• Revista Sphera

Três poemas de Afonso Henriques Neto

Atualizado: 14 de set. de 2021


Afonso Henriques Neto



Do incorpóreo inconsolado


Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo, - o Inconsolado,

Príncipe d’Aquitânia em torre sem valia:

É morta a minha Estrela, e no meu constelado

Alaúde há o Sol negro da Melancolia.


Gérard de Nerval


Contam que Nerval pediu alguns trocados

(não tinha nenhum tostão), jantou em um cabaré imundo

e então passou a andar a esmo na região

da rua Saint Jacques, naquele janeiro parisiense

com 18 graus abaixo de zero, e foi achado

ao amanhecer por passantes enforcado nas grades

de uma janela da rua Vieille Lanterne, lugar

algo sinistro, no dizer de Baudelaire a esquina

mais sórdida que pôde encontrar, mas tudo isso

acontecera desde sempre e permanece a ocorrer,

pois eu, você e este vizinho que passa

com o ruído que sobe da rua, nada disso existe, existiu

ou existirá na carta que o poeta deixou na cabeceira

da tia a que chamava de mãe, não me espere

no entardecer, pois a noite será negra e branca,

e se alguém continuar a explicar pelo olhar

da loucura vai dar com a cara na parede,

turva procura que é névoa estúpida a cuspir

sangue na esquina sórdida da madrugada, 18 graus

abaixo de nada, um gelo dos diabos que os livros, as vozes,

os tempos persistem nesse dizer que tudo é real,

que tudo insiste, enquanto até o incorpóreo inexiste,

o inconsolável desiste, a solidão é tanto mais terrível

quando nada significa, nada viste, estrela, vômito,

esganadura, os versos e as mitografias no pátio

mais deserto do infinito, sereia emudecida pelo próprio grito.




Relâmpagos podres


O plágio é necessário. O progresso o implica.

Segue de perto a frase de um autor, serve-se

de suas expressões, apaga uma ideia falsa,

substitui-a por uma ideia justa.


Lautréamont



Não deixem que apagados cabelos

brotem outra vez da cabeça decepada.

Não deixem que o poema puxe a carroça

dos sonhos destroçados.

Ou seria justo o contrário?

Lautréamont dizia que os juízos sobre a poesia

têm mais valor que a própria poesia.

Pois são a filosofia da poesia.

Esta não poderá prescindir daquela

mas a filosofia poderá dispensar a poesia.

Abra mão dos sinistros mistificadores

e o poema escorrerá nos gramados azuis do infinito.

Todo pensamento é uma pedra de azul imenso.

Uma espada de relâmpagos em chão de música coagulada.

O pensamento a empurrar no vento o poema imemorial.

Ou deixemos que apagados cabelos

brotem ainda nas cabeças condenadas.

O verso é este cogumelo espinhento

a nascer sobre os escombros de tantos outros desatinos.

Os nomes e os traços dos mortos se vão esquecendo

igual a essas folhas que se acumulam no chão

e logo são varridas por ventos insensatos.

Para quê tamanha destruição?

Por que tão louca repetição?

As coisas permanecem ano após ano

no eterno e absurdo diapasão

de folhas sobre folhas tocadas pela tempestade

que espedaça cada um dos espelhos

sob as imagens dos tormentosos fluxos

de um sangue a cobrir os nomes e os traços

de todos os mortos da terra.

A divindade sempre será algo sinistro e alto

pois jamais tocaremos seus jardins abomináveis.

Construímos um amontoado de casas soporíferas

imaginando espantar o sono

que se espalha em aranhas pustulentas

fluidos magnéticos a arranharem os extremos dos olhos

tal um ser hipnotizado que despedaça o silêncio

com uivos de carvão

antes que o silêncio cresça

sobre o horizonte opaco e decepe os braços abertos

para o amor que nunca alcançará a luz

nesses velórios abafados.

As palavras são relâmpagos podres

que imaginamos iluminados por uma violência

que a tudo deixará de rastros.

E ainda há quem diga que seremos julgados

nesta montanha de poeira que os ventos varrem

para além dos portões dos crematórios

bocarras prateadas e desdentadas

a se esfumarem por todas as esquinas

dessas cidades de esfinges e manicômios.

Não haverá alma que suporte tanta carnificina.

As palavras vazias escorrem detrás deste disfarce

de julgamento

desta farsa de um tribunal construído sobre ossos

e orgias de ópios vomitando abismos.

Os nomes e os traços dos mortos são centopeias sem pernas

que deslizam sobre as pústulas de prostituídos universos.

Por isso as religiões tentam abafar com perfumes tardios

os narcóticos miasmas de uma podridão sem remédio.

Os nomes e as digitais dos mortos se esquecem

nas estradas dos seres imaginários.

E os cogumelos crescem para a asfixia de todas as traqueias.

Uma voz a escorrer tal um rio gelatinoso

diz que nada é incompreensível

mas eu me volto para o punhal das pulsações em coma

que salta da nuvem de concreto e horror

e vem atravessar os corações assustados das andorinhas secas.

