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O processo criativo de Vera Casa Nova

Anelito de Oliveira

Uma das mais importantes semioticistas do país, responsável pela formação de várias gerações de Professores e Pesquisadores na Faculdade de Letras da UFMG, Vera Casa Nova é também uma das poetas contemporâneas mais intensas, profanadora de sacralizações fascistoides e desbravadora de horizontes malandros de sentido. Nasceu na Cidade do Rio de Janeiro, no Estado do Rio de Janeiro, e vive desde 1978 na Cidade de Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. Estreou no verso precisamente há 25 anos, em 1997, com a coletânea Canto Zero, publicação da Editora Mulheres Emergentes da também poeta mineira Tânia Diniz, falecida em 2020, que durante mais de três décadas editou o jornal mural Mulheres Emergentes. Casa Nova publicou vários outros volumes de verso ao longo dos anos, como Lúcia Rosas e Rastros pela 7Letras, bem como volumes de ensaio, como Lições de Almanach e Fricções pela Editora UFMG, além de traduções, como o ensaio Embriaguez, de Jean-Luc Nancy, também pela Editora UFMG. Entre seus últimos livros estão Poemas da página e da tela, pela C/Arte, e Versos oblíquos ou A obliquidade do tempo, pela 7Letras. Vera Casa Nova escreve, no rastro das suas pulsações escriturais atravessadas por uma perspectiva de “arte povera”, sempre mais além do escrito, ressoando Anas (C., Akmatova), Joães (Brossa, Cage) e inscrevendo performativamente, nos interstícios de uma linguagem sutilmente erotizada, uma experiência pensante sentida, pessoana, de estar no mundo como gente, bantamente! (Bantu – Humanos). A convite de Sphera, a poeta escreveu um depoimento sobre seu processo criativo.





Um processo de escritura (ou um paraquedas colorido)
Vera Casa Nova

Acho que sempre retorno à questão da paixão do tempo. Nessa memória da linguagem em que meus versos se criam, escrevo. Estranho ao mesmo tempo familiar, escrever sobre a própria criação exige uma racionalidade que esbarra na emoção, na experiência de sentir, de perceber, no movimento da vida e do outro


Tensões, impulsos me fazem pegar o lápis e uma folha de papel, e sobretudo ela me aguça o desejo. E o caderno me olha sobre a escrivaninha.


Fingir - pode acontecer. Aliás, Fernando Pessoa estava certo no “fingir tão completamente”, mas, rimbaudianamente falando, esse eu pode ser um outro, mas ignoro, por isso invento.


Escrever tem sido uma forma de preencher meus ocos, meus vazios, minhas faltas. A escrivaninha, onde sempre trabalho, é de madeira maciça. A lapiseira escorrega por entre meus dedos e na folha vou preenchendo as linha do caderno.


Minha casa, minha solidão, apesar dos que me rodeiam, mesmo com meus cachorros amados.


Estou nas montanhas. Sinto falta do mar da minha terra.


Às vezes, cada verso é um grito, mas penso como Rilke que “a poesia não se faz com sentimentos, mas com recordações de experiências esquecidas num momento dado”.


E a intuição se cola às palavras. E escrevo. Não sangro, talvez por já ter sangrado demais. Lembro de Wally Salomão no verso “limpo no pano de prato as mãos sujas do sangue das paixões”. E descobri que a escritura é a minha lucidez, meu choro, meu riso e minha gargalhada.


Quantos gestos possuem meus versos?


O quê, quando escrevo, aflora do meu inconsciente? E, de angústia em angústia, escrevo sob tensão quando penso no outro.


Olho ou vejo? E a emoção me abraça. Desde o meu primeiro livro, Canto zero (1997), a convite da saudosa Tânia Diniz para a coleção Almanach de Minas: mulheres emergentes, venho fragmentando, resumindo e amalgamando idéias. Uns versos aqui, ali, acolá. Espalhados em revistas e telas. Vou me movendo entre paixões.


Caminho entre as extremidades. RASTROS, SOMBRA, LUZ, ELIPSES, RESTOS, CORPO SERIAIS, LÚCIA ROSAS: TEXTOS IMPUROS, DESERTOS, POEMAS PARA MEU PENSAMENTO, VERSOS OBLÍQUOS ou A OBLIQUIDADE DO TEMPO.


As imagens aparecendo no meio dos versos. Imagens de Kraiser, Klein, Boave. Parceiros das caminhadas poéticas. Legibilidade e visualidade.


