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Memória - Escritora Lygia Fagundes Telles (1923-2022)




O Corpo Editorial da Revista Sphera Habitações do Encantado manifesta seu profundo pesar pela passagem no dia 03 de abril corrente da escritora Lygia Fagundes Telles ocorrida na cidade de São Paulo (SP), sua terra natal e onde se processou toda sua vida, com temporadas no interior daquele Estado durante a infância e na cidade do Rio de Janeiro. À beira do seu centenário sobre a terra, não se pode falar rigorosamente de morte de Lygia e apenas lamentar neste momento, mas antes nos parece mais sensato falar de vida, em tom de agradecimento pelos 98 anos de uma mulher extraordinária. Sua presença entre nós, brasileiros e brasileiras, comunidade leitora, durante tanto tempo foi fundamental para que pudéssemos avançar na objetivação e aprofundamento da compreensão da nossa própria condição humana no complexo século XX e neste espaço transcronológico dito contemporâneo.


Egressa da classe média-alta, que muitos tacham pejorativamente de burguesa, com pai distinto funcionário público, Lygia Fagundes Telles teve “berço”, contou com recursos materiais aos quais a maioria não tem acesso no país, mas não se acomodou. Empenhou-se sempre no sentido de alcançar uma percepção crítica sobre o seu tempo, transpondo limites naturalizados como intransponíveis especialmente pelas mulheres por uma longa tradição patriarcal, machista, misógina. Sua dupla formação universitária em Educação Física e Direito pela USP é sugestiva de uma mente que compreendia que o Corpo e a Justiça são dimensões estruturantes da vida social, e por isso mesmo idiossincráticas, suscetíveis a interpretações controversas. São dimensões nas quais o privado e o público se confundem, nas quais o aurático e o agórico, para aludir a Bhabha, conformam uma indistinção inquietante.


Ao adentrar a obra de Lygia pela via do seu terceiro e mais célebre romance As meninas, publicado em 1973, percebemos a técnica narrativa a serviço da investigação da matéria histórica premente, em pleno estado de ebulição. Ali a escritora, exercitando o “stream of consciousness’’, o fluxo de consciência, que cultivaria por toda a sua obra, denunciava, em tempos ditatoriais, especialmente sua compreensão da literatura como dispositivo de ausculta e liberação da subjetividade. Esta não é apenas de uma classe, etnia ou gênero, mas de uma coletividade urbana consciente sobre seus direitos sociais e humanos, e por isso mesmo resistente ao autoritarismo, defensora da Democracia. Imiscuindo-se no que narra, no que mimetiza, tal como vemos em “Las meninas” de Velázquez, os narradores de Lygia falam de uma instância intervalar, híbrida, de uma “brecha ficcional”, para lembrar a metáfora linda de Silviano Santiago, envolvem-se e nos envolvem num tecido histórico-estórico.


Lygia Fagundes Telles estreou em 1938 com a coletânea de contos Porão e Sobrado, quando tinha apenas 15 anos, publicando em 1944 Praia viva, também contos, depois de um longo constrangimento com editores que só se interessavam por sua beleza física. Quatro anos depois, em 1948, publicou O cacto vermelho, no qual aparecem clássicos de sua contística como “O menino”. Esses três trabalhos foram renegados pela escritora que, mais recentemente, chegou a dizer em entrevista à Folha de S. Paulo que a ansiedade, o desejo irrefreável de publicar, é um dos defeitos de jovens escritores. Em 1954, aparece seu primeiro romance, Ciranda de pedra, que Antonio Candido, o crítico maior da literatura brasileira, considera o marco de maturidade literária da autora, julgamento com o qual ela mesma concordou. O romance, que examina com agudeza e sensibilidade as transformações de ordem familiar e sexual em curso na década de 1940, como desquite e homossexualismo, chegou às telas da Rede Globo em 1981 em adaptação de Janete Clair.


Com a coletânea Histórias do desencontro, Lygia retorna ao conto dez anos depois, em 1958, quebrando um jejum de dez anos sem publicar. Na sequência aparece, em 1963, o seu segundo romance, Verão no aquário, no qual se acentua a intercessão com Machado de Assis como um dos traços da romancista: a personagem Raíza é apaixonada por um seminarista que, por sua vez, estaria tendo um caso com a mãe dela. A intercessão encontra fundamento no fato de Lygia estar, naquele tempo, trabalhando com Paulo Emílio Salles Gomes, seu segundo marido, o roteiro do filme Capitu, de Paulo Cézar Saraceni, lançado em 1968. Em 1965, aparece uma outra coletânea de contos, O jardim selvagem; em 1970, mais uma coletânea de contos, Antes do baile verde, aquela que se tornaria a mais famosa da escritora, reunindo éditos e inéditos, referência na formação de várias gerações de leitores. Em 1973, aparece o terceiro romance, o já mencionado As meninas, e, no fechamento da década de 1970, aparece a também coletânea de contos Seminário dos ratos, precisamente no ano de 1978.


Nas décadas de1980 e 1990, Lygia Fagundes Telles segue produtiva, publicando livros que alcançaram reconhecimento de público e crítica e que a consagraram definitivamente como uma das maiores escritoras brasileiras do século XX. Em 1980, publica A disciplina do amor, coletânea de textos em que se mesclam memória e ficção. Em 1989, publica seu quarto e último romance, As horas nuas, espécie de “remake” de temas e formas explorados em livros anteriores, mas que tem sua própria integridade estética, seu vigor criativo. Trata-se do primeiro livro da autora publicado depois da sua entrada na Academia Brasileira de Letras, que se dá em 1985. Em 1995 aparece o último livro de contos de Lygia, cujo título remete superficialmente a um verso de Cecília Meireles, mas primordialmente a San Juan de la Cruz: A noite escura mais eu.


Em 2000, Lygia retoma um dos direcionamentos da sua prosa madura, que é a exploração do vínculo entre o vivido e o imaginado, publicando Invenção e memória. A este trabalho se seguiu outro com a mesma natureza, que é a coletânea Durante aquele estranho chá, na qual a autora reúne diálogos com amigos e amigas de ofício brasileiros e estrangeiros, como Sartre e Beauvoir, Hilda Hilst, Clarice Lispector, Jorge Amado e Borges. Duas outras coletâneas, Passaporte para a China e Um coração ardente, publicadas respectivamente em 2011 e 2012, reúnem esparsos altamente significativos, relatos de viagem ao país oriental e contos produzidos do final dos anos 1950 até início dos anos 1980. Em 2018, o volume Os contos, publicado pela Companhia das Letras, reuniu toda a produção da autora no gênero numa edição que traz ainda posfácio de Walnice Nogueira Galvão. Lygia Fagundes Telles foi, como disse João Ubaldo Ribeiro, “a grande dama da literatura brasileira”, e, como toda dama, esbanjou elegância, educação e civilidade. Um exemplo.


Anelito de Oliveira

Publisher de Sphera Habitações do Encantado

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