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Vinte e oito poemas de Jardel Dias Cavalcanti

Atualizado: 23 de jan.



Jardel no no atelier Egas Francisco - foto: rede social do autor




Ser de Exceção


Jardel Dias Cavalcanti é um dos poetas brasileiros em atividade mais férteis e instigantes. Nasceu em Mariana, nas Minas Gerais, e vive em Londrina, onde é Professor na UEL (Universidade Estadual de Londrina). Historiador, pesquisador e ensaísta dedicado às artes modernas e contemporâneas. Tem há alguns anos um trabalho notável de editor gráfico com a Galileu Edições. Sua poesia, ainda inédita em livro, distingue-se pelo alto teor de cultura artística em geral, letrada e poética, em especial. Seu estro é atravessado por referências clássicas, barrocas, românticas, modernistas e contemporâneas fundamentais. Seus poemas “escrevem” Da Vinci, Guido Cavalcanti, Bach, Rembrandt, Rilke, Eliot, Trakl, Murilo etc. O escopo universalizante dessa poesia, cosmopolitano, é um dado que a distingue. Nesse escopo está sua identidade estrangeira em meio a um um cenário poético muito pedestre no país, familiar, vulgar. JDC ocupa um lugar de honra em meio a poetas que compreendem e praticam poesia como arte elevada. Sphera Habitações do Encantado celebra esse Ser de Exceção, como se dizia sobre uma singularidade no tempo de Cruz e Souza. Confira, com exclusividade, 28 poemas totalmente inéditos de sua autoria.


Anelito de Oliveira



 


A queda do poeta

Quando caiu e foi recolhido

O hospital já não lhe servia para nada

Levaram-no para o necrotério

Ali ninguém lia poesia

O seu nome lhes era desconhecido

Lá ficou, o poeta, como um indigente qualquer

Do seu bolso roubaram a caneta-tinteiro

Apesar de morto, mais do que todos,

Seu rosto espelhava profundos sentimentos humanos

A vivacidade radiante dos que nunca morrem.




Ocaso


Uma flor que fenece

Deixa no ar um perfume fúnebre


O anúncio do fim

Sempre vem junto com uma luz irradiante

Que acaba, por fim, em ocaso.




Depois do fim


O mundo começou sem a raça humana,

E acabará sem ela.

O silêncio das rochas

E a ventania sobre as árvores

Os rios correndo impassíveis

Com folham levadas pelas águas

As montanhas dormentes gigantes

E a rasteira areia dos caminhos

Os frutos maduros que cairão no solo

As cachoeiras com suas águas geladas

Iluminadas por delicados raios solares

A grama saliente e desconexa

Os trovões e tempestades ardendo

Os calmos remansos que seguem em frente

O orvalho como cristal sobre as folhas

Os troncos fortes mortos pelo tempo

O cheiro das plantas exalando sob sol tórrido

As chuvas encharcando a terra

Os desertos abandonados à areia quente

Os oceanos imensos até o horizonte

Um silêncio nunca visto nas noites

A imensa Via Láctea um córrego de luz

Um céu estelar sem deuses

E sem a esperança dos homens

Depois do fim.


Longo é o tempo geológico da terra

O homem um animal recente

Que logo desaparecerá

Como um rosto desenhado na areia.




O papel aceita tudo


Um desenho de Rembrandt

Uma casinha com chaminé feita por uma criança

Os versos de amor de um adolescente

O “soneto de separação” de Vinicius de Moraes

A lista de compras do supermercado

O esboço de um romance de Stendhal

O nome e o número do telefone da nova paquera

O endereço do advogado que cuidará do divórcio

As notas musicais de Beethoven

O dia e o horário de um voo para Europa

A receita de um prato ditada por um amigo

A lista dos livros que gostaria de ler

Uma oração que lhe dará dinheiro

A última canção que você compôs

A anotação de Proust de uma lembrança

Um nome para entregar a um assassino de aluguel

A carta de um suicida antes de saltar pela janela

O óbvio que precisa ser dito

A cópula com a traça que o destruirá

O desenho do mapa da cidade

O projeto da casa nova

As anotações do psicanalista sobre suas neuroses

O parecer de uma tese

As recomendações para a empregada

O telefone de uma boca de fumo

O esboço de um poema que lhe veio à mente

O papel aceita tudo

Até ficar em branco diante da falta de inspiração.




Bandagem


Folhas jogadas pelo vento

Não quebram o silêncio

Caindo e colidindo contra o chão.


