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Nove poemas de Viviane de Santana Paulo


Foto: arquivo da autora



a rainha da noite é negra

a lua apesar de branca

não pode brilhar sem o negro

da noite ampla

e as estrelas…


o negro realça o brilhar

dos astros

e imenso


a negritude própria

de todo nascimento




*


“quantos mais vão precisar morrer

para que esta guerra acabe?

eles têm a cor da luta na pele

eles têm a vida nas mãos

eles têm o mundo nos pés

e são alvo do teu ódio insano

quantos mais vão precisar morrer

para que este ódio acabe?

eles têm no corpo um coração

eles têm família e união

eles amam e amados são

eles são negros / eles são miscigenados

e a tua incompetência só tem ignorância

e indiferença

a tua paz é a guerra

quantos mais vão precisar morrer

para que este tempo sombrio acabe?

no qual a injustiça passeia pelas ruas

uniformizada armada e mata

quem tem a cor da luta na pele

quem tem a vida nas mãos

quem tem o mundo nos pés

mata os jovens negros e quase negros

mata os jovens pobres e negros e quase negros

eles são humanos e mais humanos

e são alvo do teu ódio desumano e cotidiano

cada vez mais ódio

cada vez mais desumano

cada vez mais cotidiano

eles têm a cor da luta na pele

a cor do sol / a cor do ébano

eles têm a vida nas mãos

e o mundo nos pés

e são alvo do teu ódio

enfatizado / estatizado / amparado

por leis racistas

descumprindo a lei

quando ela não é racista

mas a vida se importa

“a vida destes jovens negros

importa” / a vida se incomoda

porque a vida precisa deles

que tem a cor da luta na pele

que tem a vida nas mãos

que tem o mundo nos pés

que tem coração

a vida precisa muito deles

a vida precisa da vida

destes jovens negros e quase negros e pobres

do teu ódio não

da tua fatal incompetência não

da tua mortífera ignorância não

NÃO NÃO e NÃO

a vida precisa

que estes jovens negros

vivam / salvos

VIVAM e VIVAM

e SÃOS



17.08.2019




*


a alma não tem cor se cor tivesse a alma a veríamos quando abre devagar as asas antes de alçar o voo para o alto

a pigmentação da pele é apenas uma questão de luz daqueles que são muito iluminados daqueles que são pouco iluminados


a pigmentação da pele

é apenas uma questão de sol


a alma não tem cor

a pigmentação da pele da alma

é a luz



31/5/20




imagem e semelhança

eu vi o grande homem parado na praça da igreja

de terno e gravata e na mão aberta a bíblia

gesticulava o braço apontava com o dedo

gerava medo falava ininterrupto

palavras santas e acusadoras

culpava pecadores e inocentes

e revelava a nascente

de todo mau do mundo


sua voz alta, tom forte e profundo

choviam gotas de saliva

palavras defensivas e ofensivas

e o dedo infalível apontava

para as pessoas que passavam

para o trabalho e os vagabundos


eu vi o grande homem parado na praça da igreja

de terno e gravata e a bíblia aberta na mão

gesticulava, apontava com o dedo

e a roda humana à volta

olhava submissa credo ou desprezo


e Deus era um homem ali do lado

sem uma perna e sem um braço

em cima da tábua com quatro rodinhas rolemãs

pedindo passagem distanciando-se do dilema


eu vi o grande homem parado na praça da igreja

de terno e gravata e a bíblia aberta na mão

gesticulava apontava com o dedo

e Deus não entendeu a aglomeração

as palavras que não tinha dito

as palavras que não tinha escrito

e afastou-se sem ninguém perceber

a sua cotidiana aparição




*


o ser humano permite que seres humanos

se afoguem no mar mediterrâneo

que morram despedaçados por bombas

ou baleados ou de fome doença de desemprego...

preconceito... racismo… desespero...

e o ser humano cria ávido - robôs

que devem ser iguais os seres humanos

que devem pensar e amar

iguais os seres humanos

e trabalhar iguais os seres humanos

robôs para se relacionarem

com os seres humanos

robôs para entreterem

os seres humanos

enquanto isso os seres humanos

são assassinados por seres humanos

morrem afogados no mar mediterrâneo

morrem de fome de desemprego de racismo

morrem de guerra de catástrofes climáticas...

morrem de doença

... ... ...

morrem de falta

de ser humano

e

de tão humanos os robôs

morrerão assassinados por outros robôs

se afogarão no mediterrâneo

morrerão de fome de injustiça de guerra

de doença de preocupação...

...de preconceito de racismo de desespero…


de falta de ser humano



02/11/19





*


eu tenho um filho que brincava com bolinhas madrepérolas

no chão de ladrilhos vermelhos do quintal

e martelava prego no caixote para fazer um carrinho

e corria pelas ruas da redondeza era amigo

dos cães sem donos mas afugentava os passarinhos

subia em árvores andava descalço e comia sem lavar

as mãos pronto para sair correndo dar rodopio no vento

assobiar para os cães molhar-se na chuva

o meu filho cresceu e tem um filho

que não brinca com bolinhas madrepérolas

nem martela caixote nem corre pelas ruas

não assobia para os cães sem donos

não afugenta passarinhos quando chove ele abre

o guarda-chuva não conversa com as árvores

não tem árvores nem quintal e ele passa

horas olhando para uma tela eletrônica

no seu mundo virtual



2017




*


oito minutos e quarenta e dois segundos e ele ajoelhado não rezava matava com as mãos nos bolsos o olhar frio e maligno esmagava o pescoço de um ser humano negro deitado, algemado sem nenhuma resistência tirava sua existência com as mãos nos bolsos tranquilo e seguro talvez apenas em sete minutos e sete segundos e a alma já tivesse se despedido a do homem negro no chão a do homem branco não porque alma nenhuma ele tem que possa se despedir ao morrer será apenas um corpo branco podre, fétido em decomposição



31/5/20




*


coloque uma poça de mar e altos arvoredos

coloque mata e ruas de terra ou paralelepipedos

coloque o som de uma música na rádio

as rodas macias de uma viagem

a campainha da casa de seus pais

coloque diálogos arquitetura e sapatos

que não apertam relógios que não assustam

pedaços de desapego em um vasilhame fechado

coloque pensamentos e anzóis

acrescente novos pensamentos

espere as lembranças crescerem

coloque os movimentos dos rios

e lâmpadas acesas guarde o número do telefone

porque em algum momento

ouvir aquela voz será profundo anseio

coloque um mínimo de multidão

coloque os livros para o tempo

em que o tempo incorpora a lição

coloque as passagens no instante de precisar

resgatar as experiências

coloque uma despedida breve e banal

e fortes regressos para fora ou dentro de ti


e vá!



2017









os esqueletos das ondas

inertes sobre a areia crepuscular

brilhavam como o nascer das coisas

como a beleza do frágil e do sagrado

e dourados como riquezas

simples e gratuitas

viviam como se fossem as próprias ondas

e as ondas sei lá!

algo como um corpo impalpável e inquieto

pertencente a outro mar.

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