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ROSAS PARA MARIELLE

Atualizado: 4 de jan.

Organização: Plinio Camillo. Apresentação: Anelito de Oliveira.

Marielle Francisco da Silva (1979/2018), conhecida mundialmente como Marielle Franco, foi covardemente executada na cidade do Rio de Janeiro no dia 14 de março de 2018. No dia 14 de março de 2023, completar-se-ão cinco anos desse crime hediondo que turbinou decisivamente a escalada fascista no Brasil e passou a constituir mais um dos grandes segredos do Estado de mal estar racial no país. Quem matou Marielle Franco, uma mulher preta, bissexual, nascida e crescida na favela da Maré, ativista de direitos humanos, socióloga, vereadora? O Estado brasileiro não tem direito a não responder a essa pergunta, tampouco a fingir que está tentando responde-la, seus representantes têm obrigação de revelar a verdade sobre esse crime como demonstração de compromisso com a defesa dos direitos humanos, pressuposto básico para se falar rigorosamente em Estado. E é mesmo para reverberar a urgência dessa revelação, da resposta à pergunta que nunca calaremos – quem matou Marielle? – que Sphera apresenta aqui dez rosascontos, uma instigante roseira, em homenagem a Marielle Franco, textos escritos especialmente para esta publicação a convite do escritor Plínio Camillo, Diretor do Canal YouTube Notas de Escurecimento, por pretas e pretos que fazem da literatura brasileira hoje um lugar de reversão do processo de invisibilização a que a comunidade negra tem sido historicamente condenada. Marielle presente!




MÃOS LIMPAS
Suedi Fernandes

Ela subiu as escadarias do Palácio, como se a casa do povo fosse, acompanhada de gente com seu jeito, seu cheiro e sua cor de favela.

Evitou formalidades, recusou minhas homenagens, não tinha papas na língua.

Resolvi interromper sua fala e quebrar seu dedo em riste, a insolente não parou.

Atraia a todos como o sol.

Seu brilho me ofuscava.

Minha fé me impedia de usar as minhas mãos. Então chamei uma mão suja para apertar o gatilho.

Sorri no primeiro, festejei o segundo, gargalhei a cada um dos impactos que seu corpo sentia.

Estava feito!

Mandei apenas uma para a região do silêncio, como milhões são as vozes que gritam no meu sono, infernizam minha vida, ostentando uma flor na mão e punho cerrado na outra?!

Pela memória das famílias de bem brasileiras!

Por Deus, acima de tudo!

Ela não deveria ter feito esse povo acreditar que era gente...

Que poderia sonhar, porra!



Suedi Fernandes: Mulher preta, carioca, suburbana, graduada em pedagogia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro, pós-graduada em psicopedagogia diferencial pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, com participações em diversas antologias da literatura negro-brasileira, atua como educadora da rede pública da baixada fluminense.



 


SOPRO DE VIDA
Neide Lopes

Mulher preta que andava por entre todes, sua história vinha de outras que a antecederam, sentia-se acessando o espaço que tinham roubado de ti. Para ela não importava sexualidade, cor de pele e sim se naquela comunidade tinham ou não violado direitos.


Mimica perdia noites de sono, tentando refletir e planejar o que faria para Maria não dormir mais nas calçadas da maré, esta mulher tinha que ter um teto.


Horas fazia isto por sua atividade profissional e em outros momentos por se tratar de uma irmã preta, que assim como ela os obstáculos sempre eram maiores que de outros.


Pensava sempre na dispersão do navio negreiro e da divisão que nos dividia e nos unia.


Como um sopro de luz um dia Mimica vivendo como um vulcão resolvendo conflitos sociais e no outro voa como uma águia e passa a estar em nossas mentes acima de nós, a maré toda chora e ela sempre sobrevoando nos cerca protegendo as mulheres que estão tentando ser águias.



Neide Lopes, Assistente Social/ especialista em Gênero e Diversidade. Participou das coletâneas Pretumel De Chama e Gozo – Antologia da poesia negro-brasileira erótica,2015- Ser Prazeres transbordações eróticas de mulheres negras, 2020, Preto em Contos – Volume 2, 2021.



