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Leia conto de “O perigo amarelo e outros contos”, livro do angolano João Melo em vias de sair no Brasil

Atualizado: 1 de jan.



 

 

O angolano que não gostava do verbo malhar por João Melo




 

         Esta é daquelas estórias que, se não tiver acontecido, terá de ser inventada. Por isso, tenho de conta-la. A maka é que não sei como. Quero desesperadamente fazê-lo, mas uma série de bloqueios inexplicáveis e sombrios manieta-me a imaginação e o verbo. Talvez seja por causa dos protofascismos que grassam e se multiplicam por todo o lado. Vivemos tempos ambíguos, em que pequenos gestos e auto-permissões são raivosamente criminalizados (por exemplo, fumar na rua está em vias de provocar manifestações de repúdio sinceras e violentas, elogiar uma mulher ou um homem, mesmo conhecidos, é considerado um crime lesa-humanidade e comer carne de vaca será brevemente considerado o décimo-primeiro pecado mortal). Em nome da necessidade – real e legítima – de combater e punir os excessos, os abusos e os crimes, o bom senso e a razoabilidade são questionados e perseguidos pelos cérebros bem pensantes, que, como no aforisma chinês, esticam o dedo indicador em direção ao céu e levam as massas neo-revolucionárias, alegadamente liberais e democráticas, a acreditar que o referido dedo é uma escada para a pureza, a justiça, a ordem e a felicidade, quando pode simplesmente – perdoai-me a crueza - estar a manda-las “pró caralho”. Até o humor e a ironia são olhados com suspeição e, muitas vezes, colocados de quarentena. Ser escritor em tempos assim, quando os campos se misturam de tal maneira que se torna árduo, embora não impossível, identifica-los, implica estar à mercê de flechas envenenadas provenientes de todas as direções. Acontece que é precisamente nesses tempos que urge fazer da literatura uma espécie de tambor. Como se sabe, quanto mais se bate num tambor, mais altos se fazem ouvir os seus cantos, os seus lamentos e os seus incitamentos.

         Arrisco-me, pois, alegre e irresponsavelmente, a contar a estória do angolano que não gostava do verbo brasileiro “malhar”. Este último, como saberão alguns leitores, mesmo que inimigos ferozes do acordo ortográfico da língua portuguesa, significa “fazer exercícios físicos”, “fazer ginástica” e outras atividades semelhantes. Não conheço a sua origem etimológica e também eu estranhei da primeira vez que lhe dei encontro (expressão que só nós, angolanos, usamos e que me apresso a introduzir neste relato, antes que algum patrulheiro linguístico me acuse de falta de nacionalismo; de quando em vez, levantam-se na imprensa local umas ondas contra a suposta influência das novelas brasileiras na linguagem dos angolanos e eu não quero ser confundido com isso). Por uma dessas contradições em que a vida é prenhe, contudo, Américo V.A. (é assim que se chama o angolano que não gosta do verbo “malhar”, no sentido brasileiro; tenho de identifica-lo logo, pois ele pertence a uma família importante) não descortinava nada de estranho, no início, no verbo em causa. Assim, utilizava-o livre e descomplexadamente e até com alguma frequência, pois também ele se preocupava com a sua saúde e bem estar e sabia perfeitamente que fazer exercícios regulares contribui para esse objetivo, que todos deveriam procurar alcançar. A comprová-lo, Américo V.A. malhava todos os dias, exceto aos fins de semana, numa academia perto de casa. A exceção dos fins de semana justificava-se por uma razão simples: como angolano de gema, não prescindia de uma boa funjada, acompanhada de um feijão de óleo de palma, aos sábados, assim como de um bom muzonguê aos domingos, seguido de umas lagostas, gambas grelhadas, caldeirada de cabrito ou mesmo um cozido à portuguesa com todos, tudo isso regado com um bom vinho do Alentejo. Ele fazia parte de uma família angolana importante, logo, tinha uma tradição a preservar.

