• Revista Sphera

Seis poemas de José Américo Miranda

Atualizado: 14 de set. de 2021

Meus poemas dos outros


I

Ruge, ribomba, estala

(Haicai decassilábico-fluminense)


Ah! parece-me um tigre!

ela murmura,


Mas do mar aos meus olhos a figura


Faz-me lembrar

o coração humano.


[Alberto de Oliveira]



II

A sombra do amor

Que sombra é essa que não deixa Amor?

Onde ele chega e para, a sombra para.


Coração que o abriga satisfeito

Há de abrigar a sombra que o persegue:

É o ciúme, o ciúme –

Sombra do Amor que as almas entristece.


Mas que ressaibo deixa o Amor nas almas!


Foi-se por entre os laranjais em flor

Soprando a frauta como um deus silvestre.


[Coelho Neto]



III

O ato de Raul Pompéia


A piedade veio realçar o ato,

Com aquela única lembrança

Do moribundo de dois minutos,

Pedindo à mãe que acudisse à irmã,


Vítima de uma crise nervosa.


[Machado de Assis]



IV

Meu caro Machado


Interponha os seus bons ofícios

perante quem competir

para que nós


pobres moradores da Boca do Mato

no Méier


tenhamos água

em maior abundância

e em horas menos impróprias.


Por quem é,

proteja as batatas que estou plantando.


[José Veríssimo]



V

D. Pedro I a D. Domitila de Castro


Cheguei à casa, tomei a tizana,

e obrei até agora cinco vezes,

e muito.


Já não te ofereço o coração porque é teu.


Remeto-te

esses passarinhos que matei ontem

e esses botões de rosas e abraços e beijos.


[D. Pedro I]



VI

D. Domitila de Castro a D. Pedro I


Fique V. M. na serteza

que serei eternamente grata

a tantos Beneficios que le devo.


Eu não perciso de conçelhos

Não sou como V. M.


Eu tive criação

cei conservar a minha palavra.


Peso-lhe não me incomode mais.


[D. Domitila de Castro]




Nota do Autor


Decididamente, nenhuma palavra é minha. Estes meus “poemas dos outros” são mesmo dos outros. Eu os fui colhendo nas obras dos autores, à medida que os lia. Onde a poesia? Às vezes na ideia ou na imagem, às vezes no ritmo.

Quando o autor era poeta, como no caso de Alberto de Oliveira, apenas tomei-lhe um fragmento, dispondo as palavras segundo a minha intuição de como aquilo seria dito no meu tempo (o original era um soneto!).

Se as palavras eram de prosador, posso ter suprimido alguma coisa (já nem me lembro; mas evitava fazer isso o quanto podia), mas nada acrescentei.

Se o tema era grave, como no caso de Machado de Assis (e Raul Pompeia), dispus as palavras em fileiras cerradas, como eram os versos de antigamente; no caso de Coelho Neto, os versos estavam lá, decassílabos e seus quebrados, vizinhos uns dos outros, na prosa do dele – apenas estendi a mão e os colhi; a disposição que lhes dei foi a que tradicionalmente se dava à combinação de decassílabos com hexassílabos.

Se o tema era leve, dispus as palavras mais livremente na página, em linhas dispersas, espacejadamente, à moderna, segundo certo ritmo intelectual, que julgo ter notado nelas (foi o caso de José Veríssimo). Da correspondência de d. Pedro I com sua amante, a marquesa de Santos, tomei o que havia lá de escatológico: a diarreia do imperador e o quase analfabetismo de sua amante. Suponho (e espero) não ter errado na transcrição da ortografia da marquesa (que não tirei de manuscrito, mas de livro impresso – portanto, de texto que era já leitura e transcrição de interposta pessoa).

É operação difícil extrair um poema de um poema (cirurgia a que submeti um soneto de Alberto de Oliveira); mais fácil é fazê-lo de um texto em prosa (caso dos restantes cinco poemas).

Prosas rendendo versos. Prosa rendendo poesia. Pode-se falar em poesia da prosa, como de ritmo (pois há ritmo na prosa, como pode haver poesia).

Para alguns prosadores versos mais parecem uma diversão – veja-se Guimarães Rosa (autor não contemplado aqui); a outros repugna essa mistura, porque correspondem a concepções ou teorias diversas – veja-se Machado de Assis.


[José Américo Miranda]



José Américo Miranda

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