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O Mestre Risonho de Chicala

Atualizado: 4 de jan.

Anelito de Oliveira


A régua para medir artista de qualquer ofício é o desejo. Quanto maior o desejo de criar, maior o artista: Cruz e Souza, Aleijadinho. O desejo se converte em fonte absoluta de criação. Torna-se também uma referência importante de distinção. Artista mesmo é aquele que deseja demais. A maioria que apenas deseja ainda não é Artista. Muitas vezes sequer tem o sentimento sincero do que vem a ser isso. Permanece comumente num lamentável auto-engano.


Em Luanda, a Capital da República de Angola, mora um Artista. Grande, imenso, extraordinário. Seu nome artístico: Etona. Não apenas um pseudônimo, mas uma metáfora. Nesta, com esta, assinala-se o desejo de António Tomás Ana ir além de si mesmo. Seu desejo de transcender a esfera pessoal em prol de uma comunidade. “Etona” referencia um “ethos” angolano que fundamenta uma ética da tolerância africana. A compreensão do sentido dessa palavra é a porta para a compreensão de uma Obra arrebatadora.




“Etona” tem um rol de significação que envolve três das línguas faladas por grupos étnicos do norte angolano: Bakongo, Umbundo e Nyaneka. Em Kikongo, língua do grupo Bakongo, “Etona” significa “bandeira”, “marca”, “evidência”, “razão”. Em Umbundo e Nyaneka, dizem “etonolo” ou “etonuilo” para significar “alegação”, “razão”, “indulgência” e “tolerância”. São sentidos constitutivos da consciência de Tomás Ana, nascido no Soyo, município da Província do Zaire, no norte de Angola, em 1961.


A Obra de Etona, composta por pintura e escultura, vem sendo amplamente divulgada desde 1991 dentro e fora de Angola. Foram inúmeras exposições individuais e participações em coletivas na África, Europa, Estados Unidos e outros tantos países. No Brasil, teve uma exposição no Consulado de Angola em 2004. A força revolucionária dessa Obra provocou um pujante movimento filosófico em processo há quase duas décadas em Angola: o ‘Etonismo”.




O principal teórico do movimento é o historiador, filósofo e ensaísta Patrício Batsikama, também natural do Norte de Angola, da localidade de Maquela do Zambo, na Província de Uíge. Entre suas várias publicações que procuram fundamentar o “Etonismo” a partir da Obra de Etona, está Etonismo:uma filosofia da arte sobre a razãotolerante (Editora Pensador, Rio de Janeiro, 2009). Batsikama articula filosofia, antropologia e semiótica para sustentar a produtividade da obra de Etona na operacionalização da vida social angolana atual, atravessada por conflitos que radicam nos quase cinco séculos de vigência do Colonialismo português.


A potência material da Obra de Etona é índice bastante eloquente da centralidade da experiência histórica comunitária. A Obra nasce de uma necessidade premente de inscrição dessa experiência, como forma, por isso mesmo, tumultuada. O Artista não se empenha na lapidação da matéria bruta, de modo a atender às expectativas da tradição cultural burguesa, esteticista. Empenha-se na escavação – na escultura – ou na dissipação – na pintura – de camadas complexas dessa matéria. Seu gesto, por isso mesmo, instaura uma complexidade cognitiva que vem a ser a sua própria política de produção de uma consciência realmente revolucionária.




Dos sentidos originários de “etona”, aquele que sem dúvida reluz na Obra do Artista como princípio criador é o de “marca”, de sinal, vestígio. A Obra de Etona exibe a marca de uma percepção altamente generosa da história, desprovida de reducionismos ideológicos, a despeito de sua força pedagógica, formadora. Trata-se de marca de “tolerância” de si, em primeiro lugar, do outro e, sobretudo, das relações que se processam socialmente. Nada é incompreensível, tudo faz parte do jogo da vida, motivo pelo qual os conflitos podem e devem ser enfrentados, negociados, superados.


Estas notas apressadas, que faço nesta última semana deste terrível 2022, resultam especialmente das conversas com Etona em recente estada em Luanda. Foi-me apresentado pelo poeta e amigo de longa data Abreu Paxe. Eu já tinha utilizado algumas reproduções de suas pinturas para ilustrar poemas de Paxe que publicamos em 2014 no blog Revista Orobó (www.revistaorobo.com). Estive visitando o Ateliê de Etona por duas vezes no bairro de Chicala, bem como estive com ele no Restaurante-galeria Alma, onde algumas de suas esculturas estão expostas.




No sábado 10/12, quando visitei Chicala pela terceira vez, fotografei a monumental escultura “O banco”, que fica exposta bem na porta do Ateliê de Etona, onde foi executada. Narra, com sutil ironia, a condição do povo angolano, bem como dos subalternizados em geral num mundo injusto, onde prevalece a lógica da escravidão. Ontem como hoje, o povo é o banco sobre o qual os poderosos se sentam prazerosamente. A Obra coloca o todo social em relevo, exibe um conjunto de indivíduos imbricados, para que possamos operacionaliza-lo criticamente. O marco inicial desse processo é a desnaturalização do próprio olhar, a responsabilização por aquilo que se está vendo.

Etona se recusa lapidarmente a teorizar sobre o próprio trabalho, e assim mesmo afirma sua resistência a ocupar um cômodo lugar de fala institucional como se tornou comum entre artistas ocidentais. Limita-se a dizer, em termos evidentemente afins da teoria, que tudo é jogo, que precisamos aceitar isso, que o sujeito social angolano precisa aprender a jogar também. Sem dúvida – e acrescentei várias vezes ao ouvi-lo: o sujeito social negro precisa aprender a jogar. Fotografando “O banco”, pensava e lhe dizia: todo jogo tem suas regras, normas, “nomos”, e o que se busca é organizar o social, a cultura, o comum, a casa, o “oykos”, de modo mais justo.



Anelito de Oliveira conversa com Etona no seu ateliê em Chicala (Luanda).

Crédito: Ateliê Etona



Assim, “O banco” dispõe a economia simbólica de uma Obra que assombra de tanta lucidez. A fusão entre dimensões empíricas e racionais concorre para a fertilidade desse processo criativo. Arte que não se compraz com convicções pessoais, que se abre para uma interação viva com o público. Ao receptor “pertence”, em última análise, a chave para entrar na casa- história e alterar suas regras, instaurar novos jogos, novas economias simbólicas de sentido. Mas os “black players” – eu penso – precisamos aprender a jogar. Teoria! O Artista sereno, dizendo-se um camponês do Zaire, só ri.

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