 


VITÓRIAS E BATALHAS
Diogo Nógue

O cheiro de café recém passado vagueia pela casa. Elewa prepara a mesa da cozinha para ele e sua filha.

Bolo de fubá, mandioca cozida, pão e geleia de acerola. Lábara desce as escadas, desperta pelos aromas da manhã, desejando um bom dia.

— Bom dia Srta Presidenta! dormiu bem?

— Ai pai, demorei pra pegar no sono, não acredito que vencemos!

Olhou para a mesa com alimentos preferidos dela e da mãe. Foi até Elewa abraça-lo.

— Obrigado por tudo!

— Eu que agradeço, filha. Sua trajetória é vitória para todos nós. Sua mãe ficaria orgulhosa.

Comeram saboreando cada segundo daquela manhã. Lábara falava dos desafios e planos para seu mandato. Elewa via o brilho no olhar da guerreira que ajudou a criar.

Assessores e amigos parabenizando-a por ligações e mensagens, outros elogiando o discurso em que saudou as que vieram antes dela, Aqualtune, Dandara, Tereza, Antonieta, Benedita, Marielle.

Mais tarde, vendo a filha saindo, Elewa sentiu medo. Sabia que venceram apenas uma batalha.



Diogo Nógue (1988-) é artista visual, professor, ilustrador e escritor. Natural de Suzano, onde atua como Arte Educador, cresceu na zona leste de São Paulo. Na arte, desenvolve sua pesquisa em pintura, desenho e objetos. Como escritor publicou os livros "Pedra Polida" e “Retratos Apagados”, e também a antologia "Pretos em Contos”



 


ENQUANTO ÂNGELA ESTAVA ALI
Negro Du

Com a cara enfiada entre as pernas dela, Ângela beijava aquela vulva com prazer, enquanto ouvia os gemidos. Em sua mente passava a ideia de ter encontrado alguém que valesse a pena namorar por um ano, dois, dez, ou o restante da vida.

Diante de seus olhos, naquela posição de graça, Ângela sentiu algo novo, era uma felicidade que era vibração que era amor que era alegria que era dor que era falta que era cinza que era apertado que era gozo.

Naquelas pernas, Ângela se viu criança, quando chupava melancia no quintal de sua avó, e na delícia vermelha, lhe agradava o lambuzo que fazia.

Nas negras pernas dela, Ângela sentiu a mesma paz que teve ao segurar a mão de Eva, quando juntas entraram na formatura da 8⁰ série.

Ângela estava radiante ali, ao mesmo tempo que acariciava aqueles seios-torres que eram acobreados com a luz que passava pela janela azul, a quebradinha do lado direito.

Ângela a via se estremecer de deleite, então quis saber.

— Seu nome?

— Vera... é Vera.



Negro Du: Baiano de Salvador, sagitariano amante das artes, curioso das letras, inventor de histórias que já tenham acontecido ou que vão acontecer. Estudante de teatro desde os 14 anos, ainda continuo aprendendo, hoje na Universidade Federal da Bahia (UFBA), lugar que muito me ensina sobre minha existência como cidadão brasileiro, negro, gay e artista neste mundo.



 


PREZADA MARIELLE...
Júlio Emílio Braz

Comecei inúmeras vezes e desisti. Assustei comigo mesma. Não, na verdade me senti inadequada. Na ânsia de impressioná-la com minhas palavras, temi parecer infantil, superficial, oferecida, atrevida e inconveniente. Fiquei sem palavras.


Querida Marielle queria que soubesse e nem terminei e a notícia de sua morte chegou.

Exatamente a hora que minha mãe voltou e eu ia me abrir com ela, dizer como sou, o que quero ser e falar de você.


Nas lágrimas, falei e está um silêncio danado aqui em casa. Minha mãe vai e vem feito fantasma, assombrando a si mesma e as tantas explicações que encontra na cabeça para explicar o que nem precisa de tanta explicação.


Sou eu mãe e ponto final!


Estou me sentindo só, forte e acho que esperei demais para lhe escrever essa carta, Marielle...

Mas quer saber?

Muito obrigado, Marielle!



