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“Nunca esperei muito”

Atualizado: 3 de jan.

Anelito de Oliveira entrevista o moçambicano Pedro Pereira Lopes


A pujança da literatura moçambicana no controverso espaço contemporâneo é fato notável. A quantidade enorme de estudos acadêmicos no Brasil sobre essa produção e até uma Editora prioritariamente engajada na sua divulgação – a Kapulana – são referências eloquentes dessa pujança.


Nas duas últimas décadas, algumas vozes jovens têm chamado atenção para si mesmas como consequência praticamente natural das tensões que passam a caracterizar o campo literário à medida que este vai-se consolidando. Moçambique pós-colonial, assim como os demais países africanos que se livraram das garras do Colonialismo nas últimas três décadas do século XX, não é mais um espaço sociocultural homogêneo, onde todos estão do mesmo lado ideológico, lutando contra um inimigo comum - o português, branco, colonizador.


O espaço pós-colonial, até mesmo em razão da chamada “guerra dos 16 anos” (1985/2001), é culturalmente heterogêneo, representando, desse modo, a heterogeneidade que se impõe como traço característico da vida social moçambicana hoje.


O jovem Pedro Pereira Lopes (PPL), nascido em 1987, afirma-se cada vez mais como um ícone desse novo contexto, uma voz atravessada pelas perturbações do país, atormentada, portadora de inquietudes que não lhe pertencem exclusivamente, que são de sua comunidade desejosa de acontecer.


Com a entrevista a seguir, realizada por e-mail em outubro deste 2022, Sphera (SPH) ressoa a voz do poeta, ficcionista, autor de livros infanto-juvenis, editor da Gala-Gala Edições, professor, o admirável amigo da rebeldia que precisa ser ouvido: nosso amigo Pedro!





SPH Como situa sua obra na dinâmica literária moçambicana?


PPL Eu não sou a pessoa adequada para comentar sobre a minha obra, ou, pelo menos, sobre o espaço que ela tem na esfera literária de Moçambique. Sou somente um escritor, não um crítico literário ou académico das áreas de artes ou letras. Tenho publicado bastante, de uma forma regular, entretanto, a maior parte de meus livros é para o público infantil e juvenil e Moçambique não tem uma crítica académica, ou seja, especializada, para um nicho literário novo e em crescimento.



SPH Que autores considera mais importantes na sua geração?


PPL Tenho também dificuldades em discutir a questão geracional. Eu nasci em 87 e começo a publicar em 2012. Creio que, em termos temáticos, de forma e estilo, faço parte da geração que começa a publicar a partir de 2000. Então, deve ser o que chamam de “geração pós-Charrua”, em referência ao grupo de escritores como o Ungulani Ba Ka Khossa ou o Armando Artur, que iniciaram e publicaram a revista “Charrua”. É uma vaga de escritores muito grande e poderosa, de bons poetas e prosadores. Desta linhagem, penso que os autores Adelino Timóteo, Sónia Sultuane, Sangare Okapi, Lucílio Manjate, Rogério Manjate, Mbate Pedro, Andes Chivangue e Hélder Faife têm já, o respeito e a admiração da crítica nacional e internacional.



SPH Como vê a relação entre a sua geração e a geração 1970/80, da guerra anticolonialista?


PPL Há muito pouco diálogo social. Quase inexistente, mas eu diria que há algum diálogo literário, no sentido em que há alguma recuperação da estilística e da forma, em especial. Há uma certa (re) descoberta da poesia da época, da Noémia (de Sousa) ao (José) Craveirinha, mas também da poesia do Rui Knofili, Orlando Mendes, Virgílio de Lemos e Rui Nogar. Veja, porém, que estamos a falar de uma poesia bastante peculiar, onde, com alguma excepção, se verifica alguma partilha. O mesmo se pode falar da narrativa.



SPH Qual a importância de Craveirinha em sua obra?