Tudo se torna então travessias sem sentido

e o pouco que tentamos compreender

se apaga nas nuvens de uma tempestade amordaçada.

E veremos os serafins que se apunhalam até os confins do tempo.

Se alguma divindade provocou a expansão inicial

deste universo de inimagináveis dimensões

emendado a outros que nem podemos sonhar

o certo é que os deuses deixaram que tudo trabalhasse

a esmo e ao cósmico vento sujo a se inchar

em cogumelos que sufocassem cada garganta

cada silêncio das cores sobre planetas do escombro.

O suicida então caminhou no vento em cãibras

dispôs no chão o casaco e outros pertences de treva

antes que os instrumentos tenebrosos fluíssem do inferno

e viessem arrancar a pele dos recém-nascidos

ao som dessas flautas de excrementos

sirenes da ausência de todos os sentidos.

Mesmo sabendo ser inútil entoar cânticos

para uma primavera saqueada por mortíferas aranhas

exigirei o carimbo que ninguém reconhecerá na testa

do primeiro morto no primeiro dia da criação

essa montanha de estrume para celebração das bactérias infecciosas

a ruminarem uma humanidade tombada nos iodos das infecções.

E será do alto das cordilheiras onde se esmagam espectros

que se entronizará o grito de Altazor, pois quantas vezes

serei Altazor, o imenso poeta,

cérebro forjado em verbos de profetas,

angústia semeada nas planícies dos olhos

na forma deste adorno de um deus alucinado?

Altazor ou Maldoror?

Navegar onde for.

Águias negras de uma gramática brutal

motores dos cadáveres em céus de estupor.

Cantos de Maldoror, fúrias de fervente cristal,

maldição a ganir além da dor.




Nevoeiro


que abriram buracos nos braços com cigarros

protestando contra o narcótico nevoeiro

de tabaco do capitalismo


Allen Ginsberg



No meio do nevoeiro de pesadelos

nesse centro do Rio de Janeiro em plena hora do almoço

quando funcionários de repartições e de empresas de todo tipo

se juntam a desempregados e a pederastas vagabundos

nas salas que recendem a mofo e amônia

onde se projetam clichês pornográficos

para chuparem michês a troco

de qualquer micharia sob uns verbos ocos

a guilhotinarem espectros devoradores de vertigens

No meio do nevoeiro fantasmático

nesse centro do Rio de Janeiro a qualquer hora

do dia ou da noite

onde prostituídos de todos os gêneros

vociferam para os céus vazios os vapores

de uma alucinação de oxigênios escarlates

coração de miasmas estarrecidos

Por todo o centro do Rio de Janeiro a ressoar

uma eternidade de lixeiras nauseabundas

miseráveis que se amontoam junto às crianças

despossuídas aviltadas estupradas

para mais uma jornada aos infernos de crânios arrasados

pela fome sem medidas e o abandono definitivo

Por todo o centro de todas as cidades do mundo

onde os esquecidos tragam a humilhação

desses vapores que jamais serão sublimes

e se jogam de alturas atônitas nos trilhos

dos metrôs a fabularem cavernas de realidades aos estilhaços

No meio do nevoeiro de todas as periferias sem paz

nessas cidades capitalistas a sugarem para o vórtice supremo

riquezas arrancadas junto com unhas e cabelos

da multidão que jamais será ouvida

senão nas inundações das tempestades amaldiçoadas

No meio do nevoeiro de obsessões

e delírios em que artistas equilibristas palhaços

de circo se misturam a poetas encharcados de infinito

todos a deblaterarem de encontro às nuvens envenenadas

sem que se possa salvar nenhum verso

nem mesmo um grito do último artista atropelado

pelas maquinarias que cospem edifícios-despenhadeiros

No meio do nevoeiro em que as cabeças

são cortadas ao som de saxofones telepáticos

nesse concerto infernal que irrompe de todas as bocas

de todos os músculos no caldo seminal do tempo

coberto de buracos e sopros abafados

Por todo o centro de janelas mortas e esquinas

amarfanhadas até o fígado das fábricas cujas almas

são intermináveis fúrias de óleos trevas & febres bem altas

Por todo o centro de sólidos silêncios

que aos poucos se tornam incorpóreos

maciços ventos derretidos de inexistências

êxtases absurdos para além de qualquer pensamento

pássaros possessos a transportarem nos trinados que anoitecem

bombas terroristas que cegarão todos os caminhos

junto com as epidemias que brilham

nas desolações incompreensíveis

em meio ao pranto dos tempos que espiam o além da morte

nessa forma de loucura a enxergar a outra dimensão do abismo

descascado pelos guinchos das ratazanas do escuro

correnteza de gerações que se diluem pustulentas

horto de suicídios e maremotos

da realidade mais selvagem nas mentes do absoluto

ausência radical de espelhos

que ousassem refletir alguma música dourada

alguma porcaria constelada

amálgama de exércitos dinheiros caveiras de políticos em pesadelos

sobre os telhados que se evaporam nas orações emudecidas

mundos transbordados nos labirintos dos desmantelos

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