         O que têm o cozido à portuguesa e os vinhos do Alentejo a ver com as tradições angolanas, ousais vós perguntar? Não me arranjem makas desnecessárias, por favor. Explico esse mistério escabroso numa outra altura.

         Américo V.A. (ele não gostava de ser chamado apenas pelo primeiro nome) ia muitas vezes ao Brasil. Começou por lá ir convidado por uma multinacional brasileira que operava em Angola e, desde então, nunca mais deixou de voltar. Chegava a ir três a quatro vezes por ano: nunca faltava nem na Passagem de Ano nem no Carnaval, o que não tem nada de original, mas, além disso, procurava ir também em outras alturas. Sempre que não tinha motivos para isso, inventava um pretexto qualquer. Para dizer a verdade, ele apaixonou-se pelo Brasil desde o primeiro dia. Isso também não tem nada de original, pois até um escritor famoso e um político da oposição que eu conheço juram que são descendentes de famílias brasileiras, mas tenho de dizê-lo para, digamos assim, arredondar a estória. É que – antecipo – a sua relação afetiva com o Brasil sofrerá uma evolução que, por enquanto, eu ainda ignoro, mas cuja causa posso reiterar: o verbo “malhar”.

         A princípio, e como já disse, esse verbo não lhe provocava quaisquer engulhos. Ele também gostava de malhar, isto é, de fazer exercícios para manter a boa forma. Sempre que fosse ao Brasil, a primeira informação que pedia na receção do hotel era em que piso ficava o ginásio, uma vez que tinha de manter a rotina de malhar de segunda a sexta-feira. Aos sábados e domingos, substituía o funje e o cozido à portuguesa, respetivamente, pela feijoada brasileira e pelo rodízio. Às vezes, aos domingos, trocava a churrascaria por um restaurante baiano, onde se deliciava com uma boa muqueca, normalmente de frutos do mar. Do que ele sentia mais falta, aos fins de semana, era de um vinho alentejano, mas, pensando bem, uns chopes (epá: uns finos...), após duas caipirinhas de entrada, também resolviam o problema, se é que havia algum.

         Lembra-se, como se fosse hoje, da primeira vez em que foi ao Brasil e o funcionário da receção do hotel onde a companhia o hospedou lhe perguntou, depois de explicar onde ficava o ginásio:

         - O doutor também gosta de malhar? Pois faz muito bem... Precisa ficar sarado para essas gatinhas aí...

         Aquele excesso de informalidade incomodou-o um pouco – ou não fosse ele de uma família tradicional angolana (elas não gostam que se diga isso, mas o facto é que herdaram muitos tiques lusitanos). No entanto, conseguiu sorrir.

         Todas aquelas palavras eram novas para ele: “malhar”, “sarado”, “gatinhas”. Apesar disso, Américo V.A. registou-as como se sempre as tivesse escutado. Mais do que registar, acolheu-as, como se fizessem parte do seu DNA linguístico. E, na realidade, faziam-no, como ele sabia perfeitamente.

         Aqui, tenho de fazer um parêntese para avisar os leitores que, porventura, estejam tentados a ter de Américo V.A. uma visão estereotipada, talvez devido a alguma imprudência que o narrador tenha deixado escapar, que ele irá surpreender-nos a todos até ao fim deste relato. De qualquer modo, terão de aguardar pelo fim da estória para sabê-lo em todos os detalhes.

