• Revista Sphera

Cruz e Sousa: o desterro do corpo por Antonio Carlos Secchin

Atualizado: 10 de nov. de 2021


Selo Cruz e Sousa 1998



Há certas regiões de desterro na poesia de Cruz e Sousa que só a custo se deixam perceber, afogadas pelo espaço homogêneo e hegemônico de suas paisagens mais ostensivas. Uma dessas regiões encobertas, a meu ver, é a problemática do corpo. Mas, antes de explorá-la, apontemos, de modo sintético, o que de mais constante se diz sobre o poeta.

Considera-se bastante irregular a qualidade da matéria poética não reunida por Cruz e Souza em livro autônomo (entendendo-se por livros autônomos Missal, Broquéis, Evocações, Faróis e Últimos sonetos). Esse material, enfeixado na edição [1] a cargo da profa Zahidé Muzart sob a rubrica O livro derradeiro, engloba poemas da juventude e outros tantos da chamada fase madura, que mereceriam, certamente, integrar as obras principais do autor. Quanto aos textos iniciais, a crítica os descreve antes como tateios e vacilações poéticas do que propriamente como peças promissoras ou prenunciadoras do grande talento que mais tarde emergiria.


Num estilo escravo da poética de Castro Alves, o jovem João fez ecoar seu brado libertário e abolicionista, em versos de precário domínio técnico e elevado tom retórico, como se percebe na homenagem que prestou ao próprio mestre, intitulada “Ao decênio de Castro Alves” - Conferência pronunciada na Assembléia Legislativa de Santa Catarina em 26/11/1997, por ocasião da abertura das comemorações do centenário da morte de Cruz e Sousa:


Então na terra sentiu-se

Um grande acorde final!

O belo vate brasíleo

Pendeu a fronte imortal! (p. 299)


Registram-se ainda, no primeiro Cruz e Sousa, exercícios de lavor parnasiano, ou da escola realista, como à época se dizia. São textos de melhor acabamento, impregnados de um imaginário exótico (o paganismo romano, o amor medieval) e de um lirismo programaticamente anti-romântico, baseado numa carnalização absoluta do amor, entendido, às vezes, como um ramo da zoologia, conforme se lê nos versos2 de Carvalho Júnior:


Mulher! Ao ver-te nua, as formas opulentas

Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,

Como um bando voraz de lúbricas jumentas

Instintos canibais refervem-me o peito.


De maior envergadura é o grupo de poemas campesinos, também talhados com a espátula do anti-idealismo. Trata-se, em geral, de pinturas da vida simples, pontilhadas de um erotismo que aos poucos desvela sua índole maliciosa:


E que os teus dois seios puro

Que o amor fecundando beija

Fiquem cheios e maduros

Como dois bicos de cereja. ( 275)


Esse veio campesino, muito pouco estudado não só em Cruz e Sousa como na poesia brasileira em geral, constituiu-se, sem dúvida, em etapa importante no processo de desconstrução do discurso romântico, sendo de lamentar que seus principais cultores (Bruno Seabra e Ezequiel Freire, entre outros) estejam hoje relegados a um quase esquecimento.


A partir de Broquéis (1893) várias mudanças se operaram na poesia de Cruz e Sousa, sem que certos traços da produção inicial fossem de todo abandonados, Esses traços (penso, em particular, na questão do erotismo) conviverão, de modo dilemático, com forças contrárias, que tentarão abafá-los, mas que não conseguirão extingui-los. De Broquéis aos póstumos Faróis (1900) e Últimos sonetos (1905) assinala-se uma trajetória de progressiva abstratização da obra de Cruz e Sousa, marcada pelo ímpeto de transcendência e pelo coroamento da figura mística do poeta como condutor ou grande guia dos caminhos da salvação, mesmo que o preço da empreitada seja pago na moeda da vivência extremada da dor, concebida como estágio crucial na dinâmica de purificação do ser humano.


