• Revista Sphera

Três poemas de Alcides Buss

Atualizado: 21 de out. de 2021

O nosso lugar


Um rio é apenas um rio

mas nenhum pintor ou poeta

será capaz de pô-lo por inteiro

numa tela ou no livro de mil páginas.


O mar é mais. Uma só onda,

porém, frustrará

quem dela tentar se apossar.


O córrego nos fundos da infância,

tão avesso à grandeza,

perderá nas cores ou palavras

o que dia e noite

pra longe de tudo leva.


Por que então, poeta, te dás

ao martírio de buscar

até a exaustão das forças

o que malmente de raspão

te toca ou logras alcançar?


– Não importa!, diz o tempo.

Até de folhas mortas se faz

o sonho. O mar que nele transborda

é onde sempre cabemos.




Metáfora do céu


Também no céu

os rios são móveis.


Avançam. Recuam.

Baldeiam-se à esquerda,

à direita.


Assim como o amor

e o ódio, os rios

são móveis.


Não há limites

no céu, a não ser

o véu do mistério.


Metáfora inúmera,

encobre os lábios

com a lábia fortuita.



O sonho


Antílopes, de onde vêm

quando surgem no sonho?


Acolho-os por não saber

que sonho. Mas de mim

se vão, levando

um pouco da luz

que permeia, entre nós,

o mistério da vida.


Criaturas de sonho, por que

me fazem saber

que em mim estiveram?


Ao longe, escuto-os

em quase inaudível trote selvagem.

Escuto-os dentro de mim

qual leito de um rio.



Alcides Buss por © Daniel Queiroz

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