Júlio Emílio Braz nasceu em abril de 1959, na cidade de Manhumirim-MG. Aos cinco anos foi para o Rio de Janeiro. Publicou mais de cem livros infanto-juvenis e a grande maioria deles trata de problemas sociais, sobretudo aqueles relacionados às crianças e adolescentes. O primeiro livro nessa linha é Saiguairu, de 1988, com o qual ganhou o prêmio Jabuti de Autor Revelação.



 


MAMÃE CHOROU
Benedita Lopes

Chorou a dor de outra mãe, ao ver na notícia extraordinária, a morte daquela mulher de sorriso largo.

Perguntou a si, como quem ao mundo indaga: “Qual injustiça sentenciou este crime?

Mamãe abandou a louça, acendeu uma vela para o nosso retrato, e silenciosamente chorou as nossas mortes. Fora também cinco tiros, na cabeça, e a desculpa de nos terem confundidos com dois criminosos iguais a nós.

Mamãe lembrou com revolta do argumento da vizinha: — os bandidinhos estavam acima de qualquer suspeita, cara de anjo, olhos claros, cabelos, apesar de cacheados, aloirados, enquanto seus filhos têm a cor da suspeita.

Mamãe chorou a dor de outra mãe.

Não. Não comparou, aquela dor a sua, embora fosse dor de mãe com filhos assassinados.

Mamãe sentiu pela notícia, a busca pela justiça ser plantada qual semente.

Mamãe silenciada pelo pranto, fitou seu olhar nos olhos de nosso retrato e reverberou em seu corpo trêmulo: “Marielle, presente.”



Benedita Lopes, andreense, filha de Josefina e Belchior, é amante das palavras, habita quilombos literários como Cadernos Negros Volumes 37 – 40 – 41- 43 Quilombhoje; Parto Normal; O livro Das Marias III, Mulheres Das Águas II este como prefaciadora. É autora do livro porções para se acordar presentes – Editora FEMINAs – selo Dandara – 2021. E considera a escrita ato político.



 

VAGANDO, ANDO...
Rogério Adriano Silvestre

Levanto-me subitamente de um sono terrível... parecia ter dormido há tempos! Tudo está tão confuso e ainda não percebo onde estou, qual é o meu lugar.

Minha vista, ainda turva, não percebe o que se sucede ao redor. As ruas estão mais povoadas do que nunca, porém, ninguém parece notar a minha dor existencial.

Caminho por entre as ruas e percebo uma gama de gente que não estava ali antes. Eram famílias inteiras, muitas improvisadas em barracas, embaixo de pontes e em praças. Algo havia mudado.

Minha cabeça dói muito, e a coloco entre as minhas mãos, e sinto três buracos... e as lágrimas se derramaram, em um vermelho intenso. Com a manga de minha larga camisa, enxugo-as e posso observar um imenso mural com os dizeres: “Marielle Presente”!

— Sim, claro que estou presente! — murmuro um pouco incrédula!

— Porque não estaria?

O caminho parece confuso, e não sei mais para onde sigo. A minha única bússola é o que me trouxe até aqui: o encanto pela vida!



Rogério Adriano Silvestre: Assistente-Judiciário do Tribunal de Justiça de São Paulo, Especialista em Políticas de Drogas, Direito Penal e Processo Penal e Direitos Humanos e Educação. Também Dj, Pai, Filho e Espírito, nada Santo.



 


BERRO
Cristiane Sobral

Na semana anterior foi expulsa do setor onde defendia as minorias.

— Não quero mais ver a sua cara aqui, preta, mulher, macumbeira e militante. Cai fora! O chefe gritou.Acordou com a coluna moída, dor, mal aguentava de pé. O médico atestou e a servidora pública tinha tempo de conseguir outro local. A violência feriu demais. Denunciou. Mais um dos boletins por racismo e discriminação em sua vida.

— Compra o berrante — ouviu ao entrar na loja de axé. Nunca tinha tocado uma corneta de chifres, mas o seu Boiadeiro queria e comprou.