Na fortuna crítica do poeta, com destaque para as publicações organizadas por Afrânio Coutinho,[3] Iaponan Soares [4] e Zahidé Muzart [5], quase todos os críticos reafirmam o posto de Cruz e Sousa no âmbito da literatura brasileira: o de maior escritor simbolista. Alguns querem mais: querem-no precursor da moderna poesia do país, pela influência exercida em Augusto dos Anjos e (como observaram Gilberto Mendonça Teles [6] e Ivan Teixeira [7] em decorrência de afinidades entre o poeta catarinense e certos aspectos da poética de Mário de Andrade. Eu talvez queira menos, isto é, que não se veja em Cruz e Sousa o simbolista ou o prenunciador do modernismo, e sim um autor menos monolítico no trono do simbolismo e aberto a tensões e contradições que, fazendo-o menos ortodoxamente simbolista, nem por isso o fazem menor poeta. O grande artista sempre relativiza os dogmas do estilo em que se inscreve; cabe aos menores acreditar demais em tudo aquilo. A convicção extremada é o primeiro passo do fanatismo, tão funesto na arte quanto em outros domínios. Uma voz clandestina procura, mesmo à revelia da vontade do autor, relativizar o que seu discurso possa conter de dogmático. É isso que tentarei demostrar, retomando o que no início se anunciou: é preciso ouvir as vozes veladas de Cruz e Sousa, que, longe de serem veludosas, são ásperas e incômodas. Com isso, proponho uma leitura assumidamente parcial de sua obra, porque, do conjunto, vou apossar-me de uma parte – sem, todavia, querer fazer passá-la pelo todo. Voz clandestina, como sugeri, e que reinividica o direito de coexistir com versões mais assentes e de pretensões totalizantes. O que se almeja enfatizar é que a poesia de Cruz e Sousa incorpora também uma nostalgia da matéria, uma celebração – de início, orgiástica; depois, elegíaca – da ostensividade do corpo; esse fio - literalmente – de alta tensão atravessa toda sua obra, das primícias aos Últimos sonetos. Contra essa hipótese há o fato de que a palavra “alma” (ou “almas”) aparece 7 vezes nos 54 poemas de Broquéis, e nada menos do que 128 vezes nos 96 textos dos Últimos sonetos. Tal latifúndio anímico (1,31 alma por soneto) desautorizaria, em princípio, quaisquer considerações acerca da nostalgia da matéria: sobra espírito e falta corpo em Cruz e Sousa. Convém lembrar, todavia, que com freqüência denegamos não o que nos oprime, mas aquilo que nos seduz; dizemos um não externo ao sim implícito. Em apoio a tal raciocínio, leiamos alguns trechos do mais famoso texto em prosa do poeta, “O emparedado” [8]:


[A Arte] Era uma força oculta, impulsiva, que ganhara já a agudeza picante, acre, de um apetite estonteante e a fascinação infernal, tóxica, de um fugitivo e deslumbrador pecado [...] a chama fecundadora, o eflúvio fascinador e penetrante que se exala de um verso admirável [...] aqueles que, na Arte, com extremo requinte de volúpia, sabem transcendentalizar a Dor.


Eis aí os termos da cisão fundamental: de um lado, a ânsia de transcendência; de outro, a volúpia da forma. A poesia é diáfana, o poema é carnal. Para chegar a ela, urge atravessá-lo e a viagem trará todas as marcas dos prazeres e tormentos – ou, se preferimos, dos tormentosos prazeres.


Emparedado entre o éter do espírito e o álcool do corpo, o verso de Cruz e Sousa transforma-se no território de batalha entre ambas as forças. No final, o espírito assume ares de vitorioso (128 almas, não esqueçamos), mas o poeta necessita o tempo todo clamar que o corpo é ruim, para, quem sabe, à força da repetição, acabar se convencendo disso. O rebaixamento do desejo à esfera do animalesco é uma das estratégias adotadas, mas como conciliá-la com a confissão de que a arte nasce do impulso desejante?