O trabalho com as imagens me inquieta, me perturba, me emociona. É a relação do dentro e do fora. São afinidades com as imagens que saem dos poemas.


Mas antes da lapiseira ou do lápis , o silêncio. Não seria como “moção”, ou seja, um movimento que sinto na saída de um eu para o outro que me lê? Começam assim minhas travessias.


Sempre fiquei entre as frases de Rimbaud “eu é um outro” e “pois, eu é um outro” e a de Lautreamont “se existo, não sou um outro”.


Escrevo, logo percorro. Percorro imagens e construo outras. Do visual ao verbal. E vice-versa. Um salto.


Memória, arquivo. Uma poética de lembranças do passado e do presente. Restam os efeitos e os acontecimentos por virem. Afetos dispersos, percepções que vão compondo versos a partir de um modo de ver, viver, criar e aderir às lutas. Poesia, teu nome é intensidade.


As imagens do meu pensamento tornam-se fraturadas. São versos de uma máquina que para ou continua em seu regime de luz. Dobras e desdobras. Fissuras.


Vasculho leituras esquecidas para fazer um verso. Às vezes, dialogo com versos de outros poetas. Restos, rastros, obliquidade. Lugares de memória literária, poetas com quem me encontrei e me identifiquei .


Nas paredes do meu estúdio há versos escritos que não são meus, mas me pertencem. Como esse de Pasolini: “É preciso resistir no escândalo e na cólera”.


Tenho a consciência da força do meu corpo enquanto escrevo.


Escrever. Ler. Escrever. Ser reconhecida como poeta ou não. Não procuro editoras famosas, nem escritores, tipo celebridades, que possam indicar meu nome, meus livros para publicação.


Escrevo na minha biblioteca ou no meu estúdio. Gosto de ficar olhando meus livros, meus velhos companheiros. Minhas leituras são variadas. Filosofia, psicanálise, História, teorias das artes, mas sobretudo literatura. Gosto de Drummond, João Cabral, Murilo Mendes, Chacal, entre tantos outros. Dos estrangeiros, Marguerite DDuras Sophia de Melo Breyner Andressen, Virgínia Woolf, Herberto Helder. Não esqueço de Clarice Lispector, Nuno Ramos, Gonçalo Tavares, Machado de Assis, Mia Couto, Kafka, valter hugo mae. Ai! é muita gente!!!


Fazer listas é tão difícil quanto escrever sobre o nada e o impossível.


Duras dizia que “a solidão está sempre acompanhada pela loucura”. Não sei dizer em que regime de loucura estou eu, mas continuo tentando apreender a coluna dorsal do meu tempo.


Talvez tudo isso seja só o fracasso. Quando o não ressuscita o sim e eu aceito a perplexidade e o paradoxo que eu mesma crio.


Aceito um movimento que vem de fora para dentro e que me afeta sobremaneira. Esse movimento por percepções, por afetos, produz versos inesperados, mas nem sempre apreendidos pela escritura. Ficam, às vezes, no travesseiro, por pura preguiça de ação.


Da dor e da alegria, do prazer e do desejo de escrever.


Na dinâmica entre o poético e o prosaico, os afetos se expandem em meu corpo. Eis o movimento tentando de todas as formas pôr as coisas em seus lugares devidos. Escrever ou não escrever nada. Mas o nada me deixa sem respirar e minha língua falha. A palavra falta. E os restos aparecem nas letras redondinhas da palavra.


Quebro a ponta do grafite e continuo na linha Penso como Kafka: “também sou escritor quando não escrevo”. E no vai e vem dos versos, as emoções se transformam. Esboços de meu corpo ou do corpo do outro. Se um eu aparece no verso é um eu de resistência, de um desvio qualquer.


Um eu que está em aberto, como que desejando uma ressonância do leitor, sempre inquietante.


Para terminar estas notas sobre meu processo de criação, lembro Conceição Evaristo em seu livro Poemas da recordação e outros movimentos:


“Ao escrever a dor,

Sozinha,

Buscando a ressonância

Do outro em mim

Há neste constante movimento

A ilusão-esperança

Da dupla sonância nossa.

Ao escrever a vida

No tubo de ensaio da partida

Esmaecida nadando,

Há neste inútil movimento

A enganosa-esperança

De laçar o tempo

E afagar o eterno.”

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