         O que posso dizer, para já, é que ele não era nenhum bronco. Além disso, era licenciado em Filologia pela Faculdade de Letras de Lisboa. Também continuava a dar a devida importância às lições da História, mesmo correndo o risco de ir contra a corrente dos tempos atuais, caracterizados, como se sabe, pela instantaneidade e pela fugacidade, o que explica o profundo desprezo pelo tempo – sobretudo o tempo para pensar - manifestado a cada minuto pelas gerações mais jovens.  Ele sabia, por isso, que as palavras viajam, intercambiam-se, alteram-se, morrem, renascem, inventam-se, dispensam-se, reivindicam-se, confrontam-se e, sobretudo, quando o seu uso tem um peso irrefutável, impõem-se por si mesmas. Por outro lado, no caso peculiar do relacionamento entre angolanos e brasileiros, sabia – porque o estudara – que aqueles tinham levado para o Brasil centenas e centenas de palavras criadas pelas suas línguas originais, as quais, pela sua irrevogável necessidade, se introduziram na língua ali falada, tornando-se seus elementos constitutivos até hoje, tais como, apenas para dar alguns exemplos, carimbo, cafuné, quizomba, quitanda e tantas outras. Américo V.A. lembrou-se, a propósito, de um certo escritor angolano que um dia, numa conferência na respeitável Universidade de Coimbra, escandalizou a plateia:

         - A mais famosa palavra brasileira – “bunda”, pois claro – é angolana. Vem do kimbundu “mbunda” e refere-se exatamente à mesma peça anatómica, tão cantada pelos próprios brasileiros e cobiçada pelos estrangeiros que visitam o respectivo país.

         Descontado o exagero, portanto, não via nenhum problema, séculos depois, em usar, embora fosse um angolano de gema, palavras – novas ou velhas – introduzidas em Angola pelas novelas brasileiras e outras formas de contacto de que ele – não resisto em deixar escapar essa inconfidência, pois ela está relacionada com o que irá acontecer a Américo V.A. no fim da estória - se tinha tornado um profundo conhecedor, após as suas constantes visitas ao Brasil. Sim, ele pertencia também a uma importante família tradicional, mas isso não significava que fosse um tradicionalista, um desses bantus empedernidos e atrasados, que acreditam, ou melhor, que defendem (“Ou acreditam mesmo? Isso seria o fim da picada...”, perguntou-se, recorrendo, sem se dar conta, a uma expressão castiçamente brasileira) uma África que já não existe mais.

         O verbo “malhar”, por conseguinte, nunca lhe causou, durante muito tempo, quaisquer problemas, arrepios ou pruridos.

         Apenas uma vez, ele precisou de esclarecer rapidamente um mal entendido que estava a gerar-se na cabeça da mulher, a propósito do referido verbo. Era um sábado e eles tinham recebido em casa um grupo de amigos. Américo V.A. tinha regressado há pouco do Brasil e estava a contar que, durante a sua estadia de duas semanas naquele país, nunca tinha deixado de malhar de segunda a sexta-feira. Só aos fins de semana é que não o fazia, pois ninguém é de ferro. A mulher dele, que tinha ido buscar mais uns cacussos ao grelhador no fundo do quintal, ouviu somente as expressões “malhar” e “ninguém é de ferro”. Quase que deu um pulo, arriscando-se a deixar cair um dos peixes, e apressou o passo até à mesa; os olhos, grandes e vivos, estavam mais abertos, as faces começavam a ficar vermelhas e a boca queria visivelmente despejar uma catadupa descontrolada de palavras, qual delas a mais verrinosa. Felizmente, Américo V.A. apercebeu-se do que estava prestes a suceder. Sem dá-lo a entender aos amigos, dirigiu-se gentilmente à mulher, que já estava diante dele, com o grelhador onde fumegavam uns quantos cacussos a tremer-lhe na mão:

         - Querida, sabes que, no Brasil, “malhar” é fazer ginástica? Estranhos, aqueles tipos... Bem, pelo menos eles não usam essa palavra no execrável sentido que a maioria dos angolanos, não sei porquê, lhe dá... A nossa malta, mesmo, é muito boçal!...

         A mulher ficou sem saber o que fazer com o grelhador. Despejou a sua raiva na empregada:

         - Marcelina! A travessa para pôr os cacussos demora muito? Vem do Brasil ou quê?!...