Retornemos aos textos de Cruz e Sousa anteriores a Broquéis. Lá se localizam poemas que nem de longe indiciam o futuro reino soturno e noturno do poeta. Referimo-nos à já citada série das “Campesinas”, com seu lirismo solar e seu apego ao espetáculo sensível do mundo. Em “Ao ar livre” lê-se:


Podes olhar as esferas,

Com ar direto e seguro,

De frente para o futuro,

De lado para as quimeras.

Não tenhas cofres avaros

De santos — na luz te afaga,

E a alma arremessa e joga

Por esses páramos claros. (p.268)


Em tal ambiente feito de luz não cabe a névoa do mistério:


Canta ao sol, como as cigarras,

A tua nova alegria.

No Azul ressoam fanfarras

Da grande vida sadia. (“Renascimento”, p. 271)


Nem tudo, decerto, segue o mesmo diapasão; mas o prazer sem culpa e o viver sem transcendência reaparecem em vários momentos. Assim no “Pássaro marinho”: “Trazes na carne um reflorir de vinhas,/ Auroras, virgens músicas marinhas,/ Acres aromas de algas e sargaços” (p.253); e em “Canção de abril”: “Solta essa fulva cabeleira de ouro./ E vem, subjuga com teu busto louro/ O sol que os mundos vai radiando e abrindo” (p.249). À guisa de contraste, assinale-se que o enlevo amoroso do poeta já encontra uma barreira de natureza étnica em “Eterno sonho”, quando uma voz feminina declara: “– Ah! bem conheço o teu afeto triste.../ E se em minha alma o mesmo não existe,/ É que tens essa cor e é que eu sou branca!” (p.235). A configuração predominante do corpo feminino na obra de Cruz e Sousa comparece no soneto “Satanismo”: “Não me olhes! Oh! não, que o próprio inferno/ Problemático, fatal, cálido, eterno,/ Nos teus olhos, mulher, se foi cravar!” (p.214). O inferno não é mau: é problemático, porque representa a sede e a sêde do desejo. Seria cômodo atribuir o mal à serpente-mulher; o problemático é que o desejo habita não só no ofídio, mas também no olhar masculino que serpenteia em torno da mulher. Esse jogo recíproco de enleios eróticos expressa-se sem subterfúgios em “Aspiração”:


Quisera ser a serpe astuciosa

Que te dá medo e faz-te pesadelos

Para esconder-me, ó flor luxuriosa,

Na floresta ideal dos teus cabelos. (p.251)


Como tentativa de estancar o clamor do corpo, desenha-se a alternativa de imaterializar a matéria no soneto “Magnólia dos trópicos”: “O teu colo pagão de virgens curvas finas/ É o mais imaculado e flóreo dos altares”(p.254) e em “Hóstias: “Nos arminhos das nuvens do infinito/ Vamos noivar por entre os esplendores”(p.254). Em contraponto opositivo a essa rarefação do corpóreo situa-se a erotização do incorpóreo, no soneto “Harpas eternas”, com seus anjos cujas “/.../harpas enchem todo o imenso espaço/ De um cântico pagão, lascivo, lasso,/ Original, pecaminoso e brando...(p.262).


Ainda no âmbito dos poemas dispersos, vale citar “Espiritualismo”, onde – releve-se o paradoxo – o espírito “sobe” para baixo, isto é, a “elevação” humana não é encarada pelo prisma ascensional, mas pelo da profundeza:


Ontem à tarde, alguns trabalhadores,

Habitantes de além, de sobre a serra,

Cavavam, revolviam toda a terra,

Do sol entre os metálicos fulgores.

/ ... /

E pareceu-me que do chão estuante

Vi porejar um bálsamo de seivas

Geradoras de um mundo mais pensante. (p.244-5)


Destaque-se também “Arte”, considerado uma espécie de versão preliminar da famosa “Antífona”, e em cuja primeira parte Cruz e Sousa endossa uma luta concreta, material, com as palavras, em consonância com o que faria, muito mais tarde, João Cabral de Melo Neto. Em Cruz e Sousa:


Busca também palavras velhas, busca,

Limpa-as, dá-lhes o brilho necessário

E então verás que cada qual corusca,

Com dobrado fulgor extraordinário.

