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“Negro”, antologia de textos de Cruz e Souza, por Paulo Clóvis Schmitz

Atualizado: 10 de nov. de 2021


Retrato de Cruz e Sousa, desenho de 2016 – ©Felipe Stefani



Como toda leitura de Cruz e Sousa (1861-1898), esta também é pungente, dolorida. Talvez até mais que outras, porque as páginas de “Negro” trazem um poeta e prosador expondo a própria carne flagelada, em textos escolhidos pela temática da negritude, da qual ele não fugiu ao longo da vida atribulada. A obra sai pela Caminho de Dentro Edições e está na lista dos livros indicados para leitura com vistas ao vestibular da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) do ano de 2018.


A maior parte do volume contém poemas escolhidos, a prosa deixada pelo autor simbolista e correspondências em que discorre sobre vários temas – mas, outra vez, ressaltando a condição de negro numa cidade tacanha e excludente como era Desterro, antigo nome de Florianópolis, na segunda metade do século 19 (e mesmo o Rio de Janeiro, onde viveu seus últimos anos). A questão da raça está ora clara, em artigos sem meias palavras, ora implícita, fazendo referências à beleza negra, às monjas, às núbias que perpassam boa parte da obra de Cruz e Sousa.


“Há muita sensualidade, mas também tristeza com a cor e a raça, com as crianças negras sem oportunidades, com o preconceito que atingia as meninas nas casas de família”, diz a professora Zilma Gesser Nunes, responsável pela organização, introdução e notas do livro. “A escrita de Cruz e Sousa era um grito em defesa da raça, porque ele se identificava como negro”.


No período em que o poeta viveu no Desterro, o preconceito era visto com naturalidade, em função das ideias vigentes que respaldavam esse comportamento. A ironia presente em muitos textos esconde uma grande revolta, quando não um enorme sofrimento, com tal cenário. Para os leitores, dói saber que o poeta genial morreu pobre, tuberculoso, anos após ter-lhe sido negado o direito de assumir uma função pública na comarca de Laguna, que não o aceitou por causa de sua cor.


Um dos contos é “Consciência tranquila”, sobre a morte de um escravo. “Emparedado”, o maior texto do livro, é um grito sobre a impotência do homem diante de um sistema que o oprime. Nas cartas, ele reclama de situações absurdas relacionadas à sua situação ou pede dinheiro a amigos para sobreviver. Os poemas são pequenas joias que justificam sua condição de maior simbolista brasileiro, comparado no mundo a Paul Verlaine e Charles Baudelaire. O abolicionismo é um tema que ele tangencia com obstinada frequência.


Mesmo gozando de menos prestígio que Castro Alves, Augusto dos Anjos e Gregório de Mattos, Cruz e Sousa “foi mais intenso e mais ousado”, porque “escrevia com o corpo inteiro”, na visão do poeta Alcides Buss, criador da editora Caminho de Dentro. Ser negro e catarinense atrapalhou muito – o Estado nunca se esforçou para conferir o devido reconhecimento ao simbolista.


Zilma Gesser Nunes não se limitou a coletar os poemas, cartas e textos em prosa no que havia sido reunido anteriormente, em terras catarinenses, por estudiosos como Iaponan Soares e Lauro Junkes. “Ele falava cinco línguas, e muita coisa estava dispersa em jornais”, diz a professora, destacando os pequenos contos com dedicatórias e uma série de histórias que não estavam nas edições anteriores de suas obras reunidas. Com tudo isso, a organizadora diz que o autor de “Missal” e “Broquéis” (únicas obras que publicou em vida), mais de 120 após a morte, “tem uma atualidade impressionante”.

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