         Não sei porquê que a mulher de Américo V.A. fez essa referência, pois, na verdade, ela não conhecia o Brasil. Como angolano de gema, ele nunca a levara nem pensava fazê-lo. “É como levar bananas para a Madeira!”, argumentava ele, quando alguém queria saber por que nunca levava a mulher nas suas viagens ao país do Pelé e do Joãozinho Trinta. Eu poderia dizer, claro está, o país de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Manuel Bandeira, Jorge Amado, Clarisse Lispector, Ferreira Goulart, João Ubaldo, João Cabral de Mello Neto ou Dalton Trevisan; ou, então, o país de Vila Lobos, Pixinguinha, Noel Rosa, Cartola, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil ou Martinho da Vila; ou ainda o país de André Rebouças, Óscar Niemeyer, Gustavo Capanema, Nilze da Silveira, Oswaldo Cruz, Oscar Niemeyer, Joaquim Cardozo, Ivo Pitangui, Santos Dumont, Darcy Ribeiro e Milton Santos - para dar apenas alguns exemplos altamente limitados, pois não quero desmoralizar ninguém. Acontece, porém, que a malta só quer saber de futebol e Carnaval.

         E quanto a Américo V.A.? Como é que o descendente de uma família tradicional e, além disso, conhecedor de prestigiadas disciplinas científicas, tais como Filologia e História, não hesitava em recorrer a uma metáfora de baixo calibre, afirmando que viajar com a própria mulher para o Brasil seria o mesmo que levar bananas para a ilha portuguesa da Madeira, onde, como os leitores por certo já concluíram, o fruto em questão prolifera, em todas as suas versões em matéria de cores, tamanhos e sabores? Pelo menos, como angolano genuíno, poderia substituir a referência à ilha da Madeira pelo vale do Cavaco, em Benguela, onde tal fruto também abunda...

         Tenho vontade, por tudo isso, de puni-lo exemplarmente, mas um espírito qualquer alerta-me a tempo que os seres humanos são assim mesmo: ambíguos, contraditórios e paradoxais. É para tentar ocultá-lo dos patrulheiros de todo o tipo que se tornam muitas vezes dissimulados. Aproveito, aqui, para afirmar sem qualquer receio: a dissimulação deve ser urgentemente considerada um direito humano fundamental. Com efeito, somos intimados, nos tempos atuais, a promover uma transparência absoluta e obscena, mas é preciso resistir a esse totalitário canto de sereia.

         Assim, e em nome dessa nova bandeira, confesso que serei condescendente com a completa transfiguração que Américo V.A. sofria assim que pisava os pés em solo brasileiro. Não chegava, é certo, ao exagero do beijo papal, mas, mal chegava ao hotel e depois de saber junto da receção onde era o ginásio, para começar a malhar no dia seguinte, subia ao quarto, tirava o fato com que viajara, punhas uns calções, uma camiseta e uns chinelos e ia a umas termas em Copacabana. Afinal, e como ele gostava de dizer, ninguém é de ferro.

         A ida às termas era como uma espécie de batismo, que Américo V.A. repetia a cada chegada ao Rio de Janeiro. Servia para ele tomar balanço para as duas semanas de farra que se seguiriam. Após tantas estadas, já tinha umas “posições fixas”, como também gostava de dizer aos amigos, isto é, duas ou três namoradas, com quem mantinha contacto a partir de Luanda e com quem saía regularmente sempre que estava na Cidade Maravilhosa. A uma ou outra, dava de vez em quando alguma ajuda, quando disso necessitavam.

-É preciso manter o fogo da panela em lume brando... – pensava. Trata-se de outra expressão de relativo mau gosto, mas eu continuo condescendente.

Além disso, Américo V.A. estava sempre atento, digamos assim, a novas oportunidades para estabelecer contactos diferenciados (espero que entendam o sentido dessa expressão...). É que, naquele país e em especial naquela cidade, ele sentia-se verdadeiramente livre de qualquer patrulhamento, físico, moral, ideológico ou qualquer outro, mais concreto ou mais difuso.