Que as frases velhas são como as espadas

Cheias de nódoas de ferrugem, velhas (p.353)


Em João Cabral [9], falando de poetas:


Os homens que em geral

lidam nessa oficina

têm no almoxarifado

só palavras extintas:

/ ... /

palavras que perderam

no uso todo o metal


Muitos dos procedimentos elencados na poesia dispersa serão retomados em Broquéis. O mais ostensivo, do ângulo que nos interessa, é o da satanização do desejo, metonimicamente identificado com o corpo da mulher. “Lésbia”, “Múmia” e “Dança do ventre” são demonstrações cabais do fenômeno. Do primeiro: “Lésbia nervosa, fascinante e doente,/ Cruel e demoníaca serpente/ Das flamejantes atrações do gozo”(p.33). Do segundo:


Múmia de sangue e lama e terra e treva,

Podridão feita deusa de granito,

Que surges dos mistérios do infinito

Amamentada na lascívia de Eva. (p.33)


Do último:


Ah! que agonia tenebrosa e ardente!

Que convulsões, que lúbricos anseios,

Quanta volúpia e quantos bamboleios,

Que brusco e horrível sensualismo quente. (p.49)


Horrível? Não se sabe o que se destaca: se o horror, se o fascínio. A invectiva parece fazer parte do jogo erótico, parece condimentá-lo prazerosamente com o mel e o sal do mal... Em “Serpente de cabelos”, o poeta registra:


Luxúria deslumbrante e aveludada

Através desse mármore maciço

Da carne, o meu olhar nela espreguiço

Felinamente, nessa trança ondeada. (p.56)


Alguns poemas, sem renunciar ao erotismo, procuram explicá-lo não pelo caldeirão do inferno, mas pela caldeira dos trópicos. É o caso de “Afra” com sua “Carne explosiva em pólvoras e fúrias” (p.44) e de “Tulipa real”: “Deslumbramento de luxúria e gozo,/ Vem dessa carne o travo aciduloso/ De um fruto aberto aos tropicais mormaços.”(p.47)


Não nos vamos deter naquilo que anteriormente se demonstrou: a imaterialização do corpóreo (“Em sonhos” e “Incenso”), a erotização do etéreo (“Regina Coeli”), a confissão de que a serpente é também, ou primordialmente, masculina (“Lubricidade”). Sublinhemos, porém, o processo de fragmentação do corpo desejado, ora (machadianamente) reduzido a “Braços”,


As fascinantes, mórbidas dormências

Dos teus abraços de letais flexuras,

Produzem sensações de agras torturas,

Dos desejos as mornas florescências. (p.36);

ora sinestesicamente transformado em voz:


Mais claro e fino do que as finas pratas

O som da tua voz deliciava...

Na dolência velada das sonatas

Como um perfume a tudo perfumava.

(“Cristais”, p. 53)


Incapaz de esquivar-se ao império da matéria, o poeta revela o desejo de congelar o desejo, seja através das “Dormências de volúpicos venenos/ Sutis e suaves, mórbidos, radiantes” (p.31), nos versos de “Antífona”, seja, de forma inequívoca, em “Siderações”:


Para as Estrelas de cristais gelados

As ânsias e os desejos vão subindo.

Galgando azuis e siderais noivados

De nuvens brancas a amplidão vestindo...(p.32)

Ao corpo fragmentado em Broquéis sucede o corpo dilacerado em Faróis, sem que, aliás, a fragmentação deixe de comparecer no novo livro, num subgrupo de poemas que inclui “Boca”, “Seios” e “Pés”. O poeta, é verdade, não desceu ao inventário microscopista de outro escritor catarinense, Luís Delfino,10 que retalhou em 22 partes a anatomia feminina, chegando a cinzelar sonetos especificamente destinados ao cotovelo e aos supercílios...