PPL Acho risível existir um autor moçambicano que não tenha lido ou sido influenciado, em algum momento de seu percurso literário, na sua fase iniciática, por Craveirinha. Ele é cânone, o nosso poeta-mor, o escritor mais celebrado, seja literariamente seja politicamente. É, também, um herói nacional. De certa forma, devo ter escrito os meus primeiros poemas inspirados em sua poesia. Hoje, creio que o que ficou de craveirinhesco em mim é a frontalidade, o realismo e as denúncias/críticas sociais que lhe caracterizavam.



SPH Qual a importância de Luis Bernardo Honwana em sua obra?


PPL Na literatura moçambicana, o Honwana é talvez tão importante quanto o Craveirinha. É também Cânone, logo, os seus textos me foram introduzidos ainda cedo, pelos manuais escolares. Também, como Craveirinha, tem um livro na lista dos 100 melhores de África do século XX. O seu Nós matámoso cão tinhoso é uma narrativa única no universo literário de Moçambique, fundacional e fundamental; um livro de denúncia, em essência. Experimentei contos breves como os seus, em A invenção do cemitério (2019), igualmente uma prosa dura e imagética, de diálogos fortes e satíricos.



SPH Como analisa o conceito de “moçambicanidade” hoje?


PPL Uma ideia ainda em construção. Como projecto, a moçambicanidade nasce, efectivamente, em 1975, na Primeira República, com a primeira constituição. A literatura, a de combate, em especial, teve um papel interessante para a edificação do que se chamou de “homem novo”, que ficou marcado pela igualdade de todos perante a lei (ou a universalização do acesso aos bens e serviços sociais) e a eliminação da tribo (“para construir a nação”, como se apregoava). Existem controvérsias em relação a este processo; muitos defendem que não era preciso “desconstruir a tribo” para tal, sendo apologistas da “união na diversidade”. Eu penso que foi um processo necessário, ainda que polémico. É um processo sem fim, é claro, mas o projecto da Primeira República nunca foi concretizado. Hoje ainda nos questionamos “quem é o moçambicano” e se ouvem expressões como “moçambicano de gema”, como se existissem os autênticos e os não originais.



SPH O que distingue a literatura moçambicana das demais Literaturas Africanas de Língua Portuguesa?


PPL Não sei, o facto de sermos um outro território, localizado nas margens do Índico, na África Austral? Como diz o Mia, “cada homem é uma raça”, cada povo é um único e, por consequência, a arte.



SPH Que lugar atribui à tradição oral na Literatura moçambicana?


PPL Não gosto quando reduzem as literaturas africanas à tradição oral. Eu penso que é um equívoco propositado, que enfatiza o discurso da não existência da escrita e de literatura antes da colonização. Posso estar errado? Talvez. Para mim, todos os povos cultivaram ou cultivam a “tradição oral”, da China ao Quênia, e ela, quer queiramos quer não, teve sempre um lugar no fazer literário. Acontece que devido aos processos históricos e, depois, políticos, países como Moçambique viram a necessidade de “eternizar” a sua tradição, o seu folclore, no texto escrito.



SPH Como define a situação pós-colonial na literatura moçambicana?


PPL Muita coisa se pode dizer, entretanto, penso que um académico de literatura faria um melhor trabalho no meu lugar.



SPH O que pensa sobre a relação entre a literatura moçambicana, a portuguesa e a brasileira?


PPL A literatura moçambicana foi sobejamente influenciada pela portuguesa, por conta da colonização, é claro, e pela brasileira, com destaque para Machado de Assis, Guimarães Rosa, Jorge Amado e Drummond, no período pós-independência. Os escritores jovens, da minha geração, têm descoberto outros, como a Clarice, o Leminski e o Gullar.



SPH Como avalia a recepção crítica da literatura moçambicana pela Universidade no Brasil?


PPL É interessante, pois, em Moçambique, os santos não fazem milagres, quer dizer, a nossa crítica é mórbida, entre fantasma e inexistente. É útil frisar que estou a falar da crítica à literatura da minha geração. Os críticos académicos ficaram presos aos seus autores, se não conhecem, ignoram a literatura jovem. Então, para alguém como eu, que publica há dez anos, ser lido e merecer a crítica académica brasileira, não tem preço. É meio triste, para ser sincero, mas temos a tradição de sermos reconhecidos antes fora para sermos valorizados dentro do país.



