• Revista Sphera

Sete poemas de Jardel Dias Cavalcanti

Guernica


Estilhaços de imagens

Corte e recorte de mortes

O pincel-granada rasgando figuras

Sob a luz vítrea da lâmpada


Fragmentos de corpos

Nenhuma cor - apenas o que é cinza:

A humanidade perdida.




Ao meu pai


O sol não foi generoso com você

enquanto esteve aqui

- meu duro pai de olhos meigos -.

Um homem pode ser simples

ter a alma calorosa e grande.

Quem se importa se você não fez mágicas?

Você cortou a grama, cuidou das plantas,

sempre esteve um pouco aborrecido

com o cigarro queimando (a vida) entre os dedos.

Alimentou a todos, trabalhou por isso,

um pouco para si – que és humano, afinal! -.

Não se importe se fui para o mundo,

se soltei-me de suas mãos

enquanto você ficava em casa.

As trilhas do silêncio também me habitavam

nos sonhos que você sonhou

para que eu também pudesse sonhar.

Enquanto isso fui construindo asas de metal

e pétalas de flor

- peso e leveza minha alma-.

Eu me libertei de você

tentando te libertar de mim.

Devíamos temer esse acordo?

E no momento em que você nos deixou

ficou a certeza, a única, de hoje:

nunca saberei como você me sentia,

nunca saberás como eu te sentia.




Ney-Cazuza


(para Ney Matogrosso e Cazuza)


Aquele pivetezinho da praia

Parecia um anjo de pele queimada

despencado do céu.

Lindo. Dengoso. Falante.

Um vapor de maconha no seu hálito.

Um cheiro de sal na sua pele.

Para cantá-lo, eu cantei para ele.

Sob um dia solar no Leblon

Fui provocado e caí na sua teia.

Seu toque desarmou amarras do meu peito.

Voei por abismos de afeto.

Essa conexão – do anjo de cabelos cacheados

Com o fauno tropical –

Era tudo o que a poesia queria.

Aquele menino destrambelhado

Com o pau para fora

Com ele eu tudo podia.

Não podia ser diferente

O que eu queria:

Enquanto o mundo inteiro dormia,

A gente fodia.


O poeta de BH


(Dedicado ao Mário Alex Rosa)


O poeta não está na cidade

Em algum lugar ele permanece

Sapatos gastos, coração traído

Suas roupas estão largas

Sua vida não se ajusta.


Conhece cada reduto

A ponto de não querer mais

Atravessar esquinas ou

Visitar quebradas

Clube nenhum o cativa

O vento frio o empurra

Para dentro de cobertas de aço


O poeta mora aqui

Mas poucos sabem

Que ele desapareceu


O reflexo no vidro do prédio

É de um fantasma antigo

De outro poeta

Que o antecedeu.




Notícia


A notícia de sua morte

- sim, a morte que virá –

Me deixará abalado.

Estou pensando na casa vazia

e todos aqueles papéis secretos

que você deveria ter queimado.

Os invasores não perdoam os segredos.

Tantos livros grifados, fotos do amor,

bilhetinhos ofensivos e magoados

sobre o amigo indesejado.

Um amontoado de discos lindos

e vídeos pecaminosos na reserva.

E eles vão tentar decifrar

os dois caminhos percorridos

entre a santidade e a baixeza.

Todos esses bens, esses finos

objetos da contemplação

e tantos outros para a perdição

irmanando-se numa única alma.

Ah! Humano, demasiado humano!

Esperavam a claridade da manhã

e lhes aparece um soturno céu

de máculas baudelairianas.

Gavetas sem chaves, armários livres,

cofres abertos com contracheques

de programas e estupefacientes.

Não querem nem olhar,

mas não deixam por menos

e devassam fundo sua alcova.

Porque sempre suportaram tudo,

menos a sua discrição.




O amante do vulcão


(para Susan Sontag)


Tu te sentes atraído pela boca da cratera

A beleza de suas contorções luminosas

O calor de seu fogo cintilante

- buquê mortal alumínio-laranja -

Seus estranhos movimentos

Azul-negro de queimar

Tubos de tinta em explosão

Fazem uma tela de Pollock

Tesouro visual em expansão

Tu te sentes tão atraído

A ponto de para dentro dele

Querer se jogar.




Café noturno


(para o Ronald Polito)


Todas as vezes que você sai

Para comprar cigarros

Trafegando por ruas escuras

Você aproveita para respirar

Você pensa e nunca deixou de pensar

Se tivesse asas poderia voar


O café noturno aberto

Um rapaz bebendo cerveja

Você pede um isqueiro

Como quem pede um beijo

Você não quer ver o rio passar

Aproveita para deitar-lhe seu olhar



Jardel Dias Cavalcanti

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