Num raro momento de ironia, Cruz e Sousa arquiteta um duelo-diálogo entre Deus e o diabo, em “Spleen dos deuses”. Na derradeira réplica, Satã afirma: “Se és Deus e já de mim tens triunfado,/ Para lavar o Mal do Inferno e a bava, / Dá-me o tédio senil do céu fechado...(p.121). Entenda-se, é claro, um céu pacificado, sem as convulsões do desejo; por isso tedioso, senil, fechado. Igualmente rara torna-se a configuração eufórica do erotismo, conforme se lê no soneto “Corpo”: “E as águias da paixão, brancas, radiantes,/ Voam, revoam, de asas palpitantes,/ No esplendor do teu corpo arrebatadas! (p.125). Na maior parte dos casos, o erotismo é maléfico, e tangencia o território da morte:


Quem teu aroma de mulher aspira

Fica entre ânsias de túmulo fechado...

Sente vertigens de vulcão, delira

E morre, sutilmente envenenado.

(“Flor perigosa”, p.131)


A radicalização dessa perspectiva, em Faróis, leva a uma série de textos acerca da doença da agonia, da morte e da carga de repulsa ou atração que esses estágios podem provar no ser humano. Em “Caveira”


Boca de dentes límpidos e finos,

De curva leve, original, ligeira,

Que é feito dos teus risos cristalinos?!

Caveira! Caveira!! Caveira!!! (p.86)


e em “Inexorável”


O teu nariz de asa redonda,

De linhas límpidas, sutis,

Oh! há de ser na lama hedionda

O teu nariz de asa redonda

Comido pelos vermes vis?! (p.101)


não é difícil rastrear uma linhagem e uma linguagem que desaguarão em Augusto dos Anjos – a declaração da morte sem futuro, aliada à volúpia da nadificação. O poeta parece comprazer-se com o espetáculo da decadência, com a destinação irrecorrível da lama humana. No soneto “Enclausurada”, depois de consignar que “Teu corpo tinha a embriaguez dos vícios”, arremata, com certa crueldade: “Por onde eternamente enclausuraste/ Aquela ideal delicadeza de haste,/ De esbelta e fina ateniense antiga? (p.96-7). O aniquilamento, porém, é insuficiente para obstar o fluxo do desejo: ele se infiltra mesmo em espaços que aparentemente lhe são interditos, como a dizer que seu império ultrapassa toda fronteira, inclusive a da vida. É o que se lê em “Piedosa”, onde se antegoza a morte da amada:


E sinto logo esse supremo e sábio

Travo da dor, se morta te antevejo,

Essa macabra contração de lábio

Que morde e tantaliza o meu desejo. (p.110)


Um passo além e eis-nos na atmosfera fetichista e necrófila de “Pés”: “Pés que bocas febris e apaixonadas/ Purificaram, quentes, inflamadas,/ Com o beijo dos adeuses soluçantes”. (p.125)


E como todas essas questões se cruzam no derradeiro – e mais espiritualizado – livro de Cruz e Sousa, os Últimos sonetos? Seguindo a trilha das obras pregressas, Cruz e Sousa convoca o desejo para tentar exorcizá-lo – e acaba por admitir-lhe uma irresistível atração; basta citarmos “Vinho negro”:


O vinho negro do imortal pecado

Envenenou nossas humanas veias

Como fascinação de atras sereias

De um inferno sinistro e perfumado. (p.169)


Ou “Demônios”:


É um grito infernal de atroz luxúria,

Dor de danados, dor de Caos que almeja

A toda alma serena que viceja,

Só fúria, fúria, fúria, fúria, fúria! (p.180)