         Nas duas semanas em que permanecia no Rio, em suma, Américo V.A. malhava à vontade, quer no ginásio, todas as manhãs, quer fora dele, no resto do dia. Os leitores iniciados percebem o que eu quero dizer; quanto, hipoteticamente, aos demais, será que, ao fim de tantas páginas, ainda preciso de lhes explicar o que significa esse verbo no português de Angola?

         De todo o modo, caros leitores, isso é tudo o que posso revelar acerca das frequentes estadias de Américo V.A. no Brasil. Se estavam à espera que eu contasse mesmo as suas escaldantes aventuras sexuais naquele país, ou não me conhecem bem ou são incapazes de avaliar a insidiosa eficácia dos actuais protofascismos, travestidos de neo-moralismos.

         O que posso acrescentar é que tudo lhe correu sempre bem naquelas viagens ao Brasil. Os regressos também sempre foram cordiais e amenos.

         - Então, amor? Como foi a viagem? Não deixaste de malhar todos os dias, pois não? – queria a mulher dele saber, sem insinuações subreptícias, sempre que ele regressasse a Luanda.

         Um dia, tudo acabou. Américo V.A. chegou à casa, depois de mais uma viagem ao Brasil, como se tivesse vindo diretamente dos campos de batalha da Líbia, da Síria ou do Yémen. Despenteado, a barba por fazer, sem um dos seus habituais fatos Armani, vestia umas calças jeans meio ruças e uma camisa de mangas curtas com motivos alegadamente tropicais que a mulher não conhecia. Nos pés, uns chinelos desqualificados. O mais intrigante é que não trazia nenhuma das malas que levara para a viagem. A mulher assustou-se.

         - Américo!... O que é que aconteceu? Que estado é esse? Foste assaltado à saída do aeroporto? O motorista não te foi buscar? – As perguntas que fazia quase que se atropelavam umas às outras.

O marido acabou de entrar, sem cumprimentá-la, e subiu imediatamente, fechando-se na casa de banho. Parecia chorar. A mulher ouviu o chuveiro. O som das águas batendo no chão do polibã continha, pelo menos aos seus ouvidos, uma fúria cuja possibilidade ela jamais imaginara.

Américo V.A. esteve uma hora na casa de banho, debaixo do chuveiro, como se quisesse livrar-se de todos os seus pecados. A mulher jurava que ele chorava, mas achou preferível esperar que ele saísse, para lhe fazer todas as perguntas que tinha de fazer, mas, no entanto, ainda estava a elaborar.

Quando, uma hora depois, o marido saiu da casa de banho, envergando um dos roupões que deixara em casa, antes da viagem, estava estranhamente tranquilo. Mais do que isso: apaziguado. Parecia um anjo redimido. De facto, olhou-a com tal serenidade que ela teve um sobressalto inexplicável. Antes que tivesse tempo de lhe dirigir a primeira pergunta, Américo V.A. disse-lhe o seguinte, como se, na realidade, quisesse dizer-lhe outra coisa, radicalmente diferente:

- Amor, nunca mais vou ao Brasil... Por outro lado, também nunca mais me ouvirás a usar a palavra “malhar”, inventada pelos brasileiros... Acabou!... Quanto ao sentido inqualificável que a nossa malta dá a essa palavra, sabes bem que nunca gostei dessas falsas kimbundices...

A mulher quis abrir a boca.

- Acabou!... – cortou ele, com doçura.

 

 

***

 

 

         (O que terá sucedido a Américo V.A. na sua última viagem ao Brasil? Como acabei de contar, ele não o disse à própria mulher, logo, como podem os leitores pretender que o revele publicamente?

         Isso apenas eu posso fazê-lo, mas tem de ser em segredo, dentro deste parêntese, por causa dos patrulheiros de todos os tipos.

