• Revista Sphera

Sete poemas de Maria do Sameiro Barroso

Atualizado: 21 de out. de 2021


A noite e a brancura


A brancura não existe. As papoilas apoderam-se das paisagens vermelhas do meu longo caminho. Antiga como um sonho é a tua palavra de homem triste, vivendo com vinho e sementes verdes sorrindo na tua boca. Habitas um aroma, o esquecimento, os mapas transparentes que adivinho nas tuas mãos.

És um nome, um rosto, uma memória de Outono, um fio silente, uma ilha límpida, e chegas às estações de luz sem idade nem tempo. De nada foges. Febre e gelo andam de mãos dadas. Lágrimas e sorrisos falam-te dos ciclos de Verão quando colhes as tangerinas aciduladas do Inverno.

O branco não existe na tua sonolência livre e fragmentária. O teu universo é sombrio, pleno e difuso. O teu pensamento nasce das plantas que crescem nas sombras trituradas dos cemitérios da noite. Não há retratos exactos na tua memória, apenas névoa, pássaros, angústia e poetas mortos. Há estrelas, espectros e cintilações nas tuas pálpebras.

A brancura não existe no teu longo caminho, apenas a harmonia sonâmbula das tuas deambulações onde nunca te fechas em trilhos que se esfumam e caminhos obscuras dançam no teu cérebro como rosas intermináveis.

Então, abres as tuas janelas, precipitas-te pelas portas sem luz, perdes-te nas ruas, cantas as pedras, os dias, as rosas vermelhas. Os rios levam-te ao mar e ao sonho.

É aí que te abres aos paraísos efémeros que permanecem no teu corpo diáfano, com as suas máquinas de perfilados enigmas.



Cenários


Os violinos são puros como sentimentos, rondam o rosto, o destino, a pele. Com eles volto à inocência, à infância, ao tempo de metamorfoses irreversíveis. Outrora, procuravas as tuas fronteiras na destruição do tempo.

Agora, os despojos das primeiras flores ateiam os teus archotes. Perco-me nas suas melopeias rubras, lentas, feiticeiras. Morro com as bailarinas brancas de cenários invisíveis. Sei que voltarei às paisagens verdes, ao poema futuro, ao tempo de cristal. A minha herança é outra e reclamo-a. O meu cérebro é uma maré atroz de gotas e murmúrios. O meu nome é solitário. Por isso, o digo, o grito, o escrevo nas tempestades. Nos raios mais claros, escrevo o meu rosto, os meus olhos, a minha pele.

E volto à noite antiga e pura do nada, lugar onde se guardam os esqueletos de marfim que falam de esmeraldas e de águas místicas, fiéis aos seus corpos, sombras de medo e de lírios que ardiam na escuridão do mundo.

Volto à noite, ao som de melodiosos alaúdes e violinos. Outrora, os mortos procuravam credos, crenças, moviam a distância, naufragavam em busca do sol, deambulavam nos seus ataúdes, floresciam na sua ausência. Os seus corpos eram trompas metálicas.

A sua música ecoava. A música onde beberam, na sede, a urgência da eternidade.




Novembro


Assim se morre de outra forma, depois do Verão, depois da trégua. Como um poema escrito em Novembro, assim é o meu sentir neste momento. Os cavalos eaproximam-se. São sempre os mesmos. Passeiam-se pelo mar. Aproximam-se fogosos. Esfumam-se no ar.

É uma história longa e triste, um deslumbramento que se cumpre, uma espuma que se faz e se desfaz nesta história antiga e renovada, neste sentimento que nunca se repete.

Assim se morre. Assim se vive de outra forma. Assim termina um ciclo de Outono de ciclâmenes. Visto-me de dor, de mãos dadas com as rosas, as tílias e os trevos. A escuridão terá terminado.

Ou já se levantará um outro vento.




Máscaras de outro tempo


As violetas são a tua razão inesperada, quando tiras as máscaras e fazes da tristeza um imenso vocábulo com raízes azuis e caudais de lava. Com as máscaras de outro tempo, fazes torres que caem em tapetes de pétalas. É preciso ler os teus olhos, as amonites, as espirais do vento. Há que encontrar os fósseis nas tuas tatuagens de Inverno. Há que ler as horas e esquecer que vivemos em florestas submersas.

Um dia, acordamos e não sabemos de ninguém. Então, o nada é um bosque, um cipreste, uma flor que inventas, porque só assim consegues captar as lendas triunfantes que colhes nas cores dos lilases ao crepúsculo.

Desnudas o sonho na tua pele e bendizes as ditosas sinfonias do esquecimento. As violetas são a luz das tuas máscaras e espelhos. E, quando o silêncio te transforma, despedes-te dos disfarces, saúdas a noite, avanças pela música e começas a sorrir, tu, criatura mortal, desperta e branca.




Rostos


É o rosto dos cavalos que partiram há muito tempo e desapareceram na névoa. Hoje, não sei de que rostos falo. Há rostos que se vão. Outros que voltam. Como as noites em que as cerejas despertam. Não sei o que sentes, nem o que teus lábios transcrevem. As palavras morreram há muito tempo. No seu sentido mais profundo, a pertença é o amor e as raízes o que nos traz de volta.

É Abril. Há flores mortas, um tapete de cinzas e plantas que murcham com as marés da lua. Há árvores que se erguem. Outras que morrem. Os cavalos negros partem com a noite dos teus olhos. Outrora, foste um tapete verde de folhas e sorrisos. Perdeste-te nos trilhos de estrelas. Pertences ao tempo, às heras, às ruínas, aos templos, aos degraus e às aras dos deuses que morreram.

Vives ainda na memória dos que partiram para não mais voltar.




Penélope


Penélope era feliz, sabia por que bordava. Os seus olhos eram tapetes, jardins que tecia para enganar os pretendentes que a sitiavam, fiel a Ulisses e aos bordados que desfazia ao amanhecer.

Eu era fiel também. Mas não era feliz. Revía-me em Penélope. Todas as noites, desfazia os meus tecidos. Não sabia por que bordava. Nem quem enganava. Tecia e destecia o meu sonho e a minha verdade. Olhava-me nos meus espelhos. As folhas mortas traziam-me imagens, espectros e olvidos.

O mundo não era exacto. Não uma nuvem, um pássaro ou um poema. Os relógios naufragavam em céus cinzentos e águas amarelas. À noite, naufragavam as cinzas dos meus dias. Os meus tapetes, tecidos de lã e estrelas, rasgavam-se como meus versos, feridos na luz da manhã.




Cavalos


Os cavalos trazem as lendas dos corpos triunfantes, a pertença aos instintos puros, à noite, aos desenhos de água, às paisagens despovoadas da lua. São símbolos de mar, velas, barcos. São a leveza que chega ao crepúsculo, quando percorrem as planícies insones. Infinito é o horizonte onde se acercam.

Por vezes, o seu fogo paralisa-me, a sua fragilidade, a sua nobreza, a sua herança antiga de volúpia e música. Os homens renderam-lhes homenagem na paz, na guerra, nos grandes momentos da História. Os cavalos aproximam-se, obcecam-me. Cantam o corpo e o mistério. São a pulsão infinita onde Eros e Tanatos se fundem.

Os cavalos atingem-me com a sua certeza clara, inventam os teus passos, trazem-me a tua doçura pelas dunas onde as papoilas morrem.

Nos cavalos, leio a linhagem do vento. De manhã, nas escarpas íngremes, as cotovias cantam, os dias são azuis, as nuvens afastam-se, os meus pulmões enchem-se de silêncio e penso nos días em que talvez os meus desertos terminem.




Maria do Sameiro Barroso


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