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Um poema serial de Luiz Edmundo Alves



Souvenirs


1.


Tenho colecionado souvenires:

imãs de geladeira, pedaços de árvores,

restos de casas, mapas de metrô,

de cidades e de países, pedras,

um galo de louça de lisboa, cadernos de desenho,

um búzio que guarda o barulho do mar,

um pássaro de vidro da ilha de murano,

uma caixinha com o ar de paris,

miniaturas de automóveis e

de monumentos.

coleciono também sons de risadas,

números da sorte,

palavras estrangeiras,

horizontes, sabores.

um colecionador sempre tem com que se ocupar.

vejam: um imã, um mapa, um búzio,

uma miniatura, uma palavra,

um caderno, um som de risada,

são bons companheiros,

jamais me deixam só,

jamais limitam minha imaginação.

uma coleção de souvenires é como um

um relatório de viagens

um inventário de memórias.



2.


As floradas do assa-peixe no

campo ou das quaresmeiras na

cidade fizeram desaparecer qualquer

saudade da primavera passada.

Estou cansado da palavra saudade,

no entanto frequentemente ela se

oferece ao meu cotidiano que,

à minha revelia, a aceita de

braços abertos. Bah, cansei!

Aquele velho mundo acabou mesmo?

Vou lá recolher os destroços,

talvez encontre alguns

souvenires interessantes



3.


Foi hoje, exatamente hoje, que minha alegria empurrou tristezas,

abriu a porta e foi à rua tomar vento, foi à estrada gastar sapatos à

procura de novos motivos.

Minha alegria tem uma

gratuidade quase de infância, uns fios brancos, desalinhados,

uns vestígios excitantes,

tem um bailado de colibri,

umas sombras de

sombrinhas de frevo,

ferve com boas notícias de longe e

com as luzes do entardecer.

é uma alegria que se assemelha

ao alívio do despertar de pesadelos,

é assim: comedida, não faz ruídos,

aparece e logo some, por isso a tenho como raridade, assim: tipo

um tesouro desterrado.



4.


Ouça os homens feridos, fragilizados. Ouça as mulheres feras,

pergunte-lhes como fizeram para curar suas feridas, o que fizeram

com as flores que murcharam em seus jardins ou vasos. Pergunte

como ocultam suas dores mais frequentes, seus desejos ardentes.

Escute os homens que cozinham com amor de amadores,

pergunte-lhes como fizeram pizzas de bordas altas e macias,

pizzas de massa fina e muita cobertura. Pergunte-lhes qualquer

coisa, deixe que que sejam disertos, que escondam seus desejos e

suas fragilidades na maneira de explicar ou de beber cerveja.

Pergunte, e depois ouça. Ouça, e depois disserte. Pergunte a uma

mulher como ela faz para esquecer um bocado de gracejos

ridículos, esquecer amarguras, esquecer um homem mau,

esquecer. Pergunte. Talvez encontre o sentido na resposta. Talvez

a resposta seja um poema, ou um teorema.



5.


Minha irmã morreu sem que

pudéssemos compartilhar o

verdadeiro amor fraternal,

nunca aprendemos juntos os

significados de novas palavras,

nunca brigamos pela posse do

controle remoto ou pela atenção de

nosso pai. nunca nos oferecemos o

ombro para chorar perdas de

paixões adolescentes ou de cavalos.

Minha irmã habitava as lonjuras do oeste e se

foi sem que eu conhecesse seus

filhos e seus sonhos,

sem atarmos nossos laços,

sem experimentar as curvas da

estrada para Almenara.

Morreu sem ouvir minhas

estórias de Paris, meus poemas

avessos ao evangelho.

Minha irmã existiu na distância e

no vazio, hoje é ausência e

trecho de poema, uma lembrança troncha.



 

Luiz Edmundo Alves, nasceu em Vitória da Conquista, BA, em 1959. Já publicou 8 livros de poemas. Entre eles Fotogramas de Agosto (2005), Zuns Zum Zoom (2012), Álbum de

percepções (2020) e Uvas Verdes – poesia paixão memória (2009), reunindo artigos, crítica literária e crônicas. Entre 1998 e 2009 editou o site de “Tanto”, pioneiro na divulgação de

literatura na internet. Atualmente vive na Fazenda Pouso Alegre, em Almenara, MG.

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