Tudo aconteceu por causa de uma brasileira deslumbrante que conheceu num bar em Copacabana e por quem ficou literalmente extasiado, a ponto de faltar a um encontro de negócios, para levá-la a um hotel próximo, onde iria, finalmente, satisfazer a sua antiga fantasia, a saber, malhar uma mulata japonesa (espécime que só existe no Brasil, passe, neste caso, a vulgaridade do termo, mas também esta última é um direito humano legítimo). Até hoje, a lembrança dos seus planos, quando conheceu a nipo-mulata brasileira, dói-lhe irremediavelmente:

         - Hoje é que esta tipa vai saber o que significa o verbo “malhar”!...

         Ele devia saber que todos os planos têm consequências e que, muitas vezes, estas não correspondem às inicialmente esperadas. Entretanto, e como sua atenuante, devo mencionar que ele já tinha tomado umas caipirinhas a mais, pelo que não se lembra, inclusive, como conseguiu chegar ao hotel para onde levou a mulata ou, para ser mais preciso, foi levado por ela. Lá chegados, a mulher disse-lhe para se pôr à vontade e esperá-la na cama, enquanto ela tomava um banho e se punha “cheirosinha” para ele. Ao mesmo tempo, apagou as luzes, deixando apenas uma pequena penumbra no quarto, o que ele achou “romântico”. O banho da mulher levou uns dez minutos. Quando retornou ao quarto, tinha um roupão a cobri-la. Sentou-se na cama, no lado oposto e de costas para ele, livrou-se do roupão e enfiou-se debaixo dos lençóis, colando as suas nádegas perfeitas ao corpo dele. Ele não pôde deixar de estremecer, quase em agonia. Estava desesperadamente ansioso (era assim que ele pensava quando aquela cena lamentável assaltava a sua memória, coisa que sucedia com muita frequência) por malhar aquela mulher, como é vulgar dizer no contexto semântico angolano, o que, aliás, ele preferia mil vezes a verbos burocráticos, como “comer”, ou vetustos, como “papar”. Sim, ia malhar aquela gaja sem dó nem piedade. Se ainda não o sabia, ela iria saber, finalmente, o que era malhar de verdade, como só os angolanos são capazes de fazer.

         Ele já estava em ponto de bala. Aquelas nádegas frescas roçando no seu pau fizeram-no erguer-se imediatamente, pronto para o combate. Envolveu a mulher com os dois braços e começou a acariciar-lhe os seios, por trás, enquanto passeava a língua pelas suas costas e tentava fazê-la virar-se para ele, a fim de lhe tomar a boca. Ela oferecia uma discreta mas eficaz resistência a tais tentativas. Em contrapartida, empinava sedutoramente as nádegas, oferecendo-as, mas ele, que nunca tinha experimentado daquela forma, não leu corretamente os movimentos da mulher e não fez o que lhe estava a ser pedido, sem necessidade de palavras. Esta decidiu, por isso, esticar um dos braços para trás, a fim de empunhar o membro dele e encaminhá-lo com firmeza para o meio das suas nádegas cada vez mais erguidas e prontas a serem penetradas. Ele, decididamente, não estava a gostar daquilo. Afastou-se e, segurando com decisão a mulher pela cintura, fê-la virar-se completamente até ficar de barriga para o ar. Foi então que viu: a mulher tinha um pénis hirto e que apontava ameaçadoramente para o teto do quarto).

         Fechado o necessário parêntese, deixo os factos subsequentes à imaginação dos leitores. Se, como disse alguém, a boa literatura é risco, então que cada um assuma a sua parte.

 

 



 

João Melo (Luanda, 1955) é um dos mais destacados escritores angolanos em atividade desde a década de 1980. Poeta e contista com inúmeros títulos publicados em Angola, Portugal e, mais recentemente, Espanha, Reino Unido e Estados Unidos, onde vive. O perigo amarelo e outros contos é seu terceiro título a chegar no Brasil, onde tem tido crescente audiência nos espaços acadêmico e midiático. Escreve regularmente no jornal literário Rascunho, publicado em Curitiba (PR)

 

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