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Memória - Escritor Carlos Emílio Corrêa Lima (1956-2022)

Atualizado: 3 de abr.


Carlos Emílio Corrêa Lima por Lindenberg Munroe


O Corpo Editorial da Revista Sphera Habitações do Encantado manifesta seu profundo pesar pelo falecimento do escritor Carlos Emílio Corrêa Lima ocorrido na madrugada de hoje na cidade de Fortaleza (CE), de onde era originário e onde vivia depois de várias deambulações pelo Nordeste, Sudeste do país e pelo exterior. O escritor, um dos últimos ícones da “contracultura”, era membro do Conselho Editorial deste periódico, que abraçou com grande entusiasmo desde o primeiro momento, subscrevendo, assim que convidado, o escopo editorial, estético e ideológico da Revista.

Poeta, ficcionista, ensaísta, crítico, jornalista, editor, pesquisador e professor, o múltiplo Corrêa Lima foi um dos maiores vulcões da cena cultural brasileira dos últimos 40 anos, distinguindo-se, desde meados da década de 1970, pelo excesso de vida criativa. Encontrou na criação uma fonte inesgotável de vitalidade, um sentido de estar vivo, uma referência de permanente insubmissão às forças mortíferas do reacionarismo. O contexto ditatorial em que se processou sua infância, bem como adolescência e tenra juventude, é referência primordial para a compreensão de sua conduta humana e artística.


Sua obra literária transbordante, incontível, barroquizante, é uma das respostas mais macunaímicas aos controladores da vida social, aos que se encarregam de vigiar e punir, censurar, reprimir e matar em nome da ordem e do progresso. Expressa, para além de quaisquer etiquetas teóricas ou literárias, o transe da terra, na linha de Glauber Rocha, a partir de uma perspectiva ameríndia bruta, desejosa de ultrapassamento real do mimético, da representação, em prol do acontecer poético, da floração dos sentidos, da emergência da “primeiridade”, diria Peirce, dos signos.

Na prosa ficcional, nos poemas logopaicos ou no ensaio literário, Corrêa Lima exibiu sempre sua fidelidade ao lugar do Poeta, que é, com e para além de Platão, o de Íon, do encantamento, do “fetiche”, da ilusão. Entre os livros publicados por um Autor que, lamentavelmente, ainda não teve o merecido reconhecimento da parte do “grand monde” editorial brasileiro, merece menção especial aqui o seu Virgílio Várzea: os olhos de paisagem do cineasta do parnaso (UFC, 2002), originalmente apresentado como dissertação de mestrado à Universidade Federal do Ceará em 2002, trabalho orientado por Sânzio de Azevedo.

Esse autor que Corrêa Lima procurou tirar do limbo e recolocar em evidência, Virgílio Várzea, nascido em Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis) em 1863 e falecido na cidade do Rio de Janeiro em 1941, foi amigo de Cruz e Souza, referência fundante desta Sphera, com quem publicou a coletânea de poemas em prosa Tropos e fantasias em 1885. E bastaria, pois, esse seu belo e inusitado ensaio, produzido já em tempos pós-históricos, neoliberais, marcados por políticas de esquecimento de certo passado, para festejarmos aqui o “enfant terrible” cearense, mas o inquieto Corrêa Lima tem outras tantas contribuições notáveis.

Uma dessas contribuições é sua pesquisa de doutoramento sobre literatura indígena realizada nos últimos anos na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) sob orientação da professora Tânia Lima, sua amiga de toda a vida, também membro do Conselho Editorial de Sphera. Esse trabalho, defendido em 2018, que tem como título Antes o mundo não existia: o livro da outra origem do mundo, coloca em relevo não só um louvável interesse de ordem acadêmica, mas, antes, o sentimento cosmogônico que estrutura a percepção de Corrêa Lima. Desse sentimento parece derivar a conexão do autor à vertente dos “simbolistas órficos”, na precisa expressão de André Seffrin em texto publicado no Diário do Nordeste em 2007. Dessa vertente fazem parte, segundo o crítico, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Lúcio Cardoso e Raul Pompeia, entre outros.


Entre os romances e coletâneas de contos publicados por Corrêa Lima estão Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado (Tear da Memória), O romance que explodiu (Editora UFC), Pedaços de história mais longe (Impressões do Brasil), Ofos (Cariri Editora), Além Jericoacoara: o observador do litoral (SCC) e A cachoeira das eras: a coluna de Clara Sarabanda (Moderna), além de inúmeros textos de ficção em livros coletivos, resenhas, artigos e ensaios em periódicos diversos.

Merece ainda destaque sua trajetória no jornalismo cultural como crítico, ensaísta, resenhista e editor de publicações impressas, como, já em meados da primeira década deste século, Arraia PajéurBR, e como colaborador de veículos de comunicação tradicionais e alternativos no Nordeste, em outras regiões do país e no exterior. Sua atuação na Revista da Fundação Rio-Arte nos anos 1980 foi brilhante, contribuição inesquecível a um momento social “sui generis”. A morte de Carlos Emílio Corrêa Lima deixa um buraco gigantesco numa cultura letrada cada vez menos relevante na vida social de um país desgovernado.



Anelito de Oliveira

Publisher de Sphera Habitações do Encantado

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