São como um anjo com asas de seda

Te tocando no outro mundo.


Secas e de cor ocre

O mais sensível cuidado

Que protege a relva

Da lâmina bruta da luz solar.




Finados


Eles não estão lá

Sob a plaquinha com duas datas

É muito pouco para aquelas vidas.


Um estrondo nos meus tímpanos

E não saio do lugar – não arredo o pé –

Pois eles não estão lá

Como estão dentro de mim.


Partiram e me quebraram

Estilhaços por toda parte

Uma criança jogando uma pedra na janela

E o coração de vidro se esfacelando.


Nada do que eu sinto lhes toca

Sob a placa imperiosa do silêncio

Enquanto grito em cada órgão

E músculo triturados

O seu não esquecimento.


Tão vivos em nós hoje – um aperto na alma –

Tanto quanto quando aqui estavam.


Não lhe darei a flor da presença

Hoje que os quero esquecer

Cansado de tanto os lembrar.




O carro e os desordeiros


Os desordeiros respeitam os automóveis lindos.

Você pode ser esfaqueado por um deles

Ou até espancado numa rua escura

Mas seu Mercedes nunca sofrerá um arranhão.


Um carro elegante, máquina trepidante prateada,

Com janelas de vidro inquebrantável.

O teto delicado, sua capota conversível,

Paralamas, capô, portas, faróis, para-brisa

E o requintado emblema do radiador:

Tudo para um design sem igual.


Essa obra de arte impõe respeito.


Diante de um carro de verdade

Os desordeiros não são como ratos

Que fervilham nos armazéns

Dilacerando sacos de farinha

Num estrago endiabrado.


Um carro desses numa rua pública,

Mesmo com todas as táticas de guerrilha

Disseminadas nas grandes cidades,

Uma máquina como essa

Está livre de bastões, martelos ou bombas.


Esse tipo de carro

É como um homem bem-vestido,

Maravilhoso e insinuante.

Quem o arranharia?


As pessoas se encolhem diante da beleza,

Inclusive os bandidos.




Foucault, amato mio


Com correntes e chicotes

Em saunas de São Francisco

Em bares noturnos olhando

Belos troncos masculinos

Foucault viveu livre.

E dizia, diante da ameaça mortal:

“Morrer pelo amor dos rapazes:

O que pode ser mais belo?”

Amava a liberdade

Por isso tentou suicídio.

O discurso médico era poder

Uma das grades da prisão

Do discurso da verdade.

Contaminado pelo vírus mortal

Era ainda visto em saunas e bares

Um ano antes de morrer.

Os braços fortes de jovens

Ardentemente o premiavam

Com a vida que lhe restava.



No tempo de Shakespeare

As águas do Tâmisa eram fétidas, Cheias de excremento e lixo, Alimentando ratos e causando doenças. Esplêndidas embarcações dos ricos, Inclusive a da própria rainha, Cruzavam sua superfície prateada Em época de festas, em meio à músicas E deslumbrantes fogos de artifício. Em Londres viviam 200 mil pessoas Numa confusão de passagens e alamedas. A vida era cosmopolita e colorida Por pessoas refugiadas de perseguições Religiosas de toda a Europa. A maioria vivia em cortiços miseráveis, Cheios de lixo, com ruas emporcalhadas

inundadas de Excremento e urina,

onde proliferaram ratos Negros

e seu parasita letal, a pulga, Transmissora da peste bubônica. Sem sistemas de esgoto, O fedor de Londres era sentido A trinta quilômetros de distância. Foi quando o Fausto de Marlowe foi encenado Que Shakespeare chegou na cidade. Era um ator mediano, mas, como sabemos, Com garra para se tornar o maior dramaturgo De todos os tempos. Foi nessa época, perto de onde hoje Fica a estação de metrô Liverpool Street, Num lugar abandonado, cheio de mato, Ossos e todo tipo de detritos, Que Burbage, jovem ambicioso, Construiu a primeira casa de espetáculos, Que orgulhosamente denominou de Theatre. Uma "casa de peças" era uma ideia original Num tempo em que a arte dramática Era mostrada no pátio das hospedarias.




Recital para surdos, rosas e John Cage


Esse amontoado de surdos

Colhendo palavras para si

No poema que é feito

Para quem não o espera ouvir.


No jardim elas florescem

Ao olhar descuidado dos passantes

O poeta observa suas formas e cores

Se enternece com as pétalas que caem

Sabe que seu breve perfume

- esse alento para a dor –

O vento levará para

Nunca mais retornar.