SPH Como pensa a mesma questão em relação a Portugal e outros países europeus?


PPL Nunca esperei muito. Creio que os meus pares, os menos ingénuos, também nunca tiveram grandes espectativas. Portugal deixou de ser a entrada para a Europa para os escritores de língua portuguesa. Há muito pouco interesse. Creio que a nossa última esperança é ser lido no Brasil, pelo passado comum e pela sua dimensão (territorial e populacional).



SPH Como percebe a dinâmica editorial hoje em Moçambique?


PPL Moçambique é uma nação de poetas, não de livros. Se calhar, na época do socialismo, a coisa estava melhor. Era possível imprimirem-se 10 mil exemplares. O Estado era presente. Hoje, com o liberalismo, com o capitalismo selvagem, quase que não existe uma indústria do livro. O fraco mercado editorial que existe não sobrevive do livro, as edições dificilmente ultrapassam 1000 exemplares e as vendas, ainda que actualmente tenhamos mais gente escolarizada, reduziram. Existem vários problemas estruturais, como a falta de incentivo à indústria gráfica e editorial e outras políticas culturais. Felizmente tem crescido o número de editoras, as editoras indies”, mas os problemas ainda persistem.



SPH Como avalia o desempenho da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos) em prol da literatura moçambicana?


PPL Ainda existe a AEMO? Creio que não. A AEMO já não representa os escritores moçambicanos, nem aos que a ela estão afiliados. É uma associação decadente, constrangedora e perigosa. Não no sentido criminal, mas devido a ausência de propósitos e escrúpulos. Não serve aos interesses de metade de nós. Nunca fez nada por nós, pela minha geração.



SPH Que peso atribui ao Índico na dinâmica literária moçambicana?


PPL O mar e as ilhas são pontos de partida e de chegada, o que traduz, de certa forma, a ideia de viagem, de busca de alguma coisa, real ou fictícia. É esta possibilidade que permite ou permitiu a existência de uma encruzilhada de costumes, de tradições, de culturas. Ao longo dos tempos, chegaram os chineses, os árabes, os portugueses, outros africanos, graças ao mar Índico. Daí, talvez, a obsessão dos nossos poetas e prosadores por essas referências, pela ilha, pelo mar.



SPH Qual o valor de prêmios literários para a literatura moçambicana hoje?


PPL Os prémios nunca fizeram os escritores, estou a parafrasear. Acontece o mesmo em Moçambique. Está claro que alguns prémios possibilitaram a primeira edição, em livro, de jovens. O meu primeiro livro foi fruto de um prémio. Mas muitas vezes é só isso. A publicação e o valor monetário. Por um lado, pouquíssimos prémios literários validaram ou legitimaram os seus vencedores. Por outro, tem havido muita desconfiança em relação aos prémios. Os escritores e a sociedade têm questionado não só os regulamentos, mas também a composição dos júris. Por isso, alguns prémios chegaram a deixar de existir, o que, se calhar, é uma grande pena.



SPH Como avalia o papel do Estado na literatura moçambicana?


PPL O nosso Estado? Fez alguma coisa no passado, hoje, nada do que se faz, produz ou edita conta com o apoio do Estado e do seu respectivo ministério de tutela. É uma situação absurdamente infeliz. Não existem recursos ou iniciativas para qualquer coisa ligada ao livro ou ao autor.



SPH Finalmente, que futuro percebe para sua geração literária?


PPL O meu amigo, o escritor, crítico literário e ensaísta Marcelo Panguana diz que, dos PALOPS (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), Moçambique está a produzir a melhor literatura, ou seja, livros importantes e com qualidade literária. Contrariamente à inexistência do fomento estatal, o número de publicações e iniciativas ligadas ao livro têm aumentado. Temos, hoje, muitos escritores jovens a publicarem. Futuro? Caberá ao tempo justificar.



PPL e Lilia

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