A veemência acintosa da condenação se transmuda em suave discurso quando o poeta se alça das profundezas e se põe a galgar o Empíreo, consolando e acolhendo os espíritos eleitos. É de salientar, todavia, que ainda na celeste esfera os signos do corpo, tão estigmatizados, se farão presentes, conforme já ocorrera nos livros anteriores. No poema “Livre!” a alma, desencarnada, pode enfim gozar “Fecundas e arcangélicas preguiças”(p.158), acedendo àquilo que possivelmente se condenaria no corpo: a preguiça. Noutro texto, o “Coração confiante” se embebeda “no celeste vinho/ da luz”(p.164), apartado que está do demoníaco vinho da adega... Em “Asas abertas”, o poeta assegura: “Mas na minh’alma encontrarás o Vinho” (p.173). Pelos exemplos, percebemos que todo o espaço etéreo é permeado de signos evocadores de um prazer material, recalcado na manifestação terrena e recuperado no plano cósmico.


A própria noção de transcendência – eixo do livro, segundo a maioria dos críticos – sofre alguns abalos, discretamente disseminados em poemas que se contrapõem ao afã salvacionista do conjunto. É o caso de “Ironia de lágrimas”, “Consolo amargo” e “A morte”, onde ao fenômeno da extinção Cruz e Sousa não acrescentou a mínima esperança de resgate. É o caso de “Só”, que estampa uma solidão humana irredutivelmente vedada à compreensão do Outro. Em “Triunfo supremo” lê-se uma apologia da capacidade humana, tecida em meio a uma série de provações e mortificações de caráter profano. Nenhum bálsamo compensatório, nenhum degrau do paraíso é prometido ao poeta, que “entre raios, pedradas e metralhas/ Ficou gemendo mas ficou sonhando! (p.194)


Na sua obra, vimos, portanto, que o asilo no espírito foi incapaz de promover o exílio do corpo. Corpos de mulheres imaginárias, ou de sua inesquecível esposa Gavita. Corpo textuais, seus versos – também tecidos de volúpias e minúcias.


Sua recompensa póstuma é também esta, que nos faz reunir a todos, aqui em Florianópolis, no dia 26 de novembro de 1997, pretensamente para comemorar-lhe o aniversário de morte ­­– porque, a rigor, só se comemora a morte de quem, de algum modo, foi capaz de vencê-la. Só se comemora a morte de quem, “entre raios, pedradas e metralhas”, está vivo. Cruz e Souza está.







Notas


1 SOUSA, Cruz e. Poesia Completa, introd. e org. Zahidé Muzart. 12.ed. Florianópolis: FFC:FBB, 1993. Salvo menção expressa, todas as citações de Cruz e Sousa serão extraídas desta edição, seguidas do número da página em que os textos se encontram.

2. CARVALHO, Júnior, Francisco Antônio de. Antropofagia. In: Parisina. Rio de Janeiro: Tipografia de Antônio Gonçalves Guimarães & Cia, 1872 p.89. Atualizamos a ortografia.

3 COUTINHO, Afrânio, org. Cruz e Sousa, coleção Fortuna Crítica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

4 SOARES, Iaponan & MUZART, Zahidé, org. Cruz e Sousa: no centenário de Broquéis e Missal. Florianópolis: FCC, 1994.

5 MUZART, Zahidé, org.. Cruz e Sousa, Revista Travessia n.º 26. Florianópolis, Editora da UFSC, 1993.

6 TELES, Gilberto Mendonça. Ondula, ondeia, curioso e belo. In: MUZART, Zahidé, op.cit. (1993), p. 73-101.

7 TEIXEIRA, Ivan. Introdução. In: SOUSA, Cruz e. Missal. Broquéis. São Paulo: Martins Fontes, 1993, p.IX-XXXIX.

8 SOUSA, Cruz. O emparedado. In: Evocações. Rio de Janeiro: Tipografia Aldina, 1898, p. 356-91. Atualizamos a ortografia.

9 MELO Neto, João Cabral de. Uma faca só lâmina. In: Poesias completas, 3.ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979, p.196.

10 DELFINO, Luís. Poemas escolhidos, sel. e introd. Nereu Corrêa. Florianópolis: FCC, 1982, p.72-93.

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