John Cage atravessa a Av. Paulista

Todo aquele barulho de carros e vozes

Não o distrai do seu poema

De silêncio.




Mil flores para Odete


“A dor é uma flor como aquela.” (Robert Creeley)



Foram tantas as flores. Muitas.

Inesperada quantidade.

Uma explosão de cores

rodeou seu corpo pálido.

Eram pétalas rosas, amarelas, vermelhas

perfumando seu sonho cálido.

Cada uma das flores ardeu em amor e dor

por seu silêncio irremediável.

Você não viu como partiu corações,

abriu feridas e liberou cristais de lágrimas.

Não vivias mais nas grades do Tempo

enquanto nós perdíamos a razão

por sua viagem eterna.

Estavas coroada de flores sublimes

- um jardim imenso de perfumes -

que lhe era indiferente.

Eras um vaso de porcelana

quebrado em mil pedaços.

E aqui ficaram aqueles

cujo amor – a grande dor -

a ausência presentifica.

A memória – tesouro indestrutível –

nunca nos cairá bem.




Mishima: seda e aço


A primeira ejaculação de Mishima

- essa descoberta do corpo sexual –

foi diante de uma fotografia

de São Sebastião de Guido Reni.


Excitado com a pintura barroca italiana

mais do que com as gravuras eróticas japonesas

o samurai-escritor perdeu-se em luxúria

frente à glorificação do nu ocidental.


O corpo musculoso, prostrado em abandono,

mergulhado em voluptuosa agonia,

lhe transmitia desejos intensos

e corrompia seu corpo de seda e de aço.




Diante de Delacroix


Atravessou os corredores do museu

E, enfim, postou-se frente à grande tela:


Um prazer brutal naqueles corpos

De maligna magnificência.

Ombros nus uniam de forma quase vulgar

A humanidade e a eternidade.

Gestos de pura força e sensualidade

Pediam vazão para além de si mesmos.

Uma tela quase toda vestida de brilhos

Com finos tecidos de seda e dourados

Resplandecendo como um meio dia de verão.


Aqui e ali um arroubo de laca preta,

Negra como azeviche, não impedia

Que uma pincelada longa se expandisse

Oscilando de um lado para o outro

Como um pássaro majestoso

Que sobrevoa com asas douradas

Os ruídos e os alvoroços do mundo.


E todas as cores - ouro e vermelho

Púrpura e verde, amarelo e azul-escuro -

Ampliando-se umas nas outras

Em ondas periódicas de silêncio congelado

E estrondos de trovão

Produzindo no espectador

Arrebatado de seu fôlego

Uma expressão da mais obscena

E indisfarçada embriaguez.




Cinq à sept

(encontro de fim detarde)


Dentro do arrojado apartamento

Encontra-se a enorme cama

Forrada por um lençol de seda

Com delicados motivos japoneses.


Trair é uma arte como seduzir também.

E os tantos corpos que ali se deitavam

Eram como os mármores brancos das Vênus

Eternizadas nas artes célebres.


Como um perito criminal

Que observa atentamente

Um corpo nu em abandono

Ao lado da cama se postava ele.


Um connoisseur da beleza feminina.

O homem que amava as mulheres

Despia-se vagarosamente para

Servir de coberta àqueles corpos.


A fome que diariamente o perseguia

Era como a de um poeta

Que de um verso a outro persegue

A beleza absoluta da forma inalcançável.




Amsterdam blues


Sentado à beira do canal observa

- a água parada afoga um pássaro

E engole sua matéria sem estardalhaço.


O tempo para alguns passos pela cidade

Ou estes anos todos da vida:

Algo ainda lhe importa?


Todas as marcas criadas no corpo

E a alma banhada nos percalços.


Uns traçados de nuvens no céu e o vento frio

Além do peso da noite sobre as águas.

Nenhuma outra alternativa de cenário.


Toca no seu sax “The Pink Panter Theme”.

Atrai uma moça melancólica de belos olhos

Dessas que andam pela rua à meia-noite.


O artista precisa de uns trocados – e amor –

Mas só recebe no seu velho chapéu

Um bouquet de rosas amassadas.




Chet Baker em Amsterdã


Com sua voz alquebrada

Canta as agruras do peito

Olhe como ele caminha

Sem direção por toda a terra

De tempos em tempos

Ensaia um voo – perdido –

Num solo de trompete

Não sabe mais das alturas

Por isso canta - quase um sussurro -

Seu melancólico blues

Carrega um peso no coração

Quando despenca da janela

Direto para o chão.