Foi visitar Hugo, sacerdote do candomblé de ketu, na festa do boiadeiro dele. Levou o berro. O Pai tava incorporado, dançando e bradando. Ela batendo palmas, corpo ainda doído, a vista ficou escura e o Boiadeiro tomou conta. Ecoou o toque de rebatedouro, uma sonoridade longa e grossa de quebra de demanda.

Foi recolhida e vestiram o Boiadeiro que mandou recado.

— Tô aqui pra colocar a coluna dela no lugar, ninguém mexe com a minha filha.



Cristiane Sobral: Carioca e vive em Brasília. Multiartista, é escritora, poeta, atriz e professora de teatro. Bacharel em Interpretação e Mestre em Artes (UnB). Licenciada em Teatro. É professora de Teatro da Secretaria de Educação do DF. Publicou em diversas antologias nacionais e internacionais, seus textos foram traduzidos e publicados em vários países. Tem 10 livros publicados, o mais recente: “Amar antes que amanheça”.



 


ABELHA RAINHA
Débora Medeiros de Andrade

Dia desses uma abelha pousou

no canto superior direito do espelho do meu quarto.

É um espelho grande,

reflete mais que o corpo todo.


Olhei com atenção e notei: ela também me olhava.

Senti um tremor que de primeiro pensei ser medo

(será que vai me picar? se picar, qual reação?),

depois percebi que era outra coisa.

Reencontro.


Majestosa, zumbizando baixinho,

ziguezagueava pelo espelho,

como que me desenhando,

beijando delicadamente

cada parte do meu corpo.


Doce destreza, movimento ritmado, escorre o mel.

Ela vôo. Por aí de flor em flor levando e deixando o necessário. Nada a mais. Nada a menos.

Eu ferroa. Ao menor sinal de ameaça ou tentativa de (o)pressão, é ferro.


Quis abraça-la, e quando aconteceu,

algo a alma entendeu

e o corpo que se vire e se revire pra caber.

Por um momento me confundi,

a bela ela ali em mim, eu de fora olhando

e por dentro tanta coisa...

Mas ela é ela e eu sou eu.

Eu saí pela porta,

e ela voou pela janela.



Débora Medeiros de Andrade: Corpo cantante, dançante e escrevivente. Psicóloga especialista em educação. Mestranda em ciências humanas com pesquisas sobre educação, relações raciais e subjetividades. A relação com diversas linguagens artísticas traz cores ao meu trabalho, tanto na clínica quanto no desenvolvimento de projetos, eventos e materiais educacionais com foco antirracista.



 


CICLO
Ifè Rosa OAdq


A mãe sempre contou que Jurema foi alimentada por leite e lágrimas: No dia que nasceu teve uma salva de tiros e o seu pai morreu com uma bala perdida.


Na adolescência, não se conformava com a vida na comunidade. Um pouco pela raiva outro tanto pela falta do básico.


Quando já era moça feita, via os olhares maldosos em suas curvas. Mas o que realmente chamava atenção era seu olhar de navalha afiada.


Sua mãe seguia alimentando a filha, mais agora com feijão e raiva: duas pretas mulher desafiando a vida ali.


Quando conheceu Dandara sentiu seus pelos, sua respiração, tudo se desalinhar de amor! Em dois meses eram o casal mais lindo que já se viu! Dandara mostrou outro lugar para concentrar sua raiva: em quem dava as regras do jogo.


De aniversário, Dandara a presenteou com um cômodo onde daria aulas para as crianças da comunidade: era tudo que mais queria!


No dia em que Jurema morreu, teve uma salva de tiros, rotineiros na sua comunidade. Dessa vez a bala perdida encontrou ela.



Ifè Rosa Oadq: Filha de Dona Ana e Seu Apolônio, mãe de Ana Mel, Maria Luz e Jorge Bem. Mulherista AfriKana, Pretagoga, Educadora Social, Escritora e Arteira. Pesquisa desde 2013 formas de combater o racismo estrutural observando a arte/cultura/educação como estratégia para sensibilização e fortalecimento do povo preto. Atua em palestras, vivências artísticas/ culturais, oficinas, mediação e produção cultural. Participa dos Coletivos DiadeNega e Posse Hausa.


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