• Revista Sphera

Sete poemas de Marcellus Salomon Bezerra

Atualizado: 4 de nov. de 2021


Frans Krajcberg



Referência na produção poética e musical contemporânea no sul do Estado de Minas Gerais, com parcerias com músicos como Ivan Vilela e Dércio Marques, Marcellus Salomon Bezerra, filho do poeta e letrista Gildes Bezerra, é um nome “em instância”, sobre o qual pouco se sabe nos últimos anos. Seu irmão, o também poeta e músico Fernando Salomon Bezerra, revela e apresenta aqui sete poemas que integram uma série de escritos inéditos de Marcellus. Abraspas:



Marcellus Salomon Bezerra nasce entre as montanhas do sul de minas, quase precisamente em Itajubá, no dia...

Reza a lenda que ao nascer não chorou, apenas saiu caminhando pela sala de parto, a procurar a porta mais próxima que o levasse ao descampado onde pudesse observar com atenção o azul da existência.

Tem o primeiro contato com a poesia através dos escritos do seu pai, Gildes Bezerra, a quem nunca se esmerou em copiar, encontrando prontamente uma voz poética própria, desde o deslugar que ocupava no mundo.

Inicia curso de Engenharia e posteriormente de Letras, mas não os concluiu, reservando sua busca pela precisão matemática e beleza da arte literária para a prática de escrever poemas e letras de canções em diversos cadernos, nos quais também desenha seu itinerário sobre a terra. Desenhos que, bem mirados, nos lembram um Arnaldo Baptista, um Kurt Cobain.

Leitura cuidadosa das paredes do seu quarto nessa época nos revelará que suas referências imediatas são Beatles, Stones, Krajcberg, Liszt e, creiam em mim, Thiago de Melo.

Quando bem humorado, quase sempre, Marcellus gosta de encontros sociais, não os com a multidão, mas com parceiros que sensivelmente compreenderam sua grandeza de poeta: Dércio Marques, Luiz Celso de Carvalho, Ivan Vilela (“Mana” e “Bem”, do disco “Hortelã”) e Omar Fontes (“Eles procuram um amor”, no disco “Um retrato”).

Quanto a outras referências, precisaremos ler com atenção seus poemas para descobrir.


Fernando Salomon Bezerra



Fechaspas. Apreciemos a lira de Marcellus, através de quem saudamos o artista plástico polonês naturalizado brasileiro Frans Krajcberg, morto aos 96 anos em 2017.


Anelito de Oliveira




Frans Krajcberg




Memória


O sal do sim,

O sim do sal,

o som dos sinos,

o mel do céu

amanheceu Palavra.


O sorriso na memória,

e a grafia da mulher

à flor da luz,

à flor da água,

no bouquet de rosas,

no bouquet do vinho.


Feito um tiê

que na beira da mata

olha o sertão.


02-05-94




Leão de Maio


Em ritmo de leões novos


Sendo o sal

no céu da boca

nós tiês, vós malabaristas.


Nestes vôos,

nestas ternas

emoções equilibristas.


Sendo Sal

junto à ceia

em silenciosa vida,

Jonas

da nuvem-baleia

minha gente bendiz viva.


Não perecerá louca

nem carecerá estar rouca

nem padecera por mal anarquistas.




Torre sob Éster


Os cantos de cór

encanto de tiê

no coração


Quando o vôo de nossos braços

à espera do amanhecer

mira nuvens consangüíneas


sonho beber o meu vinho com meu leite.


Em seguida desponta, no horizonte próximo,

a Íris anelada sol.


Coração, sejam-me os teus seios

como cachos da vinha.




Larissa


Lira, Lara, lira,

Lara baila

rarefeita nesta sala

toda farta de azul

ao luar do sul.

Lira para Lara

bailarina de tez clara,

das três falas da emoção

que a embala em gelo e gin

e no espaço da espera

do verdadeiro arlequim

a esquece sobre a flor

da pele nua.


Em seu sempre

entre o prazer e a sede

giram as quatro paredes

e Lara vaga, às vezes,

entre as vozes

de um mercado de Istambul.


Sonhos de valsar o amor são bons.

O que fazer ao se diluírem seus tons?


Lara em ais de amor,

em ás de espadas,

percorrendo madrugas

seguiu rumo a um velho cais.


Hoje é silêncio

no coração dos casais.




Formas e legados


Certa face do (?) (dreno?)

(Soltos os sons)

reverberam aflitos

corpos amorfos.

Outros sãos

seguem sós.


Barulhos

nos desvãos

das escadas.


(Cinza e cinza, negro, fosco e ferrugem.

Surdos vêem) ?


Como nós, quase nada além de sopro

que habita nestes corpos

entre esquinas e lembranças.


Soltas ao vento

(enquanto) dançam bonitas

as luzes dos corpos.


E desenham-se vagos

os contornos dos segredos

de homens tristes e felizes.




Ana


Ana saiu para passear,

olhava as casas

de janela empoeiradas.


O cansaço lhe fazia companhia,

o vento soprava em seu rosto

e queria estar um pouco triste.


Ana, Ana,

que não era Maria

que somente

Ana

ser saberia,


andava pela tarde num poema,


com dor de cabeça

avessa às coisas de pensar.




Krajcberg


Ele tem o quinhão

das almas ávidas

e a concentração dos eremitas.


suas mãos trabalham

definindo os limites da liberdade

através das cores de Itabirita.


Me vem em sinal de amor

da natureza grávida

este guerreiro pacifista


que

conquista a tantos corações.




Frans Krajcberg


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