Red light in Amsterdã


Um facho de luz neon vermelho

Tinge a água do canal

O vento o faz dançar

Como em um espatulado impressionista

A tênue luz ressoa e vibra

Acendendo com fogo o olho

De um rapaz desavisado

Que perdido na obscuridade

Vasculha cada cabine

E sua trêmula escolha

Recai sobre um travesti

Que o faz descobrir

O lado soturno da cidade

E de si mesmo.




Morte ocre na tela


Hora do barro tingir a tela

E o sangue dos mortos

Escorrer pelos pincéis.


As invisíveis almas gritam

Ao pintor uma redenção

Quando ao pó retornam

Sob a força tirânica da avalanche.


Os traços fortes da espátula

E o gesto bruto das corredeiras

De tintas se avermelham

Na ocre dor dos submersos

Na tela branca do Nada.


Esses bonecos de argila

Sufocados em mercúrio

Arrastados na maré da morte

Sob impiedosa indiferença

Clamam um último suspiro ao artista:

O protesto da pincelada comovida




Pivete e madame


Num ballet de passos rápidos

Move-se entre carros

Até encontrar a caça perfeita.


Um sorriso doce que esconde

Entre o pulso e a camisa

A faca – fria enferrujada lâmina.


Uma porrada no vidro

Destroços brilhante no asfalto

E no rosto de Madame

O gelo ameaçador do metal.


O tempo é relativo

Para Madame é como se o sinal

- eternamente parado –

Não saísse do vermelho.


Tão ágil sabe Pivete o que quer

Brilhando no pescoço alvo

O colar – pérolas feitas para adornar.


E a mão avança na bolsa

Susto e terror de Madame

Paralisada em desolado olhar.


E em novo ballet entre carros

Dança sua fuga o moleque sorrateiro

À luz fria do sinal amarelo.




Morre de Arlequim, de Picasso


Depois que ele morreu

- fechou os olhos –

Não se exibiu mais pelas ruas.

Os vivos prestaram atenção ao fato.


Foi a última homenagem feita ao morto

Testemunhar o evento fúnebre.

O Arlequim não regressará mais

Como criatura ligeira que era.


Só nos lembraremos dele na pintura.

Esse ectoplasma ainda pode ser visto

Em algum museu do mundo.




Luva de pelica


Esses possuidores de pura carne animal

Jamais conspurcados pelo intelecto

- jovens valentões, marinheiros, policiais, pescadores –

Olhá-los eternamente de longe – que se pode fazer?

Com apaixonada indiferença

Nunca trocar palavras com eles

No entanto – que verão intenso prometem

Se a graça nos for dada de tocá-los.




Vestiário


O cheiro rosa-pálido

Como o de leite quente com açúcar

Daquela multidão de meninos

Seus corpos nus à espera do chuveiro

Empurrando e se acotovelando uns aos outros

Com suas costas pálidas e bonitas

Cobertas de suaves penugens

De ombros impacientes e de peles aveludadas

Que se roçam no empurra empurra

E um deles tremendo em sua nudez

E em seu perene e violento desejo de VER

Empalidecido na antevisão do seu primeiro amor.




Elã vital


Quando o vi pela primeira vez

Meu coração levantou um clamor dentro do peito

Ele havia tirado a camisa

Sua pele clara parecia imaculada

Aquela escultura tão belamente desenhada

Nos arrojados contornos do peito e mamilos

Era de uma perfeição que só os gregos criaram na arte

Exalava um suor - gotas de diamantes sobre a pele -

Que poderia ser cheirado à distância

Ostentava uma indolência arrogante

Tão frequente nos possuidores de belos físicos

No seu rosto olhos faiscavam como se desafiassem o inferno

Suas pupilas refletiam as nuvens e o céu azul de verão

Nos seus braços fortes valeria a pena tatuar uma âncora

A admiração que causava em quem o via

Não era apenas pela beleza física

Era admiração pela juventude, pela vida,

Pela superioridade pródiga, luxuriante e impertinente

De uma energia profundamente esculpida

E que se espalhava cintilante, como a luz do sol,

Dos braços ao peito, do tronco às coxas.

Era a força da vida!

A abundante, pura e extravagante força da vida!

A vida em excesso, em transbordamento,

Com sua sensação de violência sem propósito,

A vida existindo por causa de si mesma

Em sua exuberância insatisfeita, negligente,

Ele não se dava conta disso

Da invasão furtiva da força que se apoderava do seu corpo

Que poderia se despedaçar através dele,

transbordando na sua carne, através de um brilho intenso.

Ah! Quantos meninos e meninas cambalearam para atrás,

Apenas ao olhar seu corpo movendo-se contra o ar

Quanto a mim, tive uma ereção

Desde o primeiro momento em que o vislumbrei

Contemplar seu corpo nu, era o que eu deseja

Que espartano movimento de autodisciplina

Me impunha o reverso de uma obsessão:

“Seja forte!”. No entanto, insano, eu estava pronto

Para deixar aquela força também se apoderar de mim,

Me fazer renunciar, voluntariamente, a todo o resto.



*“O princípio de uma força criativa governando a vida não pode ser negado. O dado primário – ou instintos irracionais – é a força vital criativa” - Wilhelm Reich com certeza sendo bergsoniano.




Funerária estelar


Aqui é o fim.

O início do Nada.

Os físicos estudam a possível

Eternidade dos átomos, mas...

Nossa matéria foi gestada

No interior das estrelas

Mas como estrelas morrem

O átomo terá também sua morte?


Frente aos olhos úmidos

Dos que se despedem

Deu corpo se funde com a terra

Em um abraço de partículas.


Esse acontecimento elementar

Te fará voltar àquele início

Como poeira cósmica cintilante?

És pó e ao pó voltarás?




Aurora boreal


Uma aurora boreal é sempre artificial

Tanto como um anúncio luminoso de Las Vegas

O vermelho – de um brilho incompreensível –

É uma cor de mentira.

Vê-se pulsar a emoção, como quando se está rodeado de mulheres,

Mas não como quando metido num avental de cozinha

Se lava pratos.

A cor pode cair como um estrondo,

Como quando lançamos fogo à própria casa.

E você, filmado em segundo plano,

Se enternecer como se encarnado

Na biografia de um cadáver.

Nada mais pode ser.


Uma aurora boreal é sempre artificial

Tanto como um anúncio luminoso de Las Vegas.

O vermelho – de um brilho incompreensível –

É uma cor de mentira.

Você pode se enternecer,

Vendo a cor cair como um estrondo,

Como quando lançamos fogo à própria casa.

Nada mais pode ser.




Torniquete hermenêutico


O moinho da interpretação

Sua verdade fechada como um punho

De um boxer desesperado no último round

Socando forte, rápido e dilacerante

Naquilo que é reservado, misterioso

E de sentido inverificável.


O que se cala

- Manter o silêncio é a arte –.

A opinião sobre isso e aquilo

Um mero grão de areia

Nunca a chave

Que abre a senha secreta.


Ah! O bastardo diante do rabo do cometa,

Da via- láctea, esse farol do céu,

Impossibilitado de navegar além

com chumbo incrustado na asa

Destroça a imagem cósmica

Com sua pata negra

Furiosamente derrotado

Pelo mistério

Sempre.




Corpo de bombeiro


“E eu já não tenho medo de me afogar

Conheço um moço lindo que é salva-vida”

(Caetano Veloso)



Não adianta se atirar nas ondas do mar

Que fim impossível você busca

Eles imediatamente aparecem

Corpos musculosos em sungas vermelhas

Que força e maestria no nado

E te seguram e te abraçam por trás

E roçam a pele queimada, firmeza dourada,

na sua brancura pálida

E o que mais se pode querer

Agora sim – sobreviver –

Você que queria morrer

Simula um desmaio

E espera o beijo da salvação

Daquele moço a perdição

Que te devolve o ar e te mostra

Como é doce ser salvo do mar.




Sob o sol de Paganini


Todo domingo escrevo um poema

para não me dar um tiro na cabeça.

Amasso os jornais lidos - ao lixo, merda!

Notícias do desamparo humano

invadem meu café da manhã

e nada têm a dizer aos meus cactos cultivados

nem às flores banhadas em sol radiante.

O desconforto em letras impressas

quer amargar as coisas da casa

enquanto as rosas exalam magnífico perfume.

Sob as peças mágicas de Paganini

- refúgio matinal e elevação –

deito a cabeça no encosto da poltrona

como quem delira de prazer

fugindo do apocalipse anunciado.

Letras impressas – notícias, apenas

notícias – jamais ganham a guerra

contra a Poesia.

Meu cão dorme à sombra da almofada macia.


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