• Revista Sphera

Três poemas de Paulo Lins

Atualizado: 14 de set. de 2021

Teu nome é meu

Para Amélia Lins


Ela me deu vinte e oito cavalos dourados vinte e oito armaduras de ouro vinte e oito procuras e desejos

E fez-me ator e bailarino e poeta e a rima rima com o ímã O amor rima com o temor Barrocos e concretos sabem isso


Cri, vi, escrevi este escrito

sem segredos, sem desejos Ele se lançou no ventre colocou-se dentro da força do ímã que existia entre ela e eu.


Hoje não existe Península Ibérica, nem África, nem a ânsia de mundo novo O meu amor morreu de temor nessa manhã de mármore e vento que se instaura em minha voz


Minha voz, meu refúgio foz de minha existência que abandonou o canto que abriu mão da loucura


Só um coração tem voz para dizer que está farto largando a tristeza, essa locomotiva, nas linhas de ferro do eu de nós


Eu, que tantas outras vezes, morri de tiro facadas porrada e América de novo pronto para morrer do novo


Eu, pronome pessoal de todas as pessoas O pronome substitui o nome, mas o nome não substitui o ser então vou falar seu nome, vou digitar seu nome, pois até

o seu pronome morreu contido na pessoa Só restou o nome, o nome que fica para os poetas.



Feto feio


Fui feto feio feito no ventre do Brasil

estou pronto para matar

já que sempre estive para morrer

Sou eu o bicho iluminado apenas

pela fraca luz das ruas

que rouba para matar o que sou

e mato para roubar o que quero

Já que nasci feio, sou temido

Já que nasci pobre, quero ser rico

e assim meu corpo oculta outros

que ao me verem se despiram da voz

Voz solta virando grito

Grito louco ao som do tiro

Sou eu o dono da rua

O rei da rua sepultado vivo no baralho

desse jogo

O rei que não se revela

nem em paus

nem em ouro

nem em espada

nem em copas

Se revela em nada quando estou livre

renada quando sou pego

pós nada quando sou solto

Sou eu assim herói do nada

De vez em quando revelo o vazio

De ser irmão de tudo e todos contra mim

Sou eu a bomba humana que cresceu

entre uma voz e outra

entre becos e vielas

onde sempre uma loucura está para acontecer

Sou seu inimigo

Coração de bandido é batido na sola do pé

Enquanto eu estiver vivo

todos estão para morrer

Sou eu que posso roubar o teu amanhecer

por um cordão

por um tostão

por um não

Me meço e me arremeço na vida

lançando-me em posição mortal

Prefiro morrer na flor da mocidade

do que no caroço da velhice

Sem saber de nada me torno anacoluto insistente

Indigente nas metáforas de tua língua vulgar

Que não se comprometeu

Pois a minha palavra

(a bela palavra)

Inaugurada na boca do homem, a dama maior do

artifício social

perdeu a voz

Voz sem ouvido é mero sopro sem fonemas

É voz morta enterrada na garganta

E a pá lavra vida muda no mundo legal

me faz teu marginal



A vida


Se escravo grito

Se escrevo luz

Em credo em cruz

Ave no mar

Haver por ser ave

Ser ave por ser

Ave ser e querer a sorte do teu jogo de azar


A onda do corpo é o desejo e a noite o mais belo dos animais

Não sou delírio lírio rio, mas te contexto

Encalacrado de medo calado

apodrecido num sonho, gerando as pedras de meu caminho


Brasília ergue a sua asa norte e voa e tua língua mingua

em todas as luas que vão entre o meu pescoço e meu ouvido

E queres a atitude, a negritude, o som do tam tam

Queres toda Bahia que mora em meus quadris


Mas a de ventre, muito ventre, tanto ventre

de onde sairão tantas outras vozes

com muito blue nos tons

E tanto Estácio nos pés.




Paulo Lins


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