os arquivos extras que mantinha na célula onde morava. Ele tinha muito a fazer, além do horário de expediente, desde que dois de seus colegas de trabalho haviam deixado o Departamento de Contagem no mês anterior.


*


Catão despertou às seis horas. Embora fosse um Dia Negativo, tinha muito o que fazer. Desde que passou a envergar a farda de Pacificador, quatro anos antes, sentia maior segurança. Como Soldado, considerava-se extremamente útil para a sociedade. Por isso, nos últimos meses aceitava melhor o elogio do superior hierárquico: “Sim, Paladino da Justiça”. Ele reconhecia que não tinha estudado bem a Legislação quando era Pesquisador Júnior. Não entendia as muitas voltas e brechas do Direito, afinal, a sua tarefa era executar.

Isso não impedia que cumprisse suas obrigações. O rigor da Lei assegurava a ordem, preservava os limites e estimulava a harmonia na cidade-estado. Naquela manhã, quando viu seu uniforme de Pacificador dobrado sobre a cadeira, recordou-se daquele choque com o Cidadão, à noite. “Onde já se viu um sujeito correr desgovernado daquele jeito na via?”.

Como o sujeito se chamava, mesmo? Catão absorvera bem o treinamento realizado quando era aluno das séries finais do Departamento de Aprendizagem. Já, já, ele se lembraria do nome da criatura...


Como lhe ensinou a Pesquisadora Sênior Violeta (“aquela, sim, era uma mestra!”), a vida era necessariamente boa: o segredo da satisfação pessoal era agarrar: não permitir que as oportunidades escapassem. “Estejam certas, estejam certos, as portas se abrirão para vocês!”. Era desse modo que Violeta costumava encerrar suas palestras, invariavelmente sob a chuva de aplausos dos Pesquisadores Júniores. Quando pequeno, Catão se emocionava durante as aulas da mentora.


Aquele pensamento puxou outro e mais outro, até que retomou o fio inicial: Como se chamava aquele elemento que corria pela via expressa ontem? Soldado bem treinado pelo Departamento de Ajuste, Catão reconstituía a cena da véspera, concentrando-se no meliante: o cabelo desalinhado, a fisionomia, a camisa azul, a calça cáqui e o sapato marrom... Um vândalo!.


O homem foi identificado pelos monitores do elmo como Ulisses, agora se lembrava. Era um Oficiante do Departamento de Contagem. Mais um daqueles sujeitos com nome estranho, pensou. Decidiu averiguar melhor quem era o tipinho e qual seria o motivo para ele se portar daquela maneira.

[1] “Winston Smith, o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro da Mansão Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero” (George Orwell. 1984. 20ª ed. Tradução: Wilson Velloso. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1986).



Leia prefácio de Cleber Vinicius do Amaral Felipe sobre Mil, novela de Jean